segunda-feira, 20 de junho de 2016

O maior desafio de Tite

Do sucesso regional com o Caxias à conquista do mundo pelo Corinthians, Tite se confirmou ao longo dos últimos anos o principal treinador do futebol brasileiro. A despeito de alguns trabalhos ruins, como o feito no Atlético Mineiro, e de algumas críticas, como as sofridas no Internacional, o comandante alcançou o topo da hierarquia dos técnicos brasileiros. Diante da crise vivida pela Seleção Brasileira, acabou sendo escolhido para apagar um incêndio de proporções imensuráveis, o maior da história do futebol canarinho.



Tite foi contratado após o acúmulo de três grandes fracassos, o que inclui o fatídico 7x1 e duas eliminações precoces em Copa América – a última delas sem conseguir sequer avançar de fase compartindo grupo com Equador, Haiti e Peru. Nunca esteve tão desprestigiada a camisa verde-amarela. Recentemente, houve momentos ruins como os que se seguiram às Copas do Mundo de 2006 e 2010, mas alguns títulos sempre amenizaram tais circunstâncias. O melhor exemplo é o da Copa das Confederações de 2013, em que a Canarinho bateu a Espanha na final, então a equipe a ser batida e voltou a ser respeitada.

Esse é o cenário com o qual Tite assume a Seleção Brasileira, um reflexo fidedigno da confederação que a comanda. O treinador de Caxias do Sul terá muitas missões nos próximos anos. Nunca antes foi vista uma equipe brasileira tão dependente de um único talento. Em 2010, as referências eram Kaká e Robinho; em 2006 o famigerado quadrado mágico; e em 2002, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Ronaldo Fenômeno. Hoje toda a referência técnica do Brasil se concentra em Neymar.

Com a ideia imediatista de que “o que vale é o resultado do próximo jogo”, Dunga perdeu em dois anos de trabalho a oportunidade de criar uma consciência coletiva em sua seleção. A situação só não é pior, porque ainda há jogadores individualmente bons para evitar fracassos ainda maiores. Alegar que “a geração é ruim” é argumento falho. Qual “geração ruim” emplaca titulares em equipes como Liverpool, Chelsea, Real Madrid, Inter de Milão, Paris Saint-Germain, Barcelona ou Atlético de Madrid?

Sem dramatizar mais que o necessário: Tite encontra um cenário de terra arrasada. Há jogadores de qualidade, mas não há coletivo e tampouco identidade. Em 2010, 2006 e 2002, por exemplo, deixando de lado os resultados, era possível determinar como jogava o Brasil, algo que hoje não é. Talvez essa tenha sido uma das grandes motivações para o chamado de Tite, tendo em vista que poucos times tiveram uma identidade tão bem delineada quanto as versões do Corinthians que o gaúcho comandou.

Os títulos Brasileiros de 2011 e 2015, da Copa Libertadores de 2012, do Mundial de Clubes da FIFA de 2012, da Recopa Sul-Americana de 2013 e do Paulistão no mesmo 2013 não foram obra do acaso. Mesmo assim, após o fracasso na Copa do Mundo de 2014, a CBF voltou seu olhar para Dunga e hoje sucumbiu à pressão advinda dos maus resultados e do descrédito da instituição e firmou contrato com Tite.

Tite terá que pensar o futebol brasileiro em todas as frentes: tática, técnica e até mesmo comportamental, além de se tornar o centro das atenções. Após ouvir o clamor popular, a CBF deixa nas costas do comandante toda a responsabilidade do comando da Canarinho. Outro ponto interessante de ser tratado é o fato de que Tite se caracterizou nos últimos tempos por sua capacidade para extrair o melhor de seus atletas, muitas vezes peças em quem não se depositava nenhuma confiança. Enquanto treinador de clubes, nunca teve de lidar com um grupo de jogadores majoritariamente estelar.

Além disso, o gaúcho terá que imaginar uma fórmula de retirar de Neymar a responsabilidade por tudo o que acontece na equipe. Equipes de sucesso não baseiam sua proposta exclusivamente na figura de um jogador (a Argentina de Diego Maradona, em 1986, é uma exceção). É imutável o fato de que o craque do Barcelona seguirá sendo a principal liderança técnica, mas não pode ser a base de todo o jogo Canarinho – até mesmo porque é preciso que a Seleção Brasileira saiba jogar bem nas eventuais ausências de Neymar.

Outra tarefa difícil para Tite será a tentativa de reconstruir a boa relação outrora existente entre o torcedor brasileiro e a seleção. O distanciamento ocorrido em razão dos muitos amistosos além das fronteiras tupiniquins e da pouca qualidade do futebol jogado precisa ser amenizado. A esperança desse torcedor que hoje desacredita de qualquer ação da CBF é o treinador e isso pode ser um grande peso.

Claro: Tite precisará de resultados. Hoje o Brasil é o sexto colocado nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018 e estaria fora da competição pela primeira vez em sua história se a classificação estivesse concluída. No caso desse eventual insucesso, o treinador dificilmente receberia da CBF a blindagem que recebeu, por exemplo, quando o Corinthians foi eliminado prematuramente da Copa Libertadores de 2011, contra o Tolima. Historicamente, os “projetos” da Canarinho vão bem enquanto os resultados também vão, algo com o que Tite se desacostumou a conviver no comando do Timão.

Contudo, Tite parece preparado para o que virá. Para ele, já não havia desafios a cumprir no Brasil. Sua condição atual é tão privilegiada que o treinador teria inclusive feito exigências à CBF, como a inclusão de Edu Gaspar, ex-gerente de futebol do Corinthians, no departamento de futebol da confederação. E, verdade seja dita, dentre os nomes brasileiros, não há ninguém no momento com melhores credenciais para a assunção desta missão.

A pressão que normalmente já existe sob os ombros de qualquer treinador brasileiro, é maior sob os de Tite, pelo mero fato de o Brasil viver seu pior momento histórico em termos de resultados e qualidade de futebol jogado. Todavia, sua chegada parece de fato ser a melhor saída. A Canarinho chegou ao fundo do poço, uma seleção que não vem sendo bem-sucedida em nenhum âmbito. É com esse quadro que Tite assume a equipe verde-amerela, trazendo apenas uma certeza: o trabalho será feito com coerência, a grande marca da sua trajetória.

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