quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O Botafogo de Jair Ventura

Quando o Campeonato Brasileiro de 2016 se iniciou, havia poucas dúvidas sobre qual seria o destino do Botafogo. A luta contra o descenso ou uma estadia confortável em uma das posições intermediárias da tabela era o que se esperava do Fogão. Diante dos primeiros jogos do clube, essas conclusões inclusive se justificaram. Nas 10 primeiras rodadas do certame, o alvinegro venceu em apenas duas oportunidades. Embora fosse bem visto, o treinador Ricardo Gomes deixou o comando carioca às vésperas da 20ª rodada, com o Botafogo na 13ª posição, rumando para o São Paulo. Em seu lugar, assumiu Jair Ventura, ex-auxiliar e filho de Jairzinho. Como se a alcunha de seu pai se lhe aplicasse – Furacão –, tudo mudou.



Desde que assumiu o comando do Glorioso, Jair Ventura vem ganhando os mais sinceros aplausos de seu torcedor e de analistas de todo o país. Anteriormente responsável por todo o scout de seus comandados, assumiu o time tendo conhecimento pleno de suas características, qualidades e defeitos. Assim, potencializou o desempenho de todo o seu coletivo. Jogadores outrora desacreditados passaram a render muito mais e os resultados vieram. Tendo assumido o time na 20ª rodada, com vitória contra o São Paulo, viu seu time ser vitorioso em mais nove partidas. Marca notável, indiscutivelmente. Entretanto, como tudo isso foi possível?

A ascensão de uma defesa quase intransponível

Até o momento, o Botafogo sofreu um total de 35 gols no Campeonato Brasileiro, dado que o coloca como apenas a oitava melhor defesa do torneio. Não obstante, é preciso separar o Fogão em dois: o de Ricardo Gomes e o de Jair Ventura. Com o novato, de apenas 37 anos, a equipe concedeu apenas cinco tentos em 14 partidas, o que quer dizer que nas outras 19 que fez sofrera 30. Com a troca de comando a média de tentos concedidos caiu da alarmante média de 1,6 gols por partida, para uma fantástica média de 0,35.

A primeira linha de defesa, composta pelos tradicionais quatro homens – dois laterais e dois zagueiros – se encontrou.

Se Joel Carli (foto) não é exatamente um jogador que prima pela técnica e rapidez, é firme, seguro e transmite confiança ao restante de seus companheiros. Esses predicados casaram impressionantemente bem com aqueles que seu parceiro, o jovem Emerson, possui. Rápido, mais técnico (foi, inclusive, opção pela lateral direita), mas menos seguro, o jogador cresceu imensamente de produção.

É também necessário mencionar que, na ausência do selecionável goleiro Jefferson, o também experiente Sidão, de 33 anos e ex-Audax, vem dando conta do recado e se saindo melhor do que a encomenda. Com muitos reflexos e segurança, não deixou seus companheiros e torcedores sentirem o peso da ausência do maior ídolo botafoguense no momento. A renovação de seu contrato já vem sendo trabalhada nos bastidores do clube.

Três volantes que se justificam

Outro ponto que precisa ser mencionado, necessariamente, é a presença de três volantes, os quais são talvez o ponto mais fundamental capaz de justificar a ascensão alvinegra. Mais centralizado e recuado está Airton, não mais aquele volante afeito às entradas violentas, mas outro, melhor tecnicamente, muito mais seguro e consistente. Além dele, são normalmente alinhados Bruno Silva e Rodrigo Lindoso, jogadores de boa marcação, que se apresentam para o jogo e têm bom passe. Todavia, por que são tão importantes?

Primeiramente, os volantes são fundamentais porque permitem aos laterais, dotados de veia exageradamente ofensiva, toda a liberdade que precisam para dar profundidade ao jogo da equipe. 

Antes, a direita possuía Luis Ricardo, o qual sofreu grave fratura e foi plenamente substituído por Alemão, contratação emergencial vinda do Bragantino. Pela esquerda, o destaque é ainda maior. Desde o início da temporada, Diogo Barbosa (foto) é um dos grandes jogadores da temporada do Botafogo. Não obstante, com o acerto da marcação, seu desempenho evoluiu ainda mais.

É preciso mencionar também o aparecimento de Victor Luis, também pelo flanco esquerdo. O garoto criado no Palmeiras surpreendeu nas oportunidades que teve e seu desempenho foi tão bom que ensejou a entrada de Diogo no meio-campo em algumas oportunidades, formando a trinca de volantes e fazendo uma dobradinha interessantíssima com Victor pelo lado canhoto, sempre deixando o lateral adversário em desvantagem.

Outro jogador que tem tido papel relevante pelo setor é Dudu Cearense. Após um retorno do futebol europeu tecnicamente muito aquém do esperado, o volante precisou reerguer sua carreira no Fortaleza e voltou a mostrar utilidade, não sendo titular absoluto, mas peça importante para o elenco, entrando em quase todas as partidas e substituindo qualquer um dos demais volantes nas eventuais ausências.

Perfeição nos contragolpes

É assim que o Botafogo tem moldado contragolpes mortais, os quais têm conferido imenso destaque ao meio-campista Camilo (foto), visto como o regente da orquestra alvinegra, e aos atacantes Neilton, o mais habilidoso e veloz deles, e Sassá, o artilheiro. Uma vez recuperada pelo setor defensivo, a bola é rapidamente destinada aos flancos ou a Camilo. Com grande velocidade, os jogadores têm superado as marcações adversárias, cuja recomposição não é tão rápida, e ficado em maioria numérica no campo de ataque.

Por isso Neilton e Camilo têm se destacado tanto: ambos possuem espaço para trabalhar a bola. No caso do atacante, para conduzir a bola e driblar e, no do meia, para pensar o jogo, finalizar e fazer a distribuição das bolas com critério. Assim, fica muito facilitada a vida de Sassá, que, como jogador alvo, recebe bolas dos laterais e de seus companheiros de frente. Outro nome que tem ganhado destaque nas ausências de Sassá é o do rápido Rodrigo Pimpão.

Jair Ventura entendeu e pôs em prática com impressionante rapidez um Botafogo que explora o que seus atletas têm de melhor. Em outros contextos, três volantes poderia ser uma ideia ineficaz; em outra equipe jogadores como Camilo, Alemão, Diogo Barbosa, Sassá e Neilton poderiam não se destacar tanto. Assim, o clube carioca entrou para ficar na briga por uma vaga no exagerado G6 e um lugar na fase eliminatória da Copa Libertadores da América passou a ser extremamente factível. 

Time e treinador vivem fase tão boa que até a média de público do Fogão aumentou sensivelmente. 

2016 não desenhou um quadro animador para o Botafogo, todavia vai terminando com notas positivas. Jogadores foram redescobertos e um novo treinador ascende em meio a um mercado cansado dos velhos expoentes. Ainda que não tivesse muita escolha, o clube carioca apostou em uma solução caseira e permitida dentro de seu orçamento, que há tempos vinha sendo preparada. Por isso, vem sendo recompensado.

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