segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Renato Augusto e o papel do organizador

Em épocas passadas, antes da consolidação da figura do "volante brucutu" e da opção por sistemas de marcação que uniam dois ou três jogadores com notória dificuldade para trabalhar a bola, era comum que as equipes tivessem um atleta cuja função fosse organizar o jogo do time, ditando seu ritmo: o armador, figura muitas vezes, de forma equivocada, confundida com a do meia-atacante. Não obstante, no forte Corinthians atual, Tite ressuscitou o armador na figura de Renato Augusto, provando seu valor histórico e adequando-o à atualidade.



Alguns dos grandes méritos do treinador corintiano neste ano foram entender que "o melhor Jádson" não era o armador muitas vezes desejado nos tempos de São Paulo, que "o melhor Renato" não era o meia-atacante imaginado na época de sua chegada ao Parque São Jorge e, mais do que isso, que estas figuras poderiam coexistir na equipe, como outrora Ricardinho e Marcelinho Carioca o fizeram com a camisa do Timão.

Muitas vezes, Renato Augusto é questionado por suas estatísticas, que registram participações em gols muito menos expressivas em relação às de Jádson, o que reveste-se de injustiça, uma vez que esta não é sua função principal, embora ocasionalmente seja ela efetuada. Renato faz o time jogar, potencializando o futebol de seus companheiros - alguém dúvida, por exemplo, da evolução de Malcom e Jádson desde que Renato retomou a boa forma?

O ex-jogador do Bayer Leverkusen e cria do Flamengo não tem a incumbência precípua de dar o último passe para os gols, mas é responsável pela gestão da bola, sempre bem posicionado e disponível para seus companheiros. Por seus pés passa a maior parte das jogadas ofensivas do Corinthians, mesmo que as referidas não sejam concluídas por ele. Isso é o que um armador faz.

Seus números no Campeonato Brasileiro refletem com exatidão esses dizeres. No meio-campo do clube paulista, Renato (foto) é o segundo que mais passes distribuiu com 1386  - atrás de Jádson - e um percentual de êxito de 88℅. Ademais, é quem, em média, mais passes oferta por partida, tendo disputado três encontros a menos que seu supracitado companheiro. Para mais, é o quarto atleta do clube paulista que mais desarmes efetuou na competição, com 50, denotando sua importância tática.

É bem verdade que alguns jogadores conseguem conjugar as atividades de armador e meia-atacante, como são exemplos o recém-aposentado Alex e Lucas Lima, que hoje exerce esse papel com brilhantismo no Santos, mas quando se tem jogadores do calibre de Renato Augusto e Jádson no elenco é um desperdício não explorar a completude de estilo de jogo que a presença de um provoca no outro. Ainda que atue deslocado pela direita, diferentemente de Malcom, Jádson não é um winger e sim um meia-atacante.

Com o tempo e a proliferação dos volantes, a figura do armador foi muitas vezes suplantada pela do segundo ou do terceiro volante e tendeu ao esquecimento. Armador e volante definitivamente não são a mesma coisa, assim como meia-atacante e armador são distintos, tendo todos o seu espaço em uma equipe. 

Na montagem do esquema tático 4-1-4-1 que caracterizou o Corinthians em seus melhores momentos de 2015, a maneira com a qual Tite (foto) posicionou suas peças foi fulcral para os êxitos do Timão. Um exemplo claro é a forma como a presença física, a velocidade e a forma como Elias se apresenta para o jogo permitem que Renato não precise se sacrificar tanto fisicamente, o que tem o ajudado a evitar as lesões, que muito o atormentaram nos últimos tempos.

Neste vitorioso ano corintiano, o comandante alvinegro reestruturou a tática alvinegra e os papeis exercidos por seus atletas. Renato Augusto é o melhor exemplo. Longe das lesões, foi ressuscitado enquanto jogador e vem sendo o protagonista da reinvenção de uma função um pouco esquecida e que vem se mostrando indiscutivelmente válida e adaptável à competitividade dos tempos hodiernos: a do organizador, o armador.

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