sexta-feira, 29 de julho de 2016

Seleções de que Gostamos: Dinamarca 1992

Após rememorar o time paraguaio que fez bonito na Copa do Mundo de 1998, trago à lembrança o grande time dinamarquês de 1992, que conquistou feito único, sendo eternizada por uma alcunha: Dinamáquina.


Em pe: Schmeichel, Olsen, Jensen, Sivebӕk, Piechnik, Christofte;
Agachados: Povlsen, Laudrup, Nielsen, Larsen, Vilfort.


Seleção: Dinamarca

Período: 1992

Time base: Schmeichel; Sivebӕk, Olsen, Piechnik, Nielsen, Christofte; Jensen, Vilfort, Larsen; Laudrup e Povlsen. Téc.: Richard Nielsen

Conquista: Eurocopa

O início da década de 90 foi marcado por fortes tensões no leste europeu. Finda a Guerra Fria, com a ruína do governo soviético, muitas eram as tensões pela região. Nesse contexto, a Iugoslávia se viu diante de situação difícil. Marcada por diferenças culturais, problemas econômicos e a tentativa frustrada de unir povos claramente distintos, a supernação começou a se esfacelar. Mas o que isso tem a ver com a Dinamarca, país da distante Escandinávia?

Parte em muitas guerras, a Iugoslávia chegou à Eurocopa de 1992 classificada, mas diante do momento por que passava foi desqualificada. Sua vaga passou às mãos dos dinamarqueses, vice-líderes do Grupo 4 nas eliminatórias para o certame e que pouco tiveram que viajar para chegar à vizinha Suécia, sede da competição. Contando com um dos melhores times de sua história, liderado por figuras importantes da estirpe de Peter Schmeichel e Brian Laudrup, e um time relativamente envelhecido, surpreenderam.

Vale a lembrança de que, a despeito de terem alinhado equipe extremamente qualificada, a Dinamarca não contou com sua maior estrela: Michael Laudrup, afastado do selecionado desde 1990 em razão de discordâncias quanto ao estilo de jogo escolhido pelo treinador Richard Nielsen. O craque só voltaria a ser chamado em 1993. Em determinada ocasião, o comandante chegou a afirmar que com M. Laudrup o êxito de 1992 não teria sido possível:

“Provavelmente não teríamos vencido o título com ele no time. Sem dúvidas, ele era um dos melhores jogadores do mundo naquele momento. Mas a forma como o time jogava futebol era muito diferente [da dele]. Ela era defensiva e com contra-ataques. Com ele dentre os titulares, penso que perderíamos muitos desarmes e talvez não conseguíssemos vencer. É uma história estranha, porque você pode ter o melhor jogador do mundo e se tornar o melhor time sem ele”.

Membros do difícil Grupo 1, que dividiu com a anfitriã Suécia, a França de Eric Cantona e Jean-Pierre Papin e a Inglaterra de Gary Lineker, a Seleção Dinamarquesa não encheu os olhos na primeira fase, mas fez o suficiente para avançar. Empatou sem gols com a Inglaterra, perdeu para a Suécia e venceu os franceses. Segundo o meio-campista Kim Vilfort, a vitória contra Les Bleus só foi possível pelo fato de que sua equipe entrou relaxada, crendo ser impossível vencê-los: “jogamos sem pressão, pois imaginávamos que já estávamos acabados”.

Assim, os Rød-Hvide avançaram às semifinais, ocasião em que se viram perante um dos maiores desafios – senão o maior – de toda sua história. Pela frente teriam simplesmente a Seleção Holandesa de Dennis Bergkamp, Frank Rijkaard, Marco van Basten, Ruud Gullit e Ronald Koeman, equipe que havia liderado o Grupo 2.

Em jogo duríssimo, brilhou a estrela do meio-campista Henrik Larsen. Se Bergkamp e Rijkaard marcaram dois tentos pelos Oranje, coube ao dinamarquês manter o resultado equalizado. Detalhe: a Dinamarca não só abriu o placar como esteve em vantagem até os cinco minutos finais de partida. Vieram as penalidades máximas e novo brilho ofuscou o grupo de talentos holandeses: Peter Schmeichel. O goleiro do Manchester United parou van Basten. Os companheiros do arqueiro não desperdiçaram suas cobranças e o time que não se qualificara à competição se confirmou finalista. Teria a Alemanha pela frente.

Contando com o talento de jogadores como o do capitão Andreas Brehme e do polivalente Mathias Sammer, além dos gols de Jürgen Klinsmann e das defesas do grande goleiro Bodo Illgner, os germânicos haviam vencido os suecos para chegar à final. Curiosamente, o time alemão havia batido uma equipe que vencera a Dinamarca na fase de grupos e o mesmo se aplicava aos Rød-Hvide, que bateram os holandeses, responsáveis pela única derrota da Alemanha na fase de grupos.

Com esquemas de jogo espelhados, Alemanha e Dinamarca viram o resultado final ser definido nos pequenos detalhes. A Nationalef atacou mais, mas a bola insistiu em parar num muro intransponível: Schmeichel. Todavia, da luta de Vilfort em bola praticamente perdida na ponta direita se originou a ocasião que o atacante Flemming Povlsen entregou a John Jensen na entrada da área. Dos pés do volante saiu o petardo que abriu o placar, estufando as redes germânicas. O espírito coletivo incutido pelo treinador Nielsen se reafirmava acertado.

Inabaláveis, os alemães se mantiveram no ataque, mas Schmeichel fazia um dos melhores jogos de sua carreira e se confirmava novamente herói. E mais: quando não chegava a fazer a defesa final, contava com a dedicação e entrega de sua defesa. Nada diferente podiam ter feito os comandados de Berti Vogts. Outra vez, de uma bola recuperada veio o êxtase. Após rechace aéreo a bola sobrou para Vilfort, que limpou seu marcador e bateu. O capricho ainda levou a bola a roçar a trave. As arquibancadas explodiram. A Dinamarca ganhava seu primeiro título de relevância.

Defendendo a meta dinamarquesa, como ressaltado, Peter Schmeichel (foto) vivia fase esplendorosa em sua carreira, afirmando-se um dos maiores goleiros do planeta, com reflexos impressionantes. Grandalhão (1,96m), fez-se um verdadeiro muro, sendo decisivo quando sua seleção mais precisou. Com 129 aparições é até os dias atuais o atleta que mais vezes representou seu país.

A defesa atuava com três zagueiros e dois laterais, cuja vocação era defensiva. Pelo miolo da retaguarda, as opções habituais foram o capitão Lars Olsen (foto), Torben Piechnik e Kent Nielsen. O primeiro deles era o melhor dos três, figura importante para a saída de bola da equipe. Embora não tenha tido uma carreira de sucesso fora da Dinamarca, representou seu selecionado por uma década, somando 84 partidas, e chegou a ser eleito o melhor jogador dinamarquês do ano de 1988.

Piechnik, por sua vez, chegou mais longe que seu companheiro, mas não viveu o mesmo sucesso. Conquanto tenha sido contratado pelo Liverpool, passou pouco tempo na Inglaterra e sem destaque. Todavia, foi peça importante na Seleção Dinamarquesa ainda que durante um pequeno período. Por último, Nielsen, o mais alto do trio (1,92m), apresentava predicados semelhantes aos de seus companheiros, tendo, igualmente, feito carreira majoritariamente na própria Dinamarca, mas com destaque. Todos eram zagueiros de imposição física, bons no jogo aéreo e muito firmes.

Pela lateral direita, o titular era John Sivebæk, atleta que chegou a representar o Manchester United na década de 80 e marcou época no Saint-Étienne. Era mais um defensor confiável da equipe, sendo também lembrado por ter marcado o primeiro gol da “Era Alex Ferguson” em seu período na Inglaterra. Do lado contrário, Kim Christofte foi o habitual titular, embora tivesse aptidão para atuar na defesa central e até mesmo no meio-campo. Houve partidas também em que o atleta atuou na zaga, com o ingresso de Henrik Andersen, lateral de ofício que fez carreira no Anderlecht e no Colônia, mas sofreu lesão grave durante a competição europeia.

Na contenção, e fazendo a transição da defesa para o ataque, Kim Vilfort (foto) e John Jensen eram dois pilares importantíssimos para a Seleção Dinamarquesa. Meio-campistas trabalhadores e incansáveis, eram as principais engrenagens necessárias ao funcionamento do time e ainda foram decisivos em momentos chave, anotando os gols do título. Ambos chegaram a ser eleitos o melhor jogador dinamarquês do ano, Jensen em 1987 e Vilfort em 1991, tendo o primeiro inclusive atuado durante quatro anos no Arsenal.

Mais à frente, naquela função que poderia ter sido exercida por Michael Laudrup, atuou Henrik Larsen, outro responsável por gols importantíssimos, o artilheiro do time e da competição na Euro, com três gols. Curiosamente, também não fez sucesso além-Dinamarca.

Havia também espaço para o talento nato na equipe. No ataque, movimentando-se muito, atuava o jogador com maior técnica do time: Brian Laudrup (foto). Habilidoso e criativo, era o jogador mais capaz de propor algo inusitado, imprevisível, mas, diferentemente de seu irmão, comprometeu-se com a estrutura de jogo proposta por seu treinador. Mesmo sem marcar gols, integrou o time da competição, eleito pela UEFA.

Seu companheiro habitual era Flemming Povlsen, atacante que curiosamente não chegou a marcar na Euro, mas fez carreira sólida, defendendo equipes como Real Madrid Castilla, Colônia, PSV Eindhoven e Borussia Dortmund, sempre destacando-se por ser um centroavante rápido e por trabalhar muito duro. Alternativa usual para o ataque foi Lars Elstrup, autor do gol da vitória dinamarquesa contra a França.

Comandando o time, Richard Nielsen (foto) pode ser considerado o maior responsável pelo sucesso da equipe. São muitas as razões. Por ter definido um formato específico de jogo, comprado e vencido uma briga com o maior astro da seleção e unir juventude e experiência, o treinador merece todos os méritos, ficando eternizado por ter conquistado algo inédito e até hoje não igualado por ninguém.



Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

Grupo 1 da Euro 1992: Dinamarca 2x1 França

Estádio Malmö, Malmö

Árbitro: Hubert Forstinger

Público 25.763

Gols: ‘7 Larsen e ’78 Elstrup (Dinamarca); ’61 Papin (França)

Dinamarca: Schmeichel; Sivebӕk, Olsen, Christofte, Nielsen (Piechnik), Andersen; Jensen, Larsen, Laudrup (Elstrup); Frank e Povlsen. Téc.: Richard Nielsen

França: Martini; Amoros, Blanc, Boli, Casoni; Durand, Deschamps, Perez, Vahirua; Cantona e Papin. Téc.: Michel Platini

Semifinal da Euro 1992: Dinamarca 2 (5)x(4) 2 Holanda

Estádio Nya Ullevi, Gotemburgo

Árbitro: Emilio Soriano Aladrén

Público 37.450

Gols: ‘5 e ’33 Larsen (Dinamarca); ’23 Bergkamp e ’86 Rijkaard (Holanda); Larsen, Povlsen, Elstrup, Vilfort e Christoft marcaram nos pênaltis para a Dinamarca; Koeman, Bergkamp, Rijkaard e Witschge marcaram nos pênaltis para a Holanda, Van Basten desperdiçou

Dinamarca: Schmeichel; Sivebӕk, Olsen, Piechnik, Christofte, Andersen (Christiansen); Jensen, Vilfort, Larsen; Laudrup (Elstrup) e Povlsen. Téc.: Richard Nielsen

Holanda: Van Breukelen; Van Tiggelen, Rijkaard, Koeman, De Boer (Kieft); Wouters, Witschge; Gullit, Bergkamp, Roy (Schip); Van Basten. Téc.: Rinus Michels

Final da Euro 1992: Dinamarca 2x0 Alemanha

Estádio Nya Ullevi, Gotemburgo

Árbitro: Bruno Galler

Público 37.800

Gols: ’19 Jensen e ’78 Vilfort (Dinamarca)

Dinamarca: Schmeichel; Sivebӕk (Christiansen), Olsen, Piechnik, Nielsen, Christofte; Jensen, Vilfort, Larsen; Laudrup e Povlsen. Téc.: Richard Nielsen

Alemanha: Ilgner; Reuter, Kohler, Buchwald, Helmer, Brehme; Sammer (Doll), Effenberg (Thom), Häβler; Riedle, Klinsmann. Téc.: Berti Vogts 

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