quinta-feira, 16 de junho de 2016

Os méritos de Edgardo Bauza no São Paulo

No final de 2015, o São Paulo anunciou a contratação do argentino Edgardo Bauza, campeão da Copa Libertadores da América com LDU, em 2008, e San Lorenzo, em 2014, como seu novo treinador, após passar um ano conturbado. De Muricy Ramalho a Milton Cruz, passando por Juan Carlos Osório e Doriva, o Tricolor Paulista não conseguiu mostrar identidade e viveu dias difíceis. A despeito disso, Bauza vem conseguindo contornar essa situação e, embora receba críticas relacionadas ao estilo de jogo adotado, transformou o São Paulo.



Conhecido por sua capacidade de organizar equipes com o material de que dispõe e de torná-las extremamente competitivas, o Patón, como é conhecido, encontrou um time com bons valores, não obstante suas más fases e pouca produtividade. Atletas outrora cobiçados no mercado como Wesley, Michel Bastos e Ricardo Centurión não viviam seu melhor e não contavam com o apoio de um torcedor exigente que se acostumara a conquistar títulos nos últimos tempos.

Além disso, Bauza teve de lidar com a pressão de treinar a equipe no primeiro ano após o fim da “Era Rogério Ceni”, tendo o clube perdido sua maior referência e indiscutivelmente o melhor goleiro de seu elenco – por mais que o veterano já estivesse longe da forma que o consagrou. Instabilidade política foi outro tópico com o qual o argentino teve que trabalhar, algo que vem se arrastando há um bom tempo.

A despeito de tudo isso, Patón conseguiu dar cara e corpo ao São Paulo, o que vem se refletindo nos resultados da equipe. Não obstante, seu caminho não foi e não tem sido fácil. O fracasso no Campeonato Paulista teve seu peso na ainda curta trajetória do treinador à frente do Tricolor, sobretudo pela forma como se deu – acachapante derrota por 4x1 nas quartas de finais contra o modesto Audax, até então zebra de quem não se esperava nada.

Felizmente para o clube, o planejamento da equipe falou mais alto e o treinador não perdeu seu emprego. Quando Bauza disse: “não gosto de jogar bonito. Eu quero uma equipe efetiva”, não estava mentindo e logo os resultados vieram. É bem verdade que a chegada do zagueiro Maicon (foto), que vem sendo o capitão do time, foi oportuna, pois trouxe à equipe confiança e liderança, fatores-chave para o equilíbrio de toda a estrutura do time.

Formatado normalmente no 4-2-3-1, que em alguns turnos se torna 4-4-2, o time conseguiu se tornar coletivamente consciente e cresceu – o melhor exemplo disso foi a partida de volta contra o Atlético Mineiro, válida pelas quartas de finais da Copa Libertadores da América. Na contenção, os habituais titulares têm sido Thiago Mendes e Hudson e o primeiro vive excelente momento. Com físico invejável, é engrenagem fundamental ao time, pois cobre com grande qualidade os avanços dos laterais e dá forte e constante combate na meia-cancha. Pelos lados, Centurión e Kelvin têm conseguido ser efetivos tanto no ataque quanto na defesa, jogadores que atrapalham muito a saída de bola de seus rivais, uma vez que bloqueiam a saída dos laterais oponentes.

Com isso, Ganso, que voltou a ser lembrado na Seleção Brasileira, tem tido liberdade para criar e muitas vezes tem sido visto quase como atacante, ao lado do argentino Jonathan Calleri, cujo desempenho e qualidade fazem a diferença na função de centroavante. Além disso, Bauza conseguiu fazer a maior parte do time entender a forma como enxerga o jogo, logo, na falta de um titular, os reservas têm feito bom papel.

Com versatilidade, Wesley (foto) vem deixando de ser aquele atleta talentoso, mas desligado em muitos turnos, e apoiado o time tanto pelo lado direito quanto pelo centro do campo; outrora criticado, Michel Bastos tem feito diferença sempre que entra em campo, aumentando a força ofensiva do setor esquerdo do ataque. No meio, com calma e classe, o garoto João Schmidt evoluiu e vem se mostrando cada dia mais maduro e preparado para o alto nível (há quem entenda que o garoto já deveria ser titular). Além disso, o recém-contratado Ytalo, opção para o meio e o ataque, também tem conseguido mostrar qualidade e vai se firmando como importante opção para o comandante argentino.

O único jogador de quem se espera bom desempenho e que não tem atuado bem é o atacante Alan Kardec, que perdeu espaço com a chegada de Calleri, mas vem sendo apoiado por seu treinador.

As estatísticas também refletem o que é o São Paulo de Bauza. No Brasileirão, mesmo focado na disputa da Libertadores, o Tricolor Paulista é o sexto que mais bolas rouba e como pressiona os adversários ao erro, não precisa cometer tantas faltas sendo o 14º que mais vezes as faz – por outro lado, é o sexto que mais as sofre*. Assim, o time vai se destacando e já figura na sexta posição, a três pontos dos líderes Palmeiras e Internacional.

A prova de fogo para o Patón deve vir a seguir. Com contratos de empréstimo, Maicon e Kelvin, ambos jogadores do Porto, podem deixar o Morumbi, o que poderia trazer danos importantes à estrutura do time. Além deles, é esperada a saída de Calleri, que vem sendo há tempos observado de perto por clubes europeus. Apesar disso, ao menos para a vaga do meia-atacante, o Tricolor já tem uma nova opção: o peruano Christian Cueva, recém-contratado junto ao Toluca e que se junta à equipe após a disputa da Copa América. Em contraponto, a proposta de jogo coletiva pode diminuir os danos das possíveis perdas individuais.

As críticas ao trabalho do comandante seguem existindo, pois o estilo de jogo do time muitas vezes não enche os olhos do torcedor. A marcação pressionada, os contragolpes rápidos mostram que o time muitas vezes tem dificuldade para propor o jogo e controlá-lo, mas é isso que Bauza pretende? Não. O argentino não quer ser brilhante, e sim vencedor; dentro dessa proposta, o São Paulo vai se colocando na linha de frente do Campeonato Brasileiro e com chances reais de título da Copa Libertadores da América.


*Dados retirados do site Footstats.net

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