sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Times de que Gostamos: Saint-Étienne 1973-1976

Retomando a coluna “Times de que Gostamos”, depois de lembrar os feitos do Ipswich Town, que na temporada 1980-1981 conquistou a UEFA Cup, rememoro o excelente time do Saint-Étienne do período entre 1973-1976, interregno em que dominou o cenário do futebol francês e mostrou força no continente europeu.


Em pé: Curkovic, Janvion, Piazza, Farison, Bathenay, Synaeghel, Lopez;
Agachados: H. Revelli, Rocheteau, Larqué, P. Revelli.

Time: Saint-Étienne

Período: 1973-1976

Time base: Curkovic; Janvion (Merchadier), Piazza, Lopez, Farison (Repellini); Bathenay, Larqué, Synaeghel (Santini); Rocheteau (Triantafyllos/Bereta/Saramagna), H. Revelli e P. Revelli. Téc.: Robert Herbin

Conquistas: Tricampeonato francês e bicampeonato da Copa da França

Atualmente, pode soar estranho aos ouvidos do jovem amante do futebol o fato de que a despeito das recentes hegemonias de Lyon e, mais recentemente, de Paris Saint-Germain, o maior vencedor do Campeonato Francês, em toda a história, segue sendo o Saint-Étienne.

Os Vert et Blancs, eternos representantes da classe operária da cidade, têm 10 títulos da competição, um a mais que o Olympique de Marseille, que vem logo atrás. Muito disso, deve-se à força demonstrada pela equipe na década de 70, após alguns sucessos na anterior.

Comandado pelo então jovem Robert Herbin (foto), ex-jogador do próprio clube e que fez a transição direta de papeis, trocando as chuteiras pela prancheta, o time ficou conhecido pelo vistoso jogo que empregava. Sua equipe jogava e era justamente jogando que tentava evitar que seu rival jogasse. Com a técnica e habilidade de seus jogadores, o Saint-Étienne, sempre abusando do jogo pelos flancos, idealizava superar a tática e o lado físico do jogo; em grande medida o conseguiu, transformando-se, para muitos, em ícone cult.

A formação do time

Em 1972, o time alviverde precisou lidar com um baque importante. Principal estrela do elenco que conquistara o tricampeonato francês no final dos anos 60 (além de duas copas da França), o malinês Salif Keita deixou o clube, partindo para o Olympique de Marseille. A imponente figura do artilheiro precisava ser substituída a altura; a equipe perdera ninguém menos do que o Jogador Africano do Ano de 1970.

Apesar disso, a estrutura do time campeão não foi completamente alterada, o que tornou menos difícil a transição. No ataque, o talentoso duo formado pelos irmãos Revelli continuava lá, atormentando as defesas adversárias, com os gols de Hervé e a habilidade de Patrick. Nos outros setores, contudo, houve mais alterações.

Sobretudo na defesa, um novo encaixe começou a se dar em 1972, em função das chegadas do zagueiro argentino Oswaldo Piazza e do lateral Gérard Janvion. Outra importante novidade foi a ascensão do volante Dominique Bathenay da base para os profissionais, bem como a contratação do influente goleiro iugoslavo Ivan Curkovic, ex-Partizan.

A rapidez com que o time reconquistou coesão foi tanta que oculta completamente o fato deste nada ter conquistado em 1972-1973. O melhor estava por vir e parecia que todos o sabiam.

A retomada do domínio doméstico

Em 1973-1974, o torcedor que se acostumou com os êxitos da década de 60 pôde voltar a sentir o prazer de ser campeão e vibrou orgulhoso com o que sua equipe demonstrou. Com um ataque poderoso (o segundo melhor da competição, com 74 gols marcados em 38 jogos) e uma defesa forte (a segunda melhor do certame, com 40 tentos sofridos), mostras de um coletivo impressionantemente bem formado, o time somou oito pontos a mais que o Nantes, vice-campeão – foram apenas seis derrotas em todo o ano. Vale lembrar que, à época, as vitórias somente somavam dois pontos.

Além disso, após bater o Monaco no Parc des Princes (2x1), em Paris, o time conquistou o double, vencendo a Copa da França.

Com o sucesso, voltou a disputar a Copa dos Campeões e passou a dividir as atenções entre as competições domésticas e a poderosa disputa continental. Talvez por isso em 1974-1975 não tenha sido tão brilhante na Ligue 1 quanto na temporada anterior. Ainda assim, fez mais do que o suficiente para conquistar o bicampeonato. Embora tenha somado menos pontos e marcado menos gols, conseguiu vantagem de oito pontos para o Olympique de Marseille, de Paulo César Caju e Jairzinho, e voltou ao topo.

Aliás, o sucesso do Campeonato Francês repetiu-se na copa nacional. De volta ao Parc des Princes, o Saint-Étienne brilhou novamente, desta vez contra o Lens, 2x0. Apesar disso, o êxito na própria pátria parecia pouco para os Vert et Blancs. Para se eternizarem como um dos grandes times da história do futebol europeu, teriam que mostrar força contra os mais fortes; precisariam fazer bonito na European Cup.

No meio do caminho, havia um certo Bayern

A escalada de sucesso do Saint-Étienne seguiu a toda. Nas partidas internacionais de 1974-1975, sem dificuldades, eliminou o Sporting CP na primeira fase do certame, tendo brilhado a estrela de Hervé Revelli. A seguir, após sofrer derrota pesada para o Hajduk Split na Iugoslávia, 4x1, os franceses conseguiram o impensável: bateram o time do Leste Europeu por 5x1 e seguiram em sua caminhada. Ainda na Cortina de Ferro, les Verts bateram o polonês Ruch Chorzów. Tudo isso para conhecerem seu algoz.

Quem acredita em carma, certamente reconhece no Bayern de Munique o do Saint-Étienne. Em meio a um contexto de viradas e muitos gols, o time francês chegou às semifinais da Copa dos Campeões, junto a Barcelona, Leeds United e o citado clube bávaro, seu adversário. Se antes a equipe se garantira sempre que jogou em casa, um empate sem gols na partida de ida se mostrou um mau agouro.

O adiamento do sonho continental veio na partida de volta, em que gols do Kaiser, Franz Beckenbauer, e de Bernd Dürnberger mandaram o Saint-Étienne para casa. Ele retornaria, no entanto, já no ano seguinte.

Mantendo-se no topo na França, em 1975-1976 o Saint-Étienne, que via se firmar a estrela de Dominique Rocheteau (foto), l’Ange Vert (o Anjo Verde), suou, mas conquistou novamente a Ligue 1, somando três pontos a mais que o Nice. Dessa vez, o título da Coupe de France não veio, tendo sido a final disputada entre Olympique de Marseille e Lyon. Sucesso maior o Saint-Étienne encontrou na Copa dos Campeões.

Após passar, com facilidade, pelo KB, da Dinamarca, e pelo Rangers, sofrer para conseguir uma reviravolta e transformar o 2x0 inicial do poderoso Dynamo de Kiev – de Oleg Blokhin – em um 3x2, no placar agregado, e conseguir a vitória pelo magro placar de 1x0 contra o PSV Eindhoven, o mais famoso alviverde francês chegou à final. Contra quem? Novamente, o Bayern.

Em Hampden Park, na cidade do Rangers, este se viu vingado. Talvez o dado mais curioso da final tenha sido o fato de que, em meio a uma infinidade de jogadores de talento, coube ao volante, a peça mais segura do Bayern, a tarefa de marcar o solitário gol do título bávaro. Franz Roth pôs fim ao sonho do Saint-Étienne, sentenciando a França a uma espera até 1992-1993, para ver um de seus clubes finalmente vencer a competição continental (com o Olympique de Marseille).

O grande time

Como mencionado, o gol alviverde era defendido por Ivan Curkovic (foto). Diz o velho ditado que “todo bom time começa com um bom goleiro”; tal máxima foi respeitada em Saint-Étienne. Um dos líderes do time, o iugoslavo se confirmou uma grande contratação, atuando em quase todas as partidas do clube no período e passando a ser reconhecido pela própria agremiação como o melhor goleiro de sua história. É lembrado particularmente bem pelo brilhantismo das defesas praticadas nas partidas contra o PSV, na Copa dos Campeões de 1975-1976.

No início do período retratado, a lateral direita não tinha um dono bem estabelecido. Alain Merchadier, jogador mais apto ao trabalho defensivo, sendo, inclusive, alternativa para a zaga, era uma das opções. Outro que sempre atuou pelo setor foi Pierre Repellini, este ainda mais versátil que seu companheiro, podendo atuar em ambas as laterais e no meio-campo, sendo também lembrado pela boa técnica. A despeito disso, ambos perderam gradualmente seu espaço, em razão da avassaladora afirmação de Gérard Janvion, lateral ofensivo e veloz que aos poucos se adaptou também às exigências defensivas da função, representando a Seleção Francesa na Copa do Mundo de 1982 como zagueiro.

Pelo outro lado, sempre que esteve disponível o titular foi Gérard Farison. A princípio um ponta esquerda, foi adaptado à lateral, por onde passou quase toda a sua carreira. Dono de veia ofensiva exacerbada, era perigo constante em seus avanços ao ataque, sempre fazendo parcerias infernais com o ponta canhoto escalado. Suas eventuais ausências eram supridas pelo citado Repellini.

A defesa central, por sua vez, era um setor composto por uma dupla inquestionável. De um lado, o argentino Oswaldo Piazza; do outro o franco-argelino Christian López (foto). Peças importantes de suas seleções, impunham respeito com a camisa do Saint-Étienne. Ao contrário do que essa frase parece pressupor, não eram atletas de estilo agressivo e grosseiro, muito pelo contrário. Destacavam-se com desarmes limpos, jogo aéreo firme e qualidade na saída de bola. Era como se os Vert et Blancs tivessem dois líberos em campo. López é também lembrado pela forma como parou Blokhin na European Cup, em 1976.

No meio-campo, o time dispunha de quatro jogadores talentosos, que sempre disputavam três vagas no setor. Dominique Bathenay, o mais jovem deles, apareceu justamente em 1973 e logo se tornou peça imprescindível. O mais defensivo dos médios alviverdes, eram um marcador consistente, sabia sair jogando com qualidade e tinha em seu chute de média distância um de seus melhores predicados técnicos. Muitos se lembram de uma de suas potentes finalizações em particular, um chute que atingiu a trave do Bayern de Munique na final da Copa dos Campeões, em 1976.

Capitão dos Verts, Jean-Michel Larqué (foto) era um dos atletas mais experientes da equipe e um dos maiores ídolos da torcida do Saint-Étienne. Inteligente, dotado de visão de jogo privilegiada e um perfeito entendedor dos espaços que o campo lhe oferecia, foi um desses jogadores que se tornam ícones.

Além dele, como presenças importantes, o time contou com Christian Synaeghel, jogador de bom condicionamento físico, para o qual não existia bola perdida, e Jaques Santini, atleta versátil, que exercia com qualidade qualquer das funções do meio-campo.

No ataque, havia apenas uma certeza: a titularidade do goleador Hervé Revelli (foto). Jogador que mais vezes marcou na Ligue 1 com a camisa do Saint-Étienne (com 175 tentos) e o terceiro maior artilheiro da história da competição, era um atacante prolífico que sabia se utilizar muito bem da forma como a equipe jogava, sempre recebendo bolas das pontas.

Normalmente, aberto pelo flanco direito, jogava o irmão de Hervé, Patrick Revelli. Jogador rápido e habilidoso, lembrado por seu peculiar bigode, representava perigo constante, tanto pela qualidade para driblar quanto pela aptidão para cruzar bolas na área adversária. Pelo outro lado, contudo, a disputa pela vaga de titular era mais disputada.

Jogador histórico, Georges Bereta foi o primeiro a exercer o papel. Referência eterna da equipe, tendo a defendido entre 1966-1974, tinha uma perna canhota infernal, boa para o drible e eficiente nas finalizações. Foi o primeiro capitão da “Era Herbin”. Com sua saída, o posto ficou vago e foi disputado, inicialmente, entre Christian Saramagna e Yves Triantafyllos, já que o jovem Rocheteau ainda não estava pronto. Enquanto o primeiro era mais talentoso, hábil no manejo da bola, o segundo tinha mais “faro de gol”. No entanto, Saramagna sofreu com muitas lesões e Triantafyllos deixou o clube em 1975. O lugar estava mesmo destinado a pertencer a Rocheteau.

Embora seja lembrado como ponta pelo lado direito, Rocheteau foi muitas vezes, mormente em seus primeiros anos no time, usado pelo flanco esquerdo e até mesmo como referência. De carreira atrapalhada por lesões, é considerado um dos melhores franceses de todos os tempos. Seu peculiar estilo, com cabelo longo e dribles insinuantes, logo o tornou um jogador instrumental para o sucesso da equipe e um dos favoritos da torcida. Posteriormente, brilhou com a camisa do Paris Saint-Germain.

Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

34ª rodada da Ligue 1 1973/1974: Saint-Étienne 2x0 Lyon

Estádio Geoffroy Guichard, St. Étienne

Árbitro: Robert Frauciel

Público 34.338

Gols: ’11 Bereta e ’80 Revelli (Saint-Étienne)

Saint-Étienne: Curkovic; Janvion, Piazza, Lopez, Repellini; Bathenay, Larqué (P. Revelli), Synaeghel; Bereta, H. Revelli e Rocheteau. Téc.: Robert Herbin

Lyon: Chauveau; Lhomme, Mihajlovic, Baeza, Domenech; Chiesa, Ravier, Maneiro; Di Nallo, Lacombe, Mariot. Téc.: Aimé Mignot

36ª rodada da Ligue 1 1974/1975: Saint-Étienne 4x1 Olympique de Marseille

Estádio Geoffroy Guichard, St. Étienne

Árbitro: Robert Wurtz

Público 36.521

Gols: ’27 P. Revelli, ’66 Lopez, ’68 Larqué, ’71 Bathenay (Saint Étienne); ’17 Paulo César Caju (Olympique)

Saint-Étienne: Curkovic; Janvion, Piazza, Lopez, Farison; Bathenay, Larqué, Synaeghel (Santini); P. Revelli, H. Revelli e Sarramagna. Téc.: Robert Herbin

Olympique: Charrier; Lemée, Trésor, Zvunka, Bracci; Buigues, Eo, Emon; Paulo César Caju, Jairzinho e Bereta.Téc.: Jules Zvunka

Final da UEFA Champions League 1975-1976: Bayern de Munique 1x0 Saint-Étienne

Estádio Hampden Park, Glasgow

Árbitro: Károly Palotai

Público 54.864

Gol: ’57 Roth (Bayern)

Bayern: Maier; Hansen, Schwarzenbeck, Beckenbauer, Horsmann; Roth, Kapellmann, Dürnberger; Hoeneβ; Rummenigge e Müller. Téc.: Dettmar Cramer

Saint-Étienne: Curkovic; Janvion, Piazza, Lopez, Repellini; Bathenay, Larqué, Santini; P. Revelli, H. Revelli e Sarramagna (Rocheteau). Téc.: Robert Herbin

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