segunda-feira, 21 de março de 2016

Liderado por Ben Arfa, Nice surpreende

A disputa pelo título da Ligue 1 representou um dos mais tediosos contos da presente temporada. A supremacia do Paris Saint-Germain foi gigantesca, o título veio com muitas rodadas de antecedência e com enorme número de pontos de vantagem em relação ao Monaco, segundo colocado. Apesar disso, o campeonato vem tendo boas histórias para contar. No primeiro turno, estas ficaram por conta das campanhas de Angers e Caen e, no momento, é o Nice, que não vence o francês desde 1959, quem chama a atenção.



Ben Arfa é o diferencial


Jogador de talento indiscutível, acima de qualquer suspeita, mas que viveu alguns problemas extracampo em seus últimos anos atuando na Inglaterra – o que inclui sobrepeso –, Hatem Ben Arfa “decidiu” no início desta temporada que voltaria a mostrar grande nível. A qualidade técnica que o levara a passar por todas as equipes de base da Seleção Francesa (sub-16, 17, 18, 19 e 21) e a ganhar seu primeiro chamado para Les Bleus no já distante ano de 2007, quando tinha apenas 20 anos, voltou a dar as caras.

Com uma perna esquerda que entorta marcadores, coloca companheiros em boas condições para marcar gols e permite-lhe marcar belos tentos, o franco-tunisiano é o diferencial da equipe, que canaliza toda a criação e organização de jogadas em sua figura. Ele é o segundo jogador que mais dribles efetua por partida na Ligue 1 (com 4 de média, atrás apenas de Ousmane Dembélé) e tem média de acerto de 80,4% de seus passes, o que, considerando o risco de grande parte deles, é uma boa média.



O jogador que causou problemas para deixar o Lyon e rumar para o Olympique de Marselha no início de sua carreira, voltando a fazê-lo para rumar para o futebol inglês, em que não alcançou o nível dele esperado, foi muitas vezes opção de banco e mostrou-se desinteressado, mudou, ao que parece. Decidiu, aos 29 anos, mostrar que as apostas feitas em si no início de sua trajetória não eram vazias e que os ingleses tinham razão em buscá-lo.

Para entender, de fato, o que o jogador representa para o Nice, atual terceiro colocado na Ligue 1 e firme na luta por uma vaga na UEFA Champions League, não basta conhecer sua qualidade ou analisar suas estatísticas – que registram 12 gols e quatro assistências, em 27 jogos –, é necessário vê-lo jogar e encantar-se. Suas arrancadas e jogadas plásticas remontam à essência do futebol, algo que Ben Arfa não produzia há tempos e que foi reconhecido com seu retorno à Seleção Francesaembora não tenha figurado na última convocação.

Germain é outro que vem destacando-se


Deixado de lado nos últimos anos pelo Monaco, Valère Germain, atacante criado no próprio clube monegasco e que chegou a ser peça importante, sobretudo nas temporadas em que seu clube esteve na Ligue 2 (chegando a ser seu capitão, inclusive), preferiu tentar uma nova aventura no início desta campanha e, por empréstimo, juntou-se ao Nice.

Ainda que não tenha o talento de Ben Arfa, Germain é um bom finalizador e muito se movimenta, sendo um parceiro muito útil para o camisa 9. Embora não seja nenhum craque, o jogador conquistou seu espaço e tem marcado um número representativo de gols – 10 na Ligue 1, além de seis assistências. Para se ter uma ideia do que isso representa, o francês já anotou o mesmo número de tentos que havia feito nas últimas duas temporadas somadas.

Confira também: Deschamps e a variedade de opções para o meio francês

Sua rapidez e suas desmarcações facilitam a construção dos ataques do Nice, que não tem nele uma peça estática no comando do ataque, muito longe disso.

Aliás também é bom ressaltar o desempenho do atacante Alassane Pléa, que começou bem a temporada, sofreu lesão grave nos ligamentos – perdendo 19 rodadas – e retornou recentemente aos gramados. Em 12 jogos, o voluntarioso e rápido jogador de 23 anos tem quatro gols.

Vale dizer ainda, que tanto Germain quando Pléa já tiveram seu talento reconhecido precocemente, tendo representado equipes de base da Seleção Francesa.

Alguns fatores ajudam a entender como o time joga e porquê vem bem


O Nice é um time que joga bonito. Seu estilo é ofensivo e conta com jogadores de talento, conforme já ressaltado. Alguns números inclusive comprovam isso. Les Aiglons têm o quarto melhor ataque da competição (atrás de Paris Saint-Germain, Lyon e Rennes) e são os terceiros colocados no ranking de posse de bola média por jogo (com 56,2%). Além disso, têm o segundo maior índice de acerto de passes da liga, inferior apenas ao do PSG, com 84,3% em média. Tudo isso indica um jogo muito técnico, com boa circulação da bola.

De mais a mais, dentre os clubes que disputam as primeiras posições com o Nice (casos de Lyon, Rennes e Monaco), os Aiglons foram os que mais rapidamente foram eliminados da Copa da França, caíndo da Copa da Liga Francesa junto com Monaco e Rennes. Portanto, o clube da costa do Mediterrâneo vem tendo foco exclusivo na disputa da Ligue 1 e na busca por uma vaga na UEFA Champions League, que não joga desde a longínqua campanha de 1959-1960.

É válido lembrar também que o sucesso atual do Nice se deve em grande medida ao treinador Claude Puel, no comando da equipe desde 2012, e que resistiu aos momentos de irregularidade recentes por que passou o clube francês.

Assim, jogando bom futebol, o Nice vai escrevendo novas páginas de êxito em sua história, que é rica mas há muito tempo está estagnada, vivendo do peso das conquistas antigas. Com Ben Arfa em forma excepcional, o clube vem mostrando sua grandeza em bom momento, quando, a despeito da supremacia do PSG, não há nenhuma força que esteja tão superior às demais na Ligue 1.

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