segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O dilema de Ranieri

Na temporada 2015-16, uma grande surpresa emocionou no futebol inglês. Após 132 anos de vida, com muita humildade e entrega, o Leicester City superou rivais que possuíam orçamentos muito mais generosos que o seu e, com uma proposta muito bem definida, venceu a Premier League. Embora seja evidente que a realização do sonho só foi possível com a aplicação de todos os jogadores do elenco, enquanto coletivo, três peças se destacaram sobremaneira: o onipresente N’Golo Kanté, o talentoso Riyad Mahrez e o matador Jamie Vardy. Destes, só o primeiro saiu, mas sua ausência vem sendo muito sentida e inspira atenção.



O time que o treinador italiano Claudio Ranieri projetou na campanha vitoriosa possuía identidade, um selo, uma marca. Com muita aplicação tática, o tradicional 4-4-2, com dois volantes, dois meias abertos pelos flancos e dois atacantes se mostrou inapelável, sabendo sofrer e impor sofrimento. Quando atacado, apostava suas fichas na recuperação da bola, ou forçando seu adversário ao erro ou confiando na especial capacidade de Kanté (foto) para retomá-la.

A seguir, do volante francês ou de seu companheiro de setor, o inglês Danny Drinkwater, era feita rápida transição, buscando a velocidade de Mahrez ou Marc Albrighton pelos flancos, com o objetivo final de encontrar a constante e intensa movimentação e rapidez de Vardy e do nipônico Shinji Okazaki. Esse estilo ficou facilmente definido com uma palavra: verticalidade.

Pois bem, aquela que talvez tenha sido a principal engrenagem do time (Kanté) partiu. Hoje o Leicester tenta repetir a fórmula de seu sucesso, mas tem encontrado dificuldades. Nos primeiros quatro jogos que disputou, perdeu para o recém-promovido Hull City, empatou com o Arsenal, venceu o Swansea City e foi massacrado pelo Liverpool, 4x1.

Em todos os jogos, o time visto em campo foi basicamente igual ao de 2015-16, mas um fato não passou sem notícia: no primeiro jogo, Ranieri apostou em Andy King no lugar deixado vago por Kanté; no segundo em Nampalys Mendy – contratado para repor a saída do volante francês –; e nos últimos dois em Daniel Amartey (foto abaixo). Por mais que não tenham atuado mal, nenhum deles alcançou desempenho parecido com o de N’Golo. O resultado? Os Foxes ficaram muito expostos. Em quatro jogos, sofreram sete gols, média de 2,3 por jogo, a qual contrasta brutalmente com a de 0,94 da temporada passada.

“Eu não quero falar sobre Kanté. Só há um – não há outro no mundo. Ele se foi e agora temos que seguir em frente”, lamentou Ranieri após a vitória do Leicester contra o Swansea.

É claro, tudo não passa de um começo e era esperado que o time precisasse de tempo para se readaptar. Não obstante, em uma liga tão competitiva como é a Premier League, esse prazo é curto. Tem se mostrado necessário um maior preenchimento do setor de meio-campo, o qual tem sido dominado pelo dos adversários.

Além disso, em outra análise, na partida contra o Hull City, claramente um clube menos qualificado, o Leicester teve mais posse de bola durante o jogo e não soube o que fazer com ela, uma vez que não é essa sua característica. Esse expediente deverá ser utilizado por outras equipes durante a competição e o time precisa saber lidar com ele.

Não há tempo para lamentar a saída de Kanté. É preciso, contudo, perceber o quão importante o francês era. Em mais de uma ocasião, no último ano, o Leicester aparentou jogar com 12 jogadores, tamanha era a capacidade de seu volante para ocupar espaços, apresentar-se para o jogo e desarmar. Não é absurdo dizer que o atleta fazia o trabalho de mais de um jogador e é por isso que o time enfrenta dificuldades atualmente. Também é essa a razão, que tem levado muitos a apontarem a necessidade de fortalecimento do meio-campo, possivelmente com o sacrifício de Okazaki.

Hoje, é muito difícil enxergar o Leicester brigando pelo título e muitos são os fatores. Além da própria dificuldade para se reencontrar, os Foxes viram alguns de seus adversários (sobretudo os rivais de Manchester) se reforçarem muito, gastando milhões. Ranieri tem o seu grupo nas mãos e deverá conseguir recolocá-lo nos trilhos. Entretanto, para isso precisa superar o dilema que vive: preservar a identidade vencedora do time e esperar que o mesmo se acerte ou buscar reequilibrá-lo de outra forma? A pergunta parece simples. Contudo, respondê-la vem se mostrando tarefa árdua.

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