terça-feira, 8 de setembro de 2015

O que a Islândia tem?

Nação isolada do continente europeu, com belíssimas e raras paisagens, a Islândia, país de pouco mais de 300.000 habitantes, nunca mostrou muita qualidade para o futebol e sempre viu o esporte de longe, eclipsado por alguns bons momentos de suas vizinhas escandinavas: Noruega, Suécia e Dinamarca. Não obstante, desde a chegada do sueco Lars Lagerback ao comando da Seleção Islandesa, em 2011, o panorama tem mudado, consolidando-se nos últimos dias com a inédita classificação para a Eurocopa de 2016, superiorizando-se em um grupo que conta com as forças de equipes mais tradicionais, como Holanda, Turquia e República Tcheca. O que a Islândia tem?



Um treinador com cancha

Lembrada mormente em decorrência de uma estrela isolada, que brilhou nas décadas de 90 e 2000 e ainda hoje é convocada, o atacante Eidur Gudjohnsen, ex-Chelsea e Barcelona, hoje a equipe de futebol da nação conhecida por seus gêiseres tem passado a ser conhecida por sua proposta coletiva de jogo e não apenas por talentos isolados.

Ex-treinador da Seleção Sueca, entre 2000 e 2009, Lars Lagerback (foto) chegou a Reykjavík com um passado de sucesso em seu currículo. Um dos responsáveis pelas classificações suecas para as Copas do Mundo de 2002 e 2006 e para as Eurocopas de 2004 e 2008, o comandante é também lembrado por ter conseguido conduzir a Suécia à fase eliminatória da Copa de 2002, mesmo com um nada auspicioso sorteio para um grupo com Inglaterra, Argentina e Nigéria. Antes disso, o treinador também havia trabalhado nas equipes de base da Suécia.

Com esse currículo – somada uma breve passagem pela Seleção Nigeriana – Lars chegou ao comando da Islândia com a responsabilidade de transformar o futebol local. Mesmo com dificuldades, o treinador conseguiu levar sua seleção à repescagem para a Copa do Mundo de 2014, perdendo para a Croácia. Após isso, o treinador teve seu contrato renovado e definiu que gostaria de se aposentar ao final da Eurocopa de 2016. Assim, ganhou a companhia de Heimir Hallgrímsson (que o sucederá) no comando da seleção e os resultados de todo o trabalho ficaram evidentes.

Leia mais: Liderada por Alaba, Áustria renasce

Passada a Copa do Mundo, o início da disputa das eliminatórias para a Euro 2016, que acontecerá na França, revelou um desempenho que nem o mais otimista dos amantes de futebol islandeses poderia esperar. Em oito partidas, a equipe venceu seis, perdeu uma e empatou uma. A equipe escandinava se impôs duas vezes contra a Holanda (em casa e fora), bateu os tchecos uma vez e também os turcos (que ainda serão defrontados mais uma vez). Além disso, fez o dever de casa contra os fracos Letônia e Cazaquistão.

A safra de jogadores do país certamente é boa, mas não é possível desvincular o sucesso da chegada do experiente treinador

Uma forma de jogar muito bem pensada

Terceira equipe que menos gols sofreu, com apenas três concessões até o momento – todos em partidas contra a República Tcheca – a Islândia mostra uma forma extremamente competitiva de jogo.

Zagueiro Sigurdsson é destaque
Conscientes de suas qualidades, limites e possibilidades, os envolvidos na causa islandesa têm deixado o coração na ponta das chuteiras e se dedicado de forma impressionante. Normalmente, o treinador tem optado por um esquema tático tradicional: o 4-4-2. Com uma defesa-padrão, com dois beques e dois laterais que dão pouca assistência ofensiva, o meio-campo é o setor que mais trabalha pelo sucesso da equipe.


Com um miolo formado por dois jogadores que costumam tratar bem a bola e cuja melhor qualidade não é a marcação, o capitão Aron Gunarsson, jogador do Cardiff City, e o conhecido Gilfy Sigurdsson, do Swansea City, o meio é multifuncional, tendo a responsabilidade de criar jogadas e, quando mal-sucedidas, rapidamente se recompor para fazer o trabalho sujo e destruir os lances adversários. Além disso, os outros meias que atuam pelos lados do campo, sobretudo os competentes Birkir Bjarnason e John Berg Gudmundsson têm a inglória missão de avançar e recuar o tempo topo, assistindo os atacantes e recompondo o meio.

"É inacreditável - estou chocado. Nós trabalhamos sempre tão duro para alcançar esse ponto. Nós somos o primeiro time islandês a qualificar para as finais. Quando eu comecei a jogar futebol, eu nunca sequer imaginei que isso poderia acontecer", disse o capitão Gunarsson, após a classificação.

No ataque há opções, mas os habituais titulares são Kolbeinn Sightorsson e Jón Dadi Bödvarsson, cuja missão não é menos difícil que a de seus companheiros da meia-cancha. Responsáveis por atormentar os defensores adversários, os dianteiros têm a missão de impedir que os adversários consigam fazer uma eficaz saída de bola, marcando-os e forçando-os a optarem por movimentos arriscados e potencialmente errados.

A Seleção Islandesa tem bons valores, mas não conta com nenhum jogador que se possa ter como uma grande referência decisiva. Não há um craque solo que com seu talento traga desequilíbrio e desestabilize os rivais. Por isso, há uma necessidade tão grande de um apelo coletivo, que vem sendo a chave para o sucesso da equipe de Lars Lagerback.

Destaques individuais

Em sua maioria, os destaques de hoje da Seleção Islandesa foram companheiros na equipe Sub-21 que disputou o europeu da categoria em 2011. Desde lá já era possível notar que se estava de frente para a melhor equipe que o país já vira.

Gilfy Sigurdsson, um dos grandes comandantes do meio-campo de um Swansea City que vem surpreendendo na Premier League, é o grande craque e o artilheiro maior da equipe nas eliminatórias para a Euro 2016, com cinco gols. Dono de grande visão de jogo e boa capacidade de finalização o jogador veste e honra a camisa 10 da equipe. A seu lado, Gunarsson, seu rival em solo britânico (atua no Cardiff), faz aquele que pode ser considerado um dos principais trabalhos na equipe, o da contenção, controle do meio e da liderança, sendo o capitão.

Mais ofensivos, Bjarnason é sempre uma arma perigosíssima pelo flanco direito, aparecendo para marcar gols e criar assistências e Sightorsson é o mais importante dos atacantes. Ex-jogador do Ajax, atualmente no Nantes, o jogador tem porte físico, boa técnica e uma média de gols respeitável pela Seleção, com a marcação de 17 tentos em 31 jogos, ou 0,54% gol por jogo.


Em uma equipe cujo forte é o coletivo, as individualidades são importantes e decisivas. Ademais, o time conta com a referência do interminável Gudjohnsen no banco de reservas, um jogador vivido e vitorioso (o maior vencedor da história do país), que certamente exerce grande e boa influência sobre o elenco, aos 36 anos.

Não há dúvidas de que o desempenho da Seleção da Islândia é a grande história das eliminatórias da Euro 2016 – embora equipes como Armênia, Áustria, Noruega, Estônia, País de Gales e Irlanda do Norte também surpreendam. Nesse momento, pouco importa pensar como será o desempenho islandês na competição continental do ano que vem, pois a maior vitória já foi alcançada e o inédito foi exitoso. Respondendo à pergunta inicial: a Islândia tem consciência, jogo coletivo, destaques individuais e o mais importante: os pés bem fincados no chão.

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