segunda-feira, 20 de julho de 2015

Porto continua sua “espanholização”, mas até quando?

No início da temporada 2014-2015, o Porto fez uma aposta interessantíssima para o comando de sua equipe. Após temporadas com Vítor Pereira (que chegou a ser bicampeão português) e Paulo Fonseca, criticados em boa parte de suas gestões, o clube do litoral noroeste lusitano apostou no, para muitos, desconhecido Julen Lopetegui, que, apesar da pouca experiência profissional, tem reconhecido trabalho com garotos. Não obstante, o time decepcionou na última temporada, e o comandante foi criticado.



A contestável “espanholização” portista

Campeão Europeu Sub-19 em 2012 e Sub-21 em 2013, com a Seleção Espanhola, Lopetegui trabalhou com uma enorme gama de talentos de sua pátria mãe, participando diretamente do desenvolvimento de alguns deles. Além disso, atento aos garotos, o comandante acompanhou detidamente os campeonatos e os jogadores de seu país, vislumbrando talentos e possibilidades de bons negócios. Assim, desembarcaram no Estádio do Dragão sete compatriotas seus: Adrián López (foto), Iván Marcano, Cristian Tello, Andrés Fernández, Óliver Torres, José Ángel e José Campaña.

Destes, o único que de fato onerou os cofres azuis e brancos foi Adrián, possivelmente o jogador de quem mais se esperava, em função de seu bom desempenho no Atlético de Madrid, onde era uma espécie de 12º jogador. Além disso, da Espanha também vieram o argelino Yacine Brahimi e o brasileiro Casemiro.

O fato é que a maior parte desses jogadores não desempenhou papel importante na temporada portista. Adrián não foi sombra do jogador do Atleti, marcando um mísero gol em 18 jogos e sofrendo muitas lesões; Marcano foi um defensor sólido, mas sem grandes diferenciais e grande parte do tempo reserva; Tello foi bem. Ainda que não seja um craque, mostrou velocidade, marcou gols e assistiu seus companheiros; Fernández foi eterno goleiro reserva, atuando em apenas quatro jogos; José Ángel pouco atuou e foi preterido por zagueiros na ausência do lateral-esquerdo titular, Alex Sandro; Óliver Torres é outro que, como Tello, foi bem; Campaña representou mais o time B do Porto do que o principal.

O resultado: Férnandez foi emprestado ao Granada, onde jogará a temporada 2015-2016, Óliver retorna ao Atlético e Campaña à Sampdoria, José Ángel tem futuro absolutamente incerto e Tello (emprestado por mais uma temporada), Adrián e Marcano devem permanecer. Dos sete, três já saíram e quatro ficaram, estando três deles sem futuro garantido e não tendo correspondido às expectativas na temporada passada.

O curioso é que Brahimi e Casemiro (que retornou ao Real Madrid; foto), que também vieram da Espanha, foram, indubitavelmente, as melhores contratações do time na temporada, sendo, junto com Jackson Martínez e Danilo os melhores jogadores da temporada passada.

Conclui-se que parte representativa dos integrantes do projeto piloto não está mais no clube e não correspondeu às expectativas. O clube, corretamente – uma vez que o treinador teve que promover uma reconstrução radical do elenco –, segue apostando em Lopetegui, mas os resultados terão que aparecer para justificar a liberdade que o comandante vem tendo na condução de seu projeto.

A falta de resultados

Pode parecer imediatista (e é) dizer que Julen Lopetegui não conseguiu resultados com o Porto. A questão que se impõe é a de que em um país bipolar (dado o arrefecimento recente do Sporting, que só conquistou um Campeonato Português no século XXI) passar uma temporada sem qualquer título é algo preocupante – sobretudo quando se chega ao clube após um ano sem sucesso. Ou seja, tratando-se de duas campanhas sem glórias, com o Benfica, grande rival, dominando o país, a pressão é grande e um trabalho com ideias tão particulares e distintas do padrão histórico do clube passa a ser vista com reservas.

Sem resultados – leia-se títulos – Lopetegui não conseguirá sustentar sua posição no Porto, por mais paciência e crença em seu trabalho que Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do clube, possa ter em seu trabalho.

Para mais, resultados como a acachapante goleada sofrida contra o Bayern de Munique na UEFA Champions League, a eliminação da Taça de Portugal perante o rival Sporting e a falta de vitórias nos clássicos contra os Encarnados são outros elementos que aumentam a pressão da panela em que o treinador está nesse instante.

Polêmicas dentro e fora das quatro linhas

Durante o último ano, além de promover uma remodelagem drástica na equipe, que perdera algumas de suas peças mais importantes – o volante Fernando e os zagueiros Eliaquim Mangala e Nicolás Otamendi são bons exemplos – implementando sua ideia, Lopetegui teve que lidar com polêmicas no campo e nos bastidores.

Dentro das quatro linhas, internamente, o espanhol teve grandes problemas com o ídolo dos Dragões Ricardo Quaresma, experiente e habilidosíssimo winger da equipe. A principal razão seria a falta de comprometimento tático do jogador. A despeito disso, as rusgas entre treinador e atleta perduraram durante toda a temporada. Preterido no início da trajetória de Lopetegui, o português voltou a ser aproveitado (e bem) durante a temporada, mas uma sequência de substituições no final da temporada irritou o atleta que chegou a deixar de cumprimentar seu treinador em uma ocasião.

“O Ricardo Quaresma é um dos jogadores de quem sinto mais orgulho esta época pela evolução que teve (...) É um jogador mais completo e melhor, e isso é mérito dele”, Lopetegui chegou a dizer, diminuindo o clima de animosidade com Quaresma.

Além disso, fora das quatro linhas, nos bastidores, Lopetegui teve contratempos com Jorge Jesus e Marco Silva, então comandantes benfiquista e sportinguista, respectivamente, e sempre se mostrou muito queixoso em relação às arbitragens, algo que aumentou, substancialmente, as críticas que sofreu durante a temporada.

No decorrer do último ano, restou claro que o trabalho do espanhol esteve longe de uma sonhada e bem-vinda calmaria.

Boas contratações e mais espanhóis para 2015-2016, mas até quando?

Mantido no comando do Porto, Lopetegui vem “reinventando a reinvenção” para a temporada 2015-2016. Saiu Casemiro, chegou o jovem e promissor francês Giannelli Imbula (até agora o grande negócio do clube; foto), além dele desembarcaram no Dragão alguns talentos portugueses, casos de Sérgio Oliveira, recontratado após um período no Paços Ferreira, André André, que fez ótima temporada no Vitória de Guimarães, também tendo passagens pelas divisões inferiores do próprio Porto, e Danilo Pereira, talento que ganhou inclusive oportunidades na Seleção Portuguesa, recentemente. Além deles também foi contratado o experiente Maxi Pereira, que cruzou a linha da rivalidade azul e vermelha.

Para mais, Lopetegui aposta novamente em seus compatriotas. O primeiro contratado foi o atacante Alberto Bueno, cria do Real Madrid que na última temporada marcou 17 gols em 36 jogos no Campeonato Espanhol, pelo Rayo Vallecano, chegando a anotar um poker contra o Levante. O jogador mostrou bom futebol, mas, aos 27 anos, é uma aposta. O segundo, e mais importante, contratado é o ídolo da nação hispânica, Iker Casillas (foto).

Aos 34 anos e com uma história belíssima, o goleiro certamente chega para assumir a titularidade, até porque Fabiano, a primeira opção na temporada passada, foi emprestado ao Fenerbahçe. Apesar de ter um passado fantástico, os últimos anos de Casillas foram muito irregulares e cercados de pressão, que certamente diminuirá em relação à vivida no Real Madrid. Com motivação renovada, o goleiro pode voltar a ser o diferencial de uma equipe e, certamente, Lopetegui confia nisso.

O ponto crucial da análise é o fato de o Porto estar se empenhando muito para dar continuidade ao projeto de Lopetegui, que precisará, necessariamente, conquistar títulos em 2015-2016. Há pressão por resultados, há críticas e não há tranquilidade para o trabalho, Em um clube com as pretensões do Porto, a hora de esperar acabou e os êxitos precisam vir.

Por isso, a aludida “espanholização” por que passa o Porto é um negócio com condição, que, se descumprida, será desfeito. Se não conseguir resultados, o inexperiente treinador dificilmente conseguirá permanecer na bonita cidade lusa. Para todos os efeitos, ficamos por aqui com uma frase de Julen Lopetegui, proferida em abril deste ano, em entrevista ao periódico espanhol Marca:
"Todos os processos têm o seu tempo de maturação. Quando acreditas no que fazes, sabes que há outras opiniões, mas tratas de seguir o teu caminho e fixas-te nas tuas convicções. Claro que as críticas estão inerentes a esta profissão, ainda para mais num grande clube como o FC Porto. Há que lidar com elas com naturalidade, e nalguns casos até são uma fonte de energia. Há algumas em que nem reparas e outras que te fazem refletir e ajustar coisas, ainda que essas sejam em menor número".

Um comentário :

  1. Ótimo texto, mas não há como não discordar do comentário sobre o Marcano. O Porto foi a defesa menos vazada da Europa época passada, e o Marcano que até começou na reserva, acabou a temporada como o melhor zagueiro portista de longe. Sendo extremamente seguro e competente na saída de bola.

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