terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O curioso caso do treinador Frank Rijkaard

O Barcelona treinado por Pep Guardiola ficou consagrado como um dos melhores times de todos os tempos. Além do belo futebol coletivo praticado e da excepcional individualidade de algumas peças, aquele Barça tinha uma identidade, o que o tornou único e lhe rendeu um lugar na lista dos maiores. No entanto, Pep encontrou o clube em uma situação estável, muito diferente da vista no início deste século. Uma das razões, sem dúvidas, foi o bom trabalho de Frank Rijkaard, comandante, que, no entanto, não obteve sucesso após seu longo período como treinador do clube catalão.



Quando chegou ao Camp Nou, em 2003, Rijkaard tinha uma missão clara: tirar o Barça de uma crescente involução. Há quatro temporadas o clube catalão não conquistava o Campeonato Espanhol, vendo Deportivo La Coruña e Valencia serem bem-sucedidos e o Real Madrid conquistar a Europa. Vindo de um período marcado pela contratação de muitas apostas infrutíferas – casos de Geovanni, Fábio Rochemback, Juan Roman Riquelme e Javier Saviola, por exemplo –, o Barcelona precisava se reestruturar e escolheu o holandês, que passara pela Seleção Holandesa e pelo Sparta Rotterdam, para a missão.

Com o treinador, chegou outra figura crucial para a história Blaugrana: Ronaldinho Gaúcho. Logo na primeira temporada, a dupla foi bem. A despeito de um início ruim de temporada, com cinco derrotas e cinco empates nas primeiras 15 rodadas, o time se recuperou a tempo e ficou invicto entre as rodadas 19 e 35, terminando com o vice-campeonato, atrás de um forte Valencia. Naquele ano, já era possível imaginar o que viria a seguir. Com boas atuações coletivas, empolgantes performances de R10 – que marcou 19 gols em 39 jogos – e na expectativa por novas contratações, o trabalho de Rijkaard dava sinais prometedores.

Na sequência, aconteceu todo aquele roteiro que a maior parte dos amantes do futebol muito bem conhece: Barça bicampeão espanhol, campeão da UEFA Champions League e o time do melhor jogador do mundo de 2005 e 2006, o mágico Ronaldinho Gaúcho. Há também outras realizações que merecem ser reconhecidas: Samuel Eto’o e Deco mudaram de patamar sob seu comando, assumindo enormes responsabilidades em um dos maiores clubes do planeta; Xavi e Iniesta ganharam muito espaço no time e começaram a mostrar o excepcional futebol que os consagraria sob o comando de Guardiola; e Lionel Messi ganhou suas primeiras oportunidades.

Junto com seus jogadores, Rijkaard tirou os Culés de uma sequência de anos muito ruins e devolveu-os ao patamar que lhes é peculiar, sempre na briga por títulos e mostrando bom futebol. Com Deco na armação das jogadas, Ronaldinho, Eto’o e Ludovic Giuly infernizando as defesas adversárias, o clube voltou a estar em alta. No entanto, suas duas últimas temporadas foram vividas à sombra dos êxitos do Real Madrid e o treinador acabou deixando o Camp Nou.

Houve desgaste e sua saída foi inevitável. Todavia, seus méritos são grandiosos, com o treinador deixando a Guardiola toda uma estrutura sólida para trabalhar e um clima muito mais calmo do que o que encontrou quando assumiu o comando do time. Há época da saída do holandês, o então presidente do clube catalão, Joan Laporta, revelou:

“Ele (Rijkaard) tem sido em todos os momentos um treinador que demonstrou seu bom senso e dedicação ao clube, um exemplo, nunca teve uma repreensão em relação a nada, nem seus jogadores, colaboradores, nem para o clube, nem para nós que dirigimos o clube, o que é uma de suas grandes virtudes”.

Assim, o treinador que extraiu o melhor de Deco, Eto’o e R10, que lançou Messi e deu maiores chances a Xavi e Iniesta partiu para o Galatasaray, após uma temporada longe dos campos. Esperava-se que após seus anos na Catalunha sua carreira seguisse indo bem, com bons clubes e resultados. Curiosamente, não foi o que ocorreu.

Na Turquia, o holandês ficou apenas um ano. Mesmo com jogadores de qualidade em seu elenco, casos de Arda Turan, Elano, Milan Baros, Harry Kewell e Mehmet Topal, o treinador não conseguiu levar o time ao título. E mais: ainda ficou fora da UEFA Champions League, vendo o surpreendente Bursaspor vencer a Liga Turca e o rival Fenerbahçe ficar com o vice-campeonato. Tamanho insucesso, seguido por um início apenas regular na temporada 2010-2011, levou o Galatasaray a trocá-lo pelo romeno Gheorghe Hagi.


Em seguida, em meados de 2011, Rijkaard aceitou comandar a Seleção da Arábia Saudita, mas durou pouco tempo, tendo sido eliminado nas eliminatórias para a Copa de 2014 e indo muito mal na Copa do Golfo de 2013.

Leia mais: As curiosas carreiras de Ronald Koeman

Desde 2013, o ex-jogador é embaixador e trabalha dando orientação ao desenvolvimento de jovens atletas na Montverde Academy, um centro de estudos norte-americano que tem no esporte uma de suas formas de estimular a aprendizagem, buscando provê-la de forma diversificada. Curioso, não? Por fim, em 2014, Rijkaard anunciou que não tinha mais intenção de ser treinador.

“Não vou mais trabalhar como treinador. Não tenho a intenção de trabalhar até os 60 anos, mas quero continuar a assistir e a conversar sobre futebol. Estou muito agradecido por tudo que consegui, mas prefiro me dedicar a outras coisas”, disse à revista Voetball.

Um treinador com passagem pela Seleção Holandesa, com uma vitoriosa estada no Barcelona, além de outros trabalhos, encontra-se hoje, aos 53 anos, afastado do futebol de alto rendimento. Eis um cenário difícil de ser imaginado naquele ano de 2008, em que o técnico e o Barcelona se despediram e que precedeu um período revolucionário no futebol. Não há dúvidas de que Rijkaard foi um grande jogador em sua carreira e um exitoso treinador do Barça. Será que ainda retorna ao futebol e às glórias?

Um comentário :

  1. Que matéria boa! Rijkard soube explorar com perfeição aquilo que Van Gaal impulsionou. Lapidou muito bem os garotos Puyol, Xavi, Valdes e Iniesta. Foi um verdadeiro divisor de águas no Barcelona e impulsionou a revolução dos garotos de La Masia.

    Sou viciado em ler artigos de futebol e esse me chamou uma atenção especial, pois, de fato, é difícil entender como a carreira de alguém aparentemente tão sábio foi por água baixo dessa forma. O trabalho dele na Turquia foi um horror e de lá em diante foi só tristeza.

    Parabéns ao autor!

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