segunda-feira, 6 de julho de 2015

A sorte de ter Aránguiz

Há algum tempo, o futebol brasileiro vem enfrentando a necessidade de uma mudança que se tornou tendência em todo o globo e, mais especificamente, no futebol europeu: a morte do “volante brucutu”. Função que chegou a ser cultuada durante um bom tempo, sobretudo pelo quesito “raça”, que via-se intrinsecamente atrelado a esse tipo de jogador, o volante limitado à marcação não mais é sustentável em um esporte em que, cada vez mais, registra-se a necessidade de que todos os jogadores de linha ataquem e defendam. Em meio à crise gerada pela necessidade de se reinventar, o futebol brasileiro ganhou um presente em 2014: o chileno Charles Aránguiz.



Não é de hoje que o volante (se é que pode-se qualificar o refinado jogador dessa forma) vem se destacando e sendo um dos grandes diferenciais do Internacional de Porto Alegre. Com ele, o Colorado ganhou uma infinidade de possibilidades. Com o chileno em campo, o clube tem um jogador de marcação, um exímio passador para qualificar sua saída de bola e um elemento surpresa que, muitas vezes, faz a diferença no placar. O camisa 20 do clube gaúcho é, hoje, um dos melhores exemplos do jogador “todo terreno”, o popular box-to-box.

Um dos grandes responsáveis pelo bom futebol desempenhado pela Seleção Chilena na Copa do Mundo de 2014, Aránguiz voltou a brilhar na Copa América recém-finda e logrou êxito ao ser campeão. Enquanto Arturo Vidal está em evidência nos gramados do Velho Continente, sendo cortejado pelas maiores potências de lá, aqui, bem ao lado, Aránguiz dá lições diárias ao futebol brasileiro, que não faz ideia da sorte que representa ter um jogador deste calibre e com suas características atuando em nossas, muitas vezes, fracas partidas.

"Sempre disse que sou um volante que gosto de chegar à área, mas sempre disse que se o treinador quiser que eu fique mais atrás, vou ficar. Não tenho problema, mas sou um volante que gosta de chegar ao ataque", revelou Aránguiz em abril deste ano.

Um dos reflexos cada vez mais evidentes de sua importância no Colorado foi a ascensão do garoto Rodrigo Dourado (foto), uma das maiores esperanças do futebol Canarinho para executar, em um futuro próximo, a função que é tendência mundial. Dourado tem bom passe, boa saída de bola e pegada na marcação, algo que faltou, notoriamente, à Seleção Brasileira. O curioso é que tanto Fernandinho quanto Elias (os titulares recentes da esquadra verde-amarela) têm como uma de suas aclamadas características a saída para o jogo – o que não foi visto na Copa América.

Voltando a Aránguiz, em pouquíssimo tempo o Brasil já se dava conta da qualidade que o jogador agregara ao Inter e grande parte dos torcedores dos outros clubes do país passaram a refletir sobre a necessidade de ter alguém como o chileno, uma peça capaz de destruir o jogo dos adversários e, com extrema perícia, construir o de sua própria equipe. Se Andrés D’Alessandro segue sendo o craque do Colorado, Aránguiz é, sem sombra de dúvidas, o cara que diferencia o futebol da equipe.

“(Vejo) Um crescimento enorme (em Charles Aránguiz). É um jogador que ganhou rapidamente a torcida brasileira, que é muito exigente. Ele é muito completo, pode jogar como volante e chegar à área, pode atuar na contenção. É muito funcional. Permite que o técnico use ele em qualquer lugar”, disse Jorge Sampaoli, treinador do Chile ao final de 2014.

A partir da chegada de Aránguiz, o futebol brasileiro voltou a olhar com atentos olhos para jogadores com suas características, figuras raras no mercado, mas existentes, como prova, por exemplo, Rafael Carioca, volante do Atlético Mineiro e atleta que mais passes acertou no Campeonato Brasileiro até o momento com 551.

Aos 26 anos, campeão da Copa América, semifinalista da Copa Libertadores da América e sondado por clubes como Arsenal, Chelsea e Manchester City, Aránguiz não deve permanecer no país por muito tempo, o que deveria ser motivo de tristeza, considerando a boa influência que seu estilo de jogo trouxe e traz para nosso futebol.

Bom marcador e bom passador, Aránguiz mostrou-se um jogador que destrói, joga e faz o time jogar, justamente o tipo de atleta de cuja falta tanto nos queixamos. Seu impacto excelente no Internacional e na Seleção Chilena deveriam ser exemplo para todos os clubes brasileiros, ditando a tônica do tipo de jogador que deveria ser trabalhado nas categorias de base.

Aránguiz não é alto e não é forte. No entanto, é um bom e leal marcador e um jogador capaz de fazer qualquer função do meio-campo. Nesse momento, o futebol brasileiro só tem o que agradecer, pois, diante de tanta falta de criatividade, e, mais do que isso, a falta de jogadores com uma real consciência tática, é uma sorte ter Aránguiz em nossos gramados.

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