quarta-feira, 20 de julho de 2016

Times de que Gostamos: Nacional 1971

Após um pequeno hiato, volta ao ar a série “Times de que Gostamos”. Depois de falar sobre o vitorioso time do AZ Alkmaar da temporada 2008-2009, lembramos o grande Nacional, de Montevidéu, do ano de 1971.


Em pé: Manga, Masnik, Ubiña, Blanco, Ancheta, Castillo;
Agachados: Cubilla, Espárrago, Maneiro, Artime e Morales.


Time: Nacional-URU

Time baseManga; Ancheta, Masnik; Ubiña, Montero Castillo, Blanco; Cubilla, Maneiro, Espárrago, Artime e Morales. Téc.: Washington Etchamendi

Período: 1971

Conquistas: Campeonato Uruguaio, Copa Libertadores da América e Intercontinental

A Copa Libertadores da América foi criada em 1960 e logo conquistada pelo Peñarol. Esse marco, que somente na década de 60 se repetiu duas vezes, acirrou a alegada rivalidade mais antiga do futebol fora das Ilhas Britânicas. Enquanto os Carboneros conquistavam uma glória atrás da outra, o Nacional assistia seu sucesso com amargor, sentimento exacerbado pelos vice-campeonatos continentais de 1964, 1967 e 1969.

Leia também: Times de que Gostamos: Peñarol 1960-1961

O clube fundado com ideais nacionalistas se viu subjugado por aquele de origens inglesas na década de 60, algo que precisava mudar para que pudesse ser retomado o equilíbrio da rivalidade. A bandeira de Artigas, símbolo nacional do Uruguai que definiu as cores do uniforme dos Tricolores, ansiava tremular no posto mais alto do pódio continental. Chegou, por fim, o ano de 1971.

Curiosa ou ironicamente, contando com um dos maiores astros da história Carbonera, Luis Cubilla, o clube conseguiu deixar a angustiante fila de espera pelo título da Copa Libertadores da América. Com estilo.

Compartindo o Grupo 2 com os bolivianos Chaco Petrolero e The Strongest e o grande rival Peñarol, o Nacional foi soberano na primeira fase da competição – seis partidas, cinco vitórias e um empate. Mais que isso, a equipe bateu por duas vezes seu maior antagonista e o eliminou: 2x1 no primeiro encontro e 2x0 no segundo. Na segunda fase de grupos, que marcou as semifinais, os Tricolores enfrentaram um forte time do Palmeiras, que havia sido o vice em 1968, e o Universitario do Peru, segundo colocado na competição do ano que se seguiria. Dos quatro jogos, os uruguaios ganharam três e empataram um, o suficiente para voltar às finais.

Contra o fantasma dos vices anteriores, o Nacional possuía a missão ingrata de impedir o tetracampeonato do Estudiantes. Foi necessário um playoff para tanto, uma vez que as duas primeiras partidas registraram vitórias pela margem mínima, primeiro dos argentinos e após dos uruguaios. De volta a Lima, os Tricolores finalmente puderam espantar a dúvida gerada nos últimos anos e acirrar a rivalidade com o Peñarol. Enfim, bradavam o grito de campeão!

Conquanto não haja dúvida de que a conquista do continente foi o maior êxito de um ano inolvidável para o clube, certamente o título uruguaio e a posterior conquista do Intercontinental (contra o Panathinaikos, vice-europeu, uma vez que o Ajax, o campeão, recusou-se a disputá-lo temendo a repetição das cenas de violência ocorridas no ano anterior na disputa entre Estudiantes e Feyenoord) deixaram ainda mais brilhante o período.

Confira ainda: Nacional x Peñarol: o clássico do futebol uruguaio


Já na meta uruguaia atuava uma de suas mais importantes referências. Goleiro do Brasil na Copa do Mundo de 1966, Manga (foto) era o responsável por parar os adversários do Nacional. Após passar anos defendendo o Botafogo, protagonizou confusão com João Saldanha, chegou a Montevidéu em 1968 e foi ídolo, conquistando vários títulos e permanecendo no time até 1974. Ágil, sempre bem colocado, e notável pela rápida reposição de bola, era ainda conhecido por tentar evitar ao máximo a concessão de rebotes, algo raro à época.

Recentemente, em visita ao clube, o brasileiro falou sobre a conquista da Copa Libertadores:

“Foi uma emoção muito grande (...) é preciso vencer partidas para ser campeão e, para ser campeão da América, é preciso vencer 12 partidas. Esse foi meu trabalho no Nacional”.

O vitorioso time treinador por Washington Etchamandi atuava em um esquema tático que pode ser pensado hoje como um 2-3-5. Compondo a primeira linha, na retaguarda, o Nacional contava com a forte marcação e imposição aérea de Atílio Ancheta (foto), que faria história no Grêmio, e Juan Masnik, então o capitão da Seleção Uruguaia. Enquanto o primeiro era um vigoroso garoto de 23 anos o segundo já possuía 28 e muita experiência. Como curiosidade, é relevante lembrar que Masnik chegou ao clube em 1971 vindo do Gimnasia y Esgrima, justamente a equipe rival do Estudiantes, adversário tricolor na final, e marcou o gol que garantiu a disputa do terceiro e derradeiro jogo da competição.

Na hipotética linha de jogadores imediatamente posta à frente da dupla formada por Ancheta e Masnik atuavam três figuras. Uma delas possuía especial importância: Luis Ubiña (foto), o capitão da equipe. Membro da Seleção Uruguaia que disputou as Copas do Mundo de 1966 e 1970, o lateral direito já era experiente à época, com 31 anos. Chamava atenção pela liderança e o respeito que sua figura emanava, além da evidente competência em sua posição. Pelo Nacional, disputou 163 partidas e marcou três gols, aposentando-se em 1974, ainda no clube.

Mais centralizado, em um posicionamento que hoje chamamos de volante, a responsabilidade pela marcação cabia a Julio Montero Castillo, outra lenda do clube. Marcador forte e influente, era um defensor na acepção mais ampla da palavra, uma vez que atuava em qualquer posição do setor. Entre duas passagens, o jogador, que é pai do ex-zagueiro Paolo Montero, disputou 459 jogos pelos Tricolores. Fechando o setor, pela esquerda, atuava Juan Carlos Blanco, outro defensor versátil e símbolo do Nacional, pelo qual atuou em 237 partidas, anotando seis gols.

À frente, um quinteto implacável encantava. Pela ponta direita atuava o mais talentoso dos atletas de seus integrantes: Luis Cubilla (foto). Ídolo do rival Penãrol e tendo passagens importantes por Barcelona e River Plate, retornou a Montevidéu aos 29 anos, mas ainda com muito futebol para entregar. Habilidoso e driblador, El Negro cruzava e finalizava como poucos, tendo se firmado como um dos melhores atletas uruguaios de todos os tempos. No Nacional voltou a confirmar sua qualidade técnica, sendo o jogador mais diferenciado da equipe.

Alocado mais à faixa central, Víctor Espárrago fazia importante parceria com Cubilla. Multifuncional, possuía a capacidade de atuar em praticamente qualquer função a partir do meio-campo. Sua qualidade era tanta que o levou a atuar em três Copas do Mundo (1966, 1970 e 1974). Conforme é contado, sua leitura de futebol e dinamismo eram tão impressionantes, que permitiam aos treinadores escalá-lo para marcar o craque do adversário, com liberdade para criar ou até mesmo como centroavante. Pelo Nacional, disputou 431 jogos, marcando 62 gols.

Também no setor de criação, Ildo Maneiro era mais uma peça importante para o desenvolvimento do jogo tricolor. Não foi um atleta de tanto destaque quanto seus companheiros de frente, mas foi importante. Curiosamente, após passar três temporadas no Lyon, fez o caminho inverso ao de Cubilla, terminando a carreira no Peñarol. Por sua vez, o ponta esquerda era a personificação de um canhão. Julio César Morales, cria do Racing de Montevidéu, dedicou a maior parte de sua carreira ao Nacional, representando-o entre 1965-1973 e 1979-1982. Sua “patada” o colocou no rol dos grandes de todos os tempos do clube, o qual representou 471 vezes, balançando as redes 191 vezes. A despeito de possuir uma forte veia goleadora, também se destacava como assistente.

Havia ainda um atleta com um ofício bem determinado: Luis Artime (foto), o matador. Um dos artilheiros da Copa Libertadores de 1971, com 10 gols, e autor dos tentos do clube no Intercontinental, o argentino era brilhante em seu habitat natural, o centro das defesas adversárias. Jogador de forte personalidade e caráter, era outra influência fortíssima no elenco, que sempre possuía nele alternativa capaz de mudar os rumos de qualquer partida. O atleta era sinônimo de gol. Artime até não era conhecido pela beleza de seu jogo, mas sua eficiência era indiscutível, acima de qualquer suspeita. Ao todo, colocou os torcedores Tricolores em êxtase 158 vezes.

Organizando a sólida e extremamente técnica esquadra do Nacional, estava o treinador Washington Etchamendi (foto), figura de perfil extremamente peculiar. O uruguaio interpretava o futebol comparando-o à vida. Seu espírito agregador e sua vivacidade eram parte de sua identidade e muito do que o clube uruguaio conquistou se deveu à capacidade do técnico para incutir esse espírito no coletivo.

O treinador também criou fama com a autoria frases folclóricas, mas sempre abertas a reflexões e interpretações, como: En el mundo cada vez hacen más falta dos cosas: ¡democracia y delanteros!” (“No mundo cada vez fazem mais falta duas coisas: democracia e atacantes!”.

Se o Nacional vivia assombrado por alguns vice-campeonatos e pelos sucessos de seu rival, uma equipe determinada, talentosa, consciente e organizada tratou de colocar um imperioso ponto final a essa situação. Renasceu em 1971 uma das maiores instituições do futebol sul-americano.

Ficha técnica de alguns jogos importantes:

Grupo 2 da Copa Libertadores da América de 1971: Peñarol 0x2 Nacional

Estádio Centenário, Montevidéu

Árbitro: Lorenzo Cantillana

Público 60.000

Gols: ’75 Blanco e ’88 Maneiro (Nacional)

Peñarol: Mazurkiewicz; Figueroa, González, Matosas; Lamas, Caetano, Viera, Onega; Castronovo, Corbo, Acuña (Villalba). Téc.: Gastón Máspoli

Nacional: Manga; Blanco, Ancheta, Masnik, Mujica; Montero Castillo, Espárrago, Maneiro; Cubilla, Artime, Bareño (Prieto). Téc.: Washington Etchamandi 

Grupo A da Copa Libertadores da América de 1971: Nacional 3x1 Palmeiras

Estádio Centenário, Montevidéu

Árbitro: Vicente Llobregat

Público 65.000

Gols: ’42 Artime, ’57 Morales e ’64 Prieto (Nacional); ’25 César Maluco (Palmeiras)

Nacional: Manga; Blanco, Ancheta, Masnik, Mujica; Montero Castillo, Espárrago, Prieto; Maneiro, Artime, Morales. Téc.: Washington Etchamendi

Palmeiras: Leão; Eurico, Nélson Coruja, Baldocchi, Dé; Dudu, Héctor Silva (Zé Carlos), Ademir da Guia; Edu Bala, César Maluco, Pio (Fedato). Téc.: Rubens Minelli

Final da Copa Libertadores da América de 1971: Nacional 2x0 Estudiantes

Estádio Nacional José Díaz, Lima

Árbitro: Rafael Hormazábal

Público 41.000

Gols: ’24 Espárrago e ’67 Artime (Nacional)

Nacional: Manga; Ubiña, Ancheta, Masnik, Blanco; Montero Castillo, Espárrago, Maneiro (Mujica); Cubilla, Artime e Morales (Mameli). Téc.: Washington Etchamendi

Estudiantes: Pezzano; Malbernat, Aguirre Suárez, Togneri, Medina; Pachamé, Verde, Romeo; Echecopar, Rudzki, Verón (Bedogni). Téc.: Miguel Ignomiriello

Final da Copa Intercontinental: Nacional 2x1 Panathinaikos

Estádio Centenário, Montevidéu

Árbitro: Aurelio Angonese

Público: 70.000

Gols: ’34 e ’75 Artime (Nacional); ’90 Filakouris (Panathinaikos)

Nacional: Manga; Ubiña, Blanco, Masnik, Brunell; Montero Castillo, Espárrago, Maneiro; Cubilla (Mujica), Artime, Mameli (Bareño). Téc.: Washington Etchamendi

Panathinaikos: Ikomonopoulos; Mitropoulos, Kapsis, Sourpis, Dmitriou, Athanassoupoulos; Kamaras (Filakouris), Kouvas, Eleftherakis; Domazos e Antoniadis. Téc.: Ferenc Puskas

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