segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Recomeço para Depay

Quantos são os casos em que a pressão e as expectativas demasiado elevadas impedem que jogadores de grande qualidade consigam exibir seu melhor nível? Incontáveis. Essa tem sido a realidade do holandês Memphis Depay. Contratado pelo Manchester United em 2015, credenciado por exibições sólidas na última Copa do Mundo e pelo destaque absoluto no Campeonato Holandês, recebeu a dura incumbência de envergar a camisa 7 dos Red Devils e, aos poucos, viu sua estrela se apagar. Atuações inconsistentes e poucos minutos em campo se tornaram tônica e sua saída foi inevitável. Agora no Lyon, Depay tenta recomeçar.



Habilidoso, veloz, dono de chute potente e acurado, o winger mostrara no PSV e na Seleção Holandesa impressionante personalidade e talento nato quando desembarcou em Old Trafford. Não foi tratada como absurdo a cessão da camisa 7 – que já foi vestida, dentre outros, por George Best, Eric Cantona, David Beckham e Cristiano Ronaldo – ao jovem, que tem hoje apenas 22 anos.

Contudo, à medida que o tempo foi passando, já na temporada 2015/16, sem que o Manchester United conseguisse mostrar um futebol da qualidade esperada, a expectativa depositada em Depay foi se transformando em frustração. Antes o centro das atenções no PSV e uma promessa sem grandes responsabilidades vestindo o laranja de seu país, o jovem teve muita dificuldade em sua estada na Inglaterra. Conforme o time jogava mal, a torcida para que o holandês se transformasse em redentor crescia e a decepção ao não ver o esperado desempenho foi aumentando.

Foi sendo minada, gradualmente, a confiança do jogador que em sua chegada afirmou estar preparado para o desafio de atuar na Premier League. Logo, foi sendo esquecido, vendo a ascensão de outros jovens criados no próprio clube, como foram os casos de Marcus Rashford e Jesse Lingard.

“Esse é o maior clube do mundo, então eu tenho que jogar por troféus – eu vim para cá para conquistar títulos (...) Estou animado para fazer meu trabalho pelo Manchester United e por marcar gols – sou um atacante e preciso marcar gols e dar assistências”, disse o jovem na entrevista coletiva de sua apresentação.

56 partidas, com sete gols e sete assistências, após, Depay foi negociado com o Lyon, no que, aparentemente, pode ser visto como um retrocesso em sua carreira. No entanto, a saída é claramente uma tentativa de recuperação da confiança do atleta, que embora tenha sido vendido, permanece sendo considerado uma alternativa pelo United, que possui a prerrogativa de recomprá-lo no futuro (foi prevista cláusula de recompra no contrato do jovem).

No futebol francês, o atacante terá tarefa inglória, mas muito menos pressão. Em tempos de enorme poder econômico do Paris Saint-Germain e de bons e planejados trabalhos de Monaco e Nice, o Lyon ficou para trás na disputa por títulos. Certamente, a aposta na contratação de Depay traz consigo a expectativa de dias melhores para a equipe, além da possibilidade de divisão de responsabilidades.

Se há alguém que deve estar comemorando a chegada do holandês, essa figura responde pelo nome de Alexandre Lacazette, o poderoso e letal centroavante da equipe. Depay representa a possibilidade de uma parceria mais forte para o francês. Não é que não haja bons jogadores de ataque na equipe, entretanto, exceção feita ao goleador citado, os demais não vivem seu melhor momento.

Leia também: Por que Dele Alli é a maior esperança inglesa?

Outrora jogador importante na Seleção Francesa, o veterano Mathieu Valbuena não vive seus melhores dias e demonstra declínio técnico. Essa também é a realidade do ainda promissor Nabil Fekir, que surgiu muito bem, mas tem tido dificuldades para retomar seu melhor nível após ter sofrido lesão gravíssima nos ligamentos do joelho. A chegada de Depay poderá ajudar Lacazette a ser ainda mais prolífico à frente das metas adversárias e, igualmente, permitir que Valbuena e Fekir, com menos responsabilidades, voltem a atuar em nível mais alto.

Não é difícil imaginar isso acontecendo. É clara a diferença de qualidade presente na Ligue 1 em relação à Premier League. Atuando em outra liga do segundo escalão europeu (a holandesa), Depay mostrou eficiência enorme. Por essa razão, a mudança, que por um lado pode ser vista como retrocesso, pode se tornar uma etapa necessária; ser aquele “um passo para trás, para dar dois passos à frente”.

É assim que pensa o presidente do Lyon, Jean-Michel Aulas:

“Apostamos em um jogador que quer mostrar seu imenso talento. Houve muito interesse nele em razão de seu tempo com a Holanda e em Eindhoven, onde ele viveu duas temporadas fantásticas. Quando você o vê se desenvolvendo, tem a impressão de que ele realmente quer mostrar seu imenso talento (...) [O negócio] Foi um sonho, porque corresponde exatamente com o tipo de jogador que estávamos procurando”, disse o mandatário do clube francês à RMC Sport.

A saída do Manchester United e chegada ao Lyon se apresentam como movimentos sábios da parte de Depay, que optou por não ver sua carreira passar sentado no banco de reservas dos Red Devils. O saldo da transferência parece positivo para todas as partes. Para o jogador, representa a oportunidade de voltar a atuar regularmente; para o Lyon a chance de um negócio único, contratando um jogador de grande potencial por valor razoável; e para o Manchester United a possibilidade de ver o holandês evoluir, podendo ser, posteriormente, recomprado.

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