quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Slaven Bilic e a reinvenção do West Ham

Nos últimos anos, período em que foi treinado por Sam Allardyce, o West Ham se confirmou o grande exemplo da prática do “tradicional futebol inglês”. Tido como “rústico”, o estilo de jogo dos Hammers passava basicamente pela montagem de esquemas táticos com linhas muito rígidas e sólidas e voltadas para lançamentos longos na direção de um atacante de referência – muitas vezes o já folclórico Andy Carroll. Apesar disso, o clube passou por uma mudança radical para a presente temporada e vem se mostrando um grande exemplo de como se reinventar.



Correta prospecção de novas contratações

Assumido por Slaven Bilic, ex-treinador do Beskitas e que fez um longo trabalho com a Seleção Croata, o time foi às compras com um orçamento considerável, mas nada excessivo para os padrões da Premier League. Consciente de que precisaria fazer muitas modificações, os Hammers fizeram alguns negócios em definitivo, mas também apostaram em empréstimos, em uma tentativa de se protegerem contra eventuais falhanços.

Dessa forma, chegaram jogadores para todos os setores. Para a defesa, Carl Jenkinson teve seu empréstimo renovado e o seguro Angelo Ogbonna, destaque do Torino e que não conseguiu seu espaço na Juventus, chegou para colocar ordem na casa (o curioso é que a chegada do italiano vem ajudando seus concorrentes a crescerem, casos de James Tomkins e Winston Reid).

Já o meio-campo ganhou reforços para os setores de criação e contenção. Para ajudarem na destruição das jogadas adversárias, Alex Song foi outra figura que conseguiu a renovação de seu empréstimo e Pedro Obiang (foto) chegou da Sampdoria. O interessante aqui é perceber que embora ambos sejam jogadores fortes e duros na marcação, também acrescentam muito à saída de bola e ao trabalho de passes no meio-campo. Outro ponto curioso é o fato de que Song, cotado como uma das estrelas da equipe, sequer atuou na temporada ainda, o que robustece a ideia de que o clube reforçou muito bem seu elenco.

Todavia, o ponto da virada dos Hammers é o trio de meio-campistas ofensivos que chegou. Dimitri Payet, o melhor deles, veio do Olympique de Marselha e é até agora um dos melhores jogadores de todo o campeonato. Com muita movimentação e extrema habilidade, o francês não só acrescentou talento individual como também vem auxiliando seus companheiros a exploraram seu potencial e evoluírem. Isso se verifica com a boa forma de Manuel Lanzini, ex-Fluminense, e Victor Moses, ex-Chelsea. Ambos são jogadores de reconhecido talento e instabilidade, mas, nesta temporada, têm estado em grande forma.

O West Ham viu em Payet (foto) não só um ótimo jogador nos quesitos técnicos, mas a grande referência que poderia ajudar o time a evoluir como um todo. E isso tudo por pouco mais de £10,5 milhões. Até o momento, o francês disputou 10 jogos na Premier League, marcou cinco vezes e criou três assistências, sendo, ainda, o segundo jogador que mais oportunidades de gol criou, atrás apenas de Mesut Özil.

Além deles chegaram ainda o forte centroavante Nikica Jelavic, que é reserva, e o hábil Michail Antonio, que pode atuar em qualquer função do meio-campo ofensivo.

O West Ham cavou fundo para encontrar bons jogadores e vai colhendo os frutos deste trabalho. Somados a outras figuras de qualidade que já estavam no clube, como Mark Noble, Diafra Sakho, Aaron Cresswell e o goleiro Adrián, os reforços vão mostrando que quando bem escolhidos podem fazer a diferença a curto prazo.

Mudança radical na filosofia de jogo

Com a saída do Big Sam e a chegada de Bilic o time também mudou radicalmente sua forma de jogar. O croata, como é peculiar ao futebol do leste europeu, gosta de aplicar um estilo de jogo baseado em técnica e força, com bom toque de bola e explorando muito a condição física de seus atletas, com movimentações, marcação pressionada e aplicação coletiva de todos. Assim, o time ataca e se defende em bloco. Muitas vezes, até deixa seu adversário jogar, dando-lhe a bola com um intuito muito claro: pressioná-lo, provocar um erro e partir velozmente em contragolpes.

Exemplo de rápido contragolpe do West Ham, em partida contra o Newcastle (Foto: Sky Sports)

Não existe mais a ideia de uma equipe focada na defesa e que aproveita-se das raras brechas para tentar acionar um centroavante grandalhão no ataque – até mesmo porque, hoje, esse atacante recua para auxiliar o time em suas tarefas defensivas. Já na última temporada de Allardyce era possível ver uma mudança, com o uso de uma variação maior de jogadas, mas ainda muito incipiente, sem descartar os muitos cruzamentos. Com Bilic, a mudança foi revolucionária.

"Algumas pessoas estão nos rotulando como um 'time de contra-ataque', especialmente após a vitória contra o Newcastle. Não era o nosso plano jogar assim, mas um gol cedo mudou as coisas um pouco. Nós não tivemos que pressioná-los em áreas que não são importantes. Nos treinamentos nós praticamos um futebol de muita posse de bola, não estamos treinando como um 'time de contra-ataque'", revelou Bilic há um mês, deixando claro que embora sua ideia seja muito ligada à posse de bola, sua equipe também está confortável com um jogo veloz, com transições rápidas e contragolpes.

Hoje, o time ainda não é uma potência que busca o gol a qualquer custo acuando assustadoramente seus adversários, mas também não é aquele que joga com suas linhas defensivas extremamente compactadas e recuadas. Há equilíbrio, embora ainda haja espaço para melhora, uma vez que o setor defensivo vem sofrendo mais gols em relação aos demais clubes que o cercam na tabela.

Números mostram que o West Ham lida bem oferecendo a bola aos adversários e buscando contra-ataques (Foto: Sky Sports)

A despeito disso, o que era impossível de se dizer durante os últimos anos se tornou realidade: é agradável ver o West Ham jogar. A prova maior da grande capacidade que o clube vem mostrando são seus resultados contra grandes equipes. Até o momento, os Hammers venceram Chelsea, Liverpool, Manchester City e Arsenal (três desses encontros fora de seus domínios).

A direção do West Ham não teve medo de ousar e vem sendo devidamente elogiada por isso. A boa posição na tabela é justa e confirma que no futebol há sempre espaço para mudanças, desde que sejam bem conduzidas.

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