quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Recomendação de Leitura

Dado certo desapontamento recente com alguns acontecimentos obscuros do futebol brasileiro, preferi não escrever sobre o futebol brasileiro nesse momento. Mas, apesar disso, trago uma indicação de leitura que sintetiza bem o momento terrível pelo qual passa o nosso campeonato brasileiro. Excelente texto escrito pelo Jornalista Julio Gomes em seu blog no site da ESPN.




“Esse foi um fim de semana triste. Na verdade, quase todos são, ou pelo menos quase todos nos dariam motivos para ficarmos tristes. Mas este foi especial. Porque esse fim de semana juntou quase tudo que há de ruim no futebol brasileiro em menos de 24 horas.

Vamos lá, em uma imperfeita ordem cronológica.

No sábado à tarde, a torcida do Náutico abre uma faixa com os seguintes dizeres: "Não irão nos derrubar no apito". O árbitro Leandro Vuaden impediu o início do jogo por sei lá quantos minutos até que a faixa fosse retirada. O que Vuaden fez não foi apenas um ato irritante. O que Vuaden fez foi crime. Este país tem em sua Constituição artigos e parágrafos que garantem a liberdade de expressão. A torcida do Náutico não manifestou racismo, não incitou qualquer ato de violência, a torcida do Náutico não fez nada de errado.

Não importa se o Náutico está sendo ajudado ou prejudicado pelas arbitragens. Essa discussão não é válida, a discussão aqui é outra. As autoridades pernambucanas deveriam ter mandado Vuaden catar coquinho na praia em vez de reprimir os torcedores que levavam a faixa. Aqui, o caso extrapola o futebol. O governador Eduardo Campos tem a obrigação de responder à sociedade e pedir desculpas pelo que aconteceu em Recife.

Eu li a notícia do absurdo dos Aflitos em meio a uma irritante atuação do árbitro goiano Elmo Alves Resende Cunha na partida entre Portuguesa e Atlético Mineiro, no Canindé. Nojenta, irritante, nociva, insuportável maneira de conduzir uma partida de futebol.

Foram 43 faltas marcadas em um jogo que teve zero violência. Uma falta a cada dois minutos. Os dois times estavam lá para jogar bola, mas mal conseguiram por causa dessa viciosa maneira de levar um jogo. Parando todos os lances, vendo faltas que não existem, evitando que o jogo corra, em suma, querendo o protagonismo todo. São árbitros como esse Elmo Alves Resende Cunha que fazem as pessoas assistirem cada vez menos futebol. O brasileiro cada vez mais vê só o seu time e não dá a mínima para as outras partidas do campeonato.

Isso acontece por várias razões. E uma delas é a chatice que é ver jogos no Brasil com esse estilo de arbitragem que para tudo, que interrompe todos os lances, que tira do sério os jogadores, os técnicos e os torcedores dos dois times. Qual a consequência dessa maneiras de apitar jogos? São duas as primordiais:

1) Os jogadores vivem no mundo do cai-cai. Se jogam, se deixam cair, dobram joelhos, etc porque sabem que o árbitro apita tudo. A maneira de apitar incita o cai-cai e a mentira, incita o jogador a estar o tempo todo exagerando contatos e quedas, estar o tempo todo buscando o engano e a manipulação.

2) Quando alguma falta deixa de ser apitada e a sequência acaba em gol ou lance de perigo, os atletas se revoltam. Claro, afinal o cara apita qualquer porcaria. Quando não apita, o jogador fica p da vida e se sente no direito de reclamar de tudo. E aí surge esse chororô insuportável de atletas, técnicos, dirigentes. 

Nos lances capitais da partida do Canindé, o tal Elmo errou em praticamente todos. Mas não é essa a discussão que deve haver. Assistam aos jogos desse camarada, percebam a maneira sórdida como ele conduz a partida e irritem-se. Porque é só isso que dá para fazer.

Aí chegamos ao sábado pela noite e a CBF solta a tabela do Campeonato Brasileiro, na surdina, como se ninguém estivesse prestando a atenção. 

Todos os que acompanham minimamente o futebol sabem que o distanciamento do torcedor brasileiro em relação à seleção está atingindo níveis preocupantes. Já passou do incômodo e está virando desprezo. Há muitos anos o torcedor dá muito mais importância ao seu clube. Só que o fenômeno agora é que a seleção está matando os clubes. Afinal, o Campeonato Brasileiro é o ÚNICO DO MUNDO que não para nas datas Fifa. O ÚNICO NO MUNDO.

Muito bem. Mais uma vez, Mano Menezes convocou jogadores e ainda precisou abrir mão do direito, que lhe deveria caber, de levar quem quisesse. Precisou chamar, no máximo, um de cada clube. Os oito primeiros colocados mais o Santos perderiam, perderão, um jogador (e bom, possivelmente o melhor do elenco), durante duas rodadas DECISIVAS do Brasileiro. A 31a rodada estava marcada para o dia 17 de outubro, dia seguinte ao amistoso do dia 16 entre Brasil e sei lá quem.

Dos 10 jogos de dita rodada, 3 colocam frente a frente dois times que ficaram desfalcados pela seleção. Decisão fácil, então, certo? Basta empurrar esses 3 jogos para a quinta-feira, dia 18 de outubro. Os jogadores chegariam mortos, cansados, mas pelo menos jogariam. De preferência, que empurrassem também para quinta outros 3 jogos com um time em cada um deles desfalcado pela seleção. Fácil. Tarefa fácil. Qualquer IMBECIL seria capaz de empurrar para quinta tais jogos.

Mas não. A CBF deixa 2 dos 3 jogos envolvendo times prejudicados para a quarta-feira. Passa alguns para frente, alguns não, beneficia alguns clubes, prejudica outros. É o samba do crioulo doido. Ninguém faz nada, ninguém fala nada, é agoniante. Os clubes venderam a alma, venderam a mãe para a televisão e são tão culpados disso tudo quanto a CBF. Mas técnicos, jogadores e torcedores não venderam a alma. Eles têm direito de trabalhar, de ver, de sofrer com justiça. E são privados desses direitos básicos por decisões nojentas tomadas dentro de escritórios por pessoas que têm pouco ou nenhum interesse em ver um campeonato de verdade acontecer.

Dormi com todas essas no sábado. E mal sabia que o domingo seria ainda pior.

Curitiba. Não vou descrever a história, estão todos cansados de saber. Quem ainda não sabe em detalhes, leia o post do Thiago Arantes, entenda e tente não vomitar. 

O amigo Mauro Cezar Pereira e meu irmão Flavio Gomes estão sempre lembrando de exemplos próximos, aqui mesmo no continente, para pontuar a chatice que virou o futebol brasileiro nas arquibancadas. Sim, eu também sinto falta das bandeiras, dos rojões, das cores, dos cânticos.

No entanto, amigos, as proibições vão se sobrepondo umas às outras porque as autoridades desse país não são capazes de resolver os problemas mais simples. É mais fácil proibir uma bandeira do que batalhar por uma legislação específica para estádios de futebol, uma inteligência eficiente e que deixe longe, muito longe dos estádios animais como estes que fizeram o que fizeram em Curitiba.

Em toda a Europa havia problemas de violência. Na Inglaterra, na Alemanha, em todo lugar. Os problemas estão praticamente resolvidos em todos os países. Há mil modelos de sucesso. Eles não são todos iguais. Estudem, caramba! Autoridades são pagas para resolver os problemas e não varrê-los para baixo do tapete. Escolham um modelo e apliquem de verdade no Brasil. 

Não é possível saber que policiais ficaram parados enquanto ANIMAIS atacavam uma menina de 13 anos que queria a camiseta de um ídolo. E se não fosse uma menina de 13 anos, mas um marmanjo de 35 lutador de jiu-jitsu?? Ele teria O MESMO DIREITO de pegar a camisa do Lucas, oras. O mesmo direito. Não é possível que nossa sociedade siga vociferando frases como "ela provocou", "não era lugar para isso", "também, estava esperando o quê?". Simplesmente não é possível. Não é possível que as pessoas sigam achando que, dentro de um estádio ou do mundo do futebol, valha tudo. É indignante. 

Alguém precisa fazer alguma coisa. Mapear e tirar os bandidos de dentro dos estádios, agir em vez de assistir, pensar em vez de soltar palavras e decretos, para que a gente volte a ter espetáculos genuínos e pacíficos nas arquibancadas.

E aí vem o Pacaembu. Eu já estava querendo falar desse tema faz tempo. Quem não sabe o que aconteceu no Pacaembu, leia essa matéria e também tente não vomitar.

Quem acha o caso do Pacaembu muito diferente do de Curitiba, saiba que vive em um mundo à parte, em que traça paralelos de acordo com as paixões, as crenças e os interesses em defender ideias indefensáveis. O caso do Pacaembu é praticamente idêntico ao de Curitiba. Xingamentos são agressões, assim como cusparadas. E as pessoas não podem ser agredidas, com palavras, cuspe ou pedaços de paus, só porque pensam de forma diferente e encaram a vida de forma diferente.

É O FIM DOS TEMPOS QUE UMA PESSOA NÃO POSSA USAR UMA PEÇA DE ROUPA VERDE NO MEIO DA TORCIDA DO CORINTHIANS.

É um absurdo. É inacreditável que eu ouça gente esclarecida, que eu leia comentários por aí na Internet, defendendo esse tipo de coisa medieval, arbitrária e esquizofrênica. 

Atenção: eu sou civilizado o suficiente para aceitar que uma pessoa entre no meio da torcida do meu time com a camisa do adversário ou do maior rival. Na Europa, eu vi isso acontecer em TODOS OS ESTÁDIOS POR ONDE PASSEI. Eu fui nos maiores clássicos europeus, em jogos de tudo quanto é tipo, fui a mais de 100 jogos por toda a Europa Ocidental. 

Mas tudo bem. Vamos nos dar um desconto. Vamos dizer que eu esteja de acordo com essa regra, essa única regra, de um cara não poder aparecer no meio da outra torcida com a camisa de seu time. 

NÃO FOI ISSO QUE ACONTECEU E ACONTECE NO PACAEMBU.

O escocês não estava com a camisa do Palmeiras! O cara estava com uma camisa do Celtic!!!!!!! E vários amigos já me contaram que tiveram que passar frio na arquibancada porque esqueceram, naquele maldito dia, de tirar o moletom verde que usavam antes de ir ao Pacaembu. E tenho certeza que isso não é exclusividade da torcida do Corinthians. Possivelmente mais um monte de torcida não admite que alguém use algo de cor vermelha ou preta ou azul ou qualquer outra só porque são as mesmas cores do arqui-rival. Tenho certeza que vários casos como esse serão relatados aqui nesse post, como foram ao longo do dia no meu Twitter.

Nós nunca conseguiremos crescer em sociedade enquanto esse tipo de coisa continuar acontecendo. Como um cidadão explica para o filho dele que uma pessoa não pode usar uma peça de roupa de uma determinada cor porque essa cor está presente do uniforme de outra agremiação esportiva??? Como pode ser concebível uma imbecilidade dessas?? Como pode ser aceitável pela sociedade que esse tipo de ação ocorra diante dos nossos olhos?? 

Será que os idiotas que xingaram o tal escocês já perceberam que o gramado do Pacaembu é verde? 

E aí chegamos a Porto Alegre.

Quem chegou até aqui na leitura desse post deve ter chegado de insistente para saber quando e o que vou falar sobre Neymar.

Voltamos aos árbitros. No caso, o senhor Nielson Nogueira Dias. O mesmíssimo senhor que já havia arruinado o clássico mineiro entre Cruzeiro e Atlético. Erros absurdos de arbitragem, não aqueles pontuais, mas aqueles sistemáticos, são grandes catalizadores para os animais travestidos de torcedores fazerem o que fizeram no Estádio Independência naquela partida.

Esse Nielson Nogueira Dias tem profissão. Ele é capitão da Polícia Militar. 

Os árbitros de futebol brasileiros tem características muito parecidas com a maioria dos policiais que atuam nas nossas ruas. Policiais são profissionais pagos pela sociedade, pagos por mim e por você para nos proteger. No entanto, hoje temos mais medo de polícia do que de bandido. Em sua esmagadora maioria, são pessoas que colocam a farda e acham que, por isso, podem fazer o que quiser e tratar as pessoas como bem entenderem. São pessoas que deveriam estar servindo à sociedade, mas que tomam atitudes de quem acha que manda na sociedade.

É quase impossível ter um diálogo saudável com um policial, seja militar, civil ou até mesmo um não-policial, um segurança de casa noturna, por exemplo. É a lei da selva. A lei do mais forte. Me desafie e eu te quebro. Me desafie e eu te prendo. Me desafie e eu torno tua vida um inferno, te deixo sequelas para sempre.

Os árbitros, guardadas as proporções, fazem a mesmíssima coisa. E não precisamos ir para o mundo profissional, não. Em qualquer torneio intercolegial, em qualquer torneio de futsal de empresas, os árbitros tornam-se autoritários, déspotas do apito. "Não fala comigo", "joga a tua bolinha", "se falar comigo, te boto para fora". Já fui diversas vezes desrespeitado em jogos de futebol entre amigos. É por essas e outras que evito participar de torneios de imprensa de futebol society, por exemplo. 

Imaginem dentro de um campo de futebol o tamanho da autoridade que esses cidadãos não acham que têm.

É a "autoridade" que faz um Vuaden se achar mais importante que a lei do país. E a "autoridade" que faz esse Nielson Nogueira Dias, que além de árbitro é PM, mostrar cartão amarelo para Neymar só porque o jogador se deu o direito de reclamar com ele porque estava apanhando muito em campo. 

Neymar não tem mais o que fazer no futebol brasileiro. Um craque, uma pedra preciosa, um gênio do futebol, desses que aparecem a cada 10, 15 anos. Não tem mais como evoluir taticamente, porque taticamente nosso futebol vive na idade da pedra. Não tem mais como evoluir tecnicamente, porque os jogadores que o defendem não exigem desafios maiores nem sabem fazê-lo. Não tem mais o que ganhar, porque já fez de tudo com o Santos (e o Brasileiro ele não vai ganhar nunca, já que a CBF o tira de mais da metade do campeonato). E agora, de quebra, virou o alvo preferido dos déspotas do apito, que querem aparecer às custas dele, que querem virar estrelinhas de papel da classe deles, os defensores dos pobres e oprimidos na turma de sopradores de apitos.

A fantástica, espetacular capa da Revista Placar tem de levar as pessoas a uma reflexão, como pediu o próprio Neymar. Muricy já refletiu, eu também já refleti. Ele tem que ir embora.

Que país é esse em que as autoridades, políticas, policiais, judiciárias e até mesmos do futebol querem nos fazer viver como cordeirinhos quietos diantes de absurdos que ocorrem diante de nossos olhos?

Que país é esse em que pessoas se xingam, se agridem, se matam a troco de uma cor, de uma bandeira, de uma camisa, de um gosto desportivo?

Que país é esse que agride quem deveria ser seu maior ídolo, que sente inveja de quem se dá bem na vida, que não suporta o sucesso de quem nasceu fadado a sofrer e morrer pobre?

Que país é esse que sucateia o sistema educacional e que não investe toda sua riqueza no que realmente importa, que é a formação de pessoas, de cidadania, da preservação da vida em sociedade?

Que país é esse que vaia Neymar??

Nosso futebol não te merece, Neymar. A maioria dos frequentadores de nossos estádios, os árbitros, as pessoas que ganham dinheiro às tuas custas não te merecem, Neymar.

Perdoai-vos. Eles não sabem o que dizem e nem o que fazem. Perdoe. Mas não puna a si mesmo. Vá embora daqui e volte só daqui a dois anos, na Copa. Porque as pessoas só entendem o que têm quando deixam de ter.” 

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