quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Times de que Gostamos: Ajax 1970-1973

Após trazer à memória o ótimo time do Saint-Étienne, que brilhou em solo nacional e continental nos anos 70, relembro uma das equipes mais revolucionárias de toda a história do futebol, o Ajax do início dos anos 70, de Johan Cruyff.


Em pé: Haan, Blankenburg, Wever, Suurbier, Stuy, Keizer, Krol, Schilcher, A. Mühren, Neeskens, Hulshoff;
Agachados: Swart, Rep, Kovacs (treinador), Haarns (assistente), Kleton, Mulder,  Cruyff, G. Mühren.


Time: Ajax

Período: 1970-1973

Time base: Stuy; Suurbier, Hulshoff, Blankenburg (Vasovic), Krol; Neeskens, Mühren, Haan (van Dijk); Rep (Swart), Cruyff, Keizer. Téc.: Rinus Michels/Stefan Kovacs

Conquistas: Tricampeonato da UEFA Champions League, Intercontinental, Bicampeonato da Supercopa da UEFA, Bicampeonato Holandês, Tricampeonato da Copa da Holanda.

O futebol holandês, hoje tão reconhecido pela produção de jogadores de talento e de técnicos com ideias inovadoras e interessantes, era apenas um rincão pouco iluminado pelos holofotes do planeta bola até os anos 60, conservador e de ideias antiquadas.

Novo, diferente e total

Tudo mudou, contudo, na referida década, o que culminou com o vice-campeonato mundial da Holanda em 1974, quando uma mescla de jogadores e estilos provenientes de Feyenoord e Ajax – àquela altura já campeões europeus – formatou um dos times de mais vistoso estilo da história.

Como mencionado, uma equipe do Ajax, da capital holandesa Amsterdã, foi vital para tal êxito. Segundo clube da história do futebol do Velho Continente a conquistar um tricampeonato continental, em sequência, o esquadrão neerlandês marcou seu nome na história com estilo e táticas únicos.

Construído pelo icônico treinador Rinus Michels, comandante reconhecido como a grande influência na edificação do estilo do atual Barcelona (uma vez que treinou a equipe durante representativo período e transmitiu suas ideias a Johan Cruyff, seu sucessor e figura com quem Pep Guardiola muito aprendeu), o Ajax que rendeu o mundo jogava futebol vistoso.

Sem se render à rigidez de táticas tradicionais, que exigiam funções bem determinadas de seus atletas, delineou o que ficou conhecido como Totaalvoetbal, ou “Futebol Total”. Por que total? Simples, em razão do fato de que todos os jogadores de linha tinham a incumbência e a capacidade para manter a unidade do jogo da equipe, podendo fazer qualquer função sem fragilizá-la. Exemplo: se um zagueiro avançasse no terreno, o que lhe era permitido em vários momentos, outro atleta assegurava a solidez da retaguarda, um meio-campo, lateral ou até mesmo um atacante (por que não?).

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Diferenciado, o Ajax encantou, mas não revolucionou somente pelo que representou dentro das quatro linhas. Fora delas, comprovou a importância de outros aspectos no futebol, como a superioridade física, que permitiu a constante movimentação de atletas e desgaste dos rivais, e o melhoramento das técnicas individuais, que trouxe, evidentemente, evolução coletiva. A compreensão do fenômeno futebolístico transmitida por Rinus Michels (foto) foi um ponto de virada na história do futebol. Seu Ajax não era invencível, como nenhuma agremiação jamais o foi em tempo algum, contudo, aproximou-se disso.

Para isso, o comandante contou com a inteligência e disposição para alcançar o máximo desempenho de um grupo de jogadores especiais. É óbvio o fato de que Cruyff é quem melhor personifica tal realidade, mas restringi-la a figura do maior holandês de todos os tempos é diminuir, cruelmente, a importância de jogadores históricos como Ruud Krol, Wim Suurbier ou Johan Neeskens. O que em outro contexto se confirmaria caótico, no Ajax foi belo.

Trajetória de brilho intenso

Vice-campeão europeu em 1969, o Ajax viu o rival Feyenoord se tornar o primeiro clube holandês campeão continental em 1970. Entretanto, estava determinado e destinado à glória, a qual veio pela primeira vez em 1971. Após superar o albanês Tirana, atropelar o suíço Basel, bater o forte Celtic, campeão continental em 1967, e o Atlético de Madrid, em um dos mais representativos palcos do futebol, o estádio Wembley, em Londres, o escrete holandês venceu o Panathinaikos e levantou o troféu europeu. Curiosamente, temendo pela integridade física de seus jogadores, o Ajax abriu mão da disputa do Intercontinental de 1971.

Na temporada seguinte, já treinados pelo romeno Stefan Kovacs, uma vez que Rinus Michels marchara para o Barcelona, o caminho dos Godenzonen foi bem mais duro. Já na primeira fase, enfrentaram o Dynamo Dresden, representante da Alemanha Oriental, valendo-se de uma vitória em casa por 2x0 e um empate sem gols fora para se classificar. A seguir, o time passou pelo Olympique de Marselha, com um 6x2, na soma dos placares das duas partidas; pelo Arsenal, 3x1 no agregado; pelo Benfica, em suado 1x0; e na final, disputada na rival Roterdã, pela forte Internazionale de Milão, 2x0, em show de Cruyff, autor dos dois tentos.

O Ajax se tornou bicampeão europeu e, neste turno, disputou o Intercontinental, vencendo os argentinos do Independiente por 4x1 na soma dos placares (1x1 na Argentina e 3x0 na Holanda).

Veio, então, a temporada 1972/73 e com ela o desafio de se tornar o segundo time tricampeão europeu em sequência. Dessa vez, a trajetória holandesa teve a presença de equipes tradicionais. Primeiro, o clube bateu o CSKA Sofia, 6x1 no agregado. Adiante, após inapelável goleada por 4x0 contra o Bayern de Munique em casa (Bayern este que destronaria o Ajax a partir da temporada seguinte e também seria tricampeão europeu), pôde se dar ao luxo de perder por 2x1 na Alemanha. Nas semifinais, vitimou o Real Madrid, 3x1, para, no derradeiro encontro, frente à Juventus, com magro tento de Johnny Rep, sagrar-se tricampeão continental. Novamente, contudo, os holandeses abriram mão da disputa do Intercontinental.

Vale fazer importante menção ao fato de que alheia aos êxitos do Ajax além fronteiras, a supremacia que o clube impôs na Holanda nesse período também foi impressionante, com a conquista do bicampeonato holandês e do tricampeonato da Copa da Holanda – isso em um tempo em que o Feyenoord também possuía uma equipe poderosa. Além disso, em 1972 venceu os escoceses do Rangers na Supercopa da UEFA (competição disputada entre o campeão europeu e o vencedor da UEFA Cup Winner’s Cup) e, no início de 1974, o Milan.

A despeito de todo o êxito obtido no início da década de 70, o império do clube de Amsterdã começou a desfalecer após a conquista do terceiro título continental. Seu grande astro e principal referência técnica, Johan Cruyff (foto), mudou-se para o Barcelona e o treinador Kovacs trocou o comando do clube pelo da Seleção Francesa. A prova cabal de que o fim daquele período glorioso chegara foi a eliminação precoce da Copa dos Campeões da Europa de 1973/74, perante o CSKA Sofia. Logo, Johan Neeskens também seguiu o caminho de Cruyff e Michels, enfraquecendo ainda mais a equipe de Amsterdã.

Elenco histórico de um time cultuado

O elenco do time vitorioso foi pouco alterado no decorrer de seus anos de glórias, tendo sido o goleiro Heinz Stuy o titular durante todo o período. Arqueiro sem grande distinção, nunca tendo representado a Seleção Holandesa, era, contudo, figura importante no funcionamento do Ajax, não restringindo sua atuação ao trabalho de defesa de sua meta, mas auxiliando a equipe, muitas vezes avançando no campo como um líbero. Sua trajetória nos Godenzonen começou em 1967 e se estendeu até 1976.

Pela ala direita, normalmente, a titularidade coube a Wim Suurbier. Cria do próprio clube, jogador de notória vocação ofensiva (foi ponta nas categorias de base) e que impressionava pelo fôlego, foi um dos grandes jogadores da equipe, a qual defendeu entre 1964 e 1977. Era também versátil, podendo atuar em outras posições, como a lateral esquerda.

Essa, contudo, tinha dono bem definido: Ruud Krol. Um dos maiores atletas de seu tempo, o atleta (outro formado no Ajax) tinha tudo o que se espera de um defensor. Contudo, impressionava mesmo pela capacidade de entender o jogo, o que fez com que, durante sua carreira, tenha atuado no meio-campo, zaga e como líbero. Após a saída de Piet Keizer, tornou-se o capitão do time. Só não atuou em parte da temporada 1970/71 em razão de uma perna quebrada. Tanto Suurbier quanto Krol foram titulares da Seleção Holandesa em 1974.

Durante a maior parte desse período, a zaga foi formada pelo holandês Barry Hulshoff, também saído da base dos Godenzonen, e pelo alemão Horst Blankenburg. A dupla foi parceira por bastante tempo e é reconhecida pela contribuição que entregava ao time, não só defensiva, mas também em muitas ocasiões pela iniciativa da construção das jogadas do Ajax e, eventualmente, indo à frente marcar gols.

Não obstante, é preciso mencionar a presença de Velibor Vasovic (foto), capitão do time até 1971. Defensor iugoslavo de boa técnica, diferenciada leitura do jogo e que possuía importante influência sob o restante da equipe, foi fundamental na formação do time vitorioso, pois era um dos mais experientes, uma verdadeira referência. Além disso, teve papel basilar no desenvolvimento da linha de impedimento proposta por Michels, aperfeiçoada por Kovacs e que ficou famosa na Copa de 1974, quando foi praticada pela Seleção Holandesa.

Do meio-campo em diante havia ainda mais talento, com mais atletas de notável capacidade para exercer diversas funções e compreender as situações que as partidas lhes apresentavam. Zagueiro na Copa de 1974, Arie Haan era um dos pilares do meio do Ajax. Jogador de bom passe, movimentação constante e boa finalização de média distância era um daqueles jogadores conhecidos por fazer a equipe jogar.

Também pelo setor estava aquele que é considerado por muitos o segundo jogador mais importante da equipe: Neeskens (foto). Meio-campista que durante a carreira atuou em praticamente todas as posições de linha, dedicava-se ao desarme, ao passe, à movimentação e à aproximação de seus companheiros como uma mãe a seu filho. Seu jogo com a bola e sem o esférico eram igualmente importantes, assim como sua capacidade de nunca deixar seus colegas sem ter com quem trabalhar a bola. Foi símbolo de refino técnico e inteligência tática.

Completando o setor, havia a presença de Gerrie Mühren. Jogador mais ofensivo que seus parceiros da meia-cancha, o holandês, visto normalmente mais pelo lado esquerdo, era a peça que mais se desprendia do meio e avançava para perto dos atacantes, trocando de posições com eles em alguns turnos e marcando muitos gols.

No encantador ataque do Ajax, houve apenas uma mudança importante entre 1970 e 1973. No início do período, a ponta direita era propriedade de Sjaak Swart, um dos jogadores mais representativos de toda a história do clube. Mais uma cria da equipe, defendeu-a com exclusividade – exceção feita apenas às aparições com a camisa da Holanda. Entre 1956 e 1973 foi sinônimo de velocidade e técnica. O apelido Mr. Ajax diz tudo, Swart é quem mais vestiu a camisa alvirrubra em todos os tempos, com mais de 600 partidas (463 somente no Campeonato Holandês).

Entretanto, aos poucos o craque passou a ceder seu lugar a uma jovem estrela que pedia passagem: Johnny Rep. Velocista com enorme poder de decisão, fazia a vida de seus marcadores um inferno e era visto como um talismã, pela capacidade de marcar gols em momentos importantes (foi dele o tento do título europeu de 1973). Revelado em 1971, permaneceu no clube até 1975, ano em que foi vendido ao Valencia. Um ano antes, foi titular da Holanda na Copa do Mundo e o segundo maior artilheiro da Oranje, atrás de Neeskens, com quatro gols.

Capitão do time após a saída de Vasovic, Keizer (foto, à direita) era o ponta esquerda da esquadra. Mais um que vestiu apenas as camisas do Ajax e da Holanda em sua carreira, foi um atleta brilhante. Embora tenha tido sua qualidade muitas vezes ofuscada pela estrela de Cruyff (foto, à esquerda), era habilidoso, tinha incrível facilidade para o drible e era inteligente como poucos, tomando, normalmente, as melhores decisões em suas jogadas.


Outro que muitas vezes atuou no ataque da equipe foi o centroavante Dick van Dijk, cria do Twente que representou os Godenzonen entre 1969 e 1972. Em geral, sua entrada no time representava o recuo de Cruyff ao meio-campo.

Por fim, havia Ele, o mais espetacular dos holandeses de todos os tempos, para muitos o melhor europeu da história. Ele que não era meia, nem centroavante, mas armava e fazia muitos gols; não era ponta, mas driblava, e nem volante, ainda que desarmasse. Se há alguém que personifica o que ficou conhecido como “Futebol Total”, esse responde pelo nome de Johan Cruyff. Maior referência técnica da equipe, era genial e genioso. Chamá-lo de “falso 9” pode nos aproximar da realidade. Contudo, ainda é pouco. O camisa 14 foi o melhor jogador de um time composto por jogadores brilhantes.

Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

Final da Copa dos Campeões de 1970/71: Ajax 2x0 Panathinaikos

Estádio Wembley, Londres

Árbitro: Jack Taylor

Público 83.179

Gols: ‘5 van Djik e ’87 Haan (Ajax)

Ajax: Stuy; Neeskens, Hulshoff, Vasovic, Suurbier; Rjinders (Blankenburg), G. Mühren, Cruyff; Swart (Haan), van Djik, Keizer. Téc.: Rinus Michels

Panathinaikos: Ikonomopoulos; Tomaras, Kapsis, Sourpis, Vlahos; Kamaras, Domazos, Eleftherakis; Grammos, Antoniadis, Filakouris. Téc.: Ferenc Puskas

Final da Copa dos Campeões de 1971/72: Ajax 2x0 Internazionale

Estádio De Kuip, Roterdã

Árbitro: Robert Héliès

Público 61.354

Gols: ’48 e ’77 Cruyff (Ajax)

Ajax: Stuy; Suurbier, Hulshoff, Blankenburg, Krol; Haan, Neeskens, Mühren; Swart, Cruyff, Keizer. Téc: Stefan Kovacs

Internazionale: Bordon; Bellugi, Burgnich, Giubertoni (Bertini), Facchetti; Oriali, Bedin; Jair (Pelizzaro), Mazzola, Frustalupi; Boninsegna. Téc.: Giovanni Invernizzi

Final do Intercontinental de 1972: Ajax 3x0 Independiente

Estádio Olímpico, Amsterdã

Árbitro: José Romei

Público 46.511

Gols: ’12 Neeskens, ’65 e ’80 Rep (Ajax)

Ajax: Stuy; Suurbier, Hulshoff, Blankenburg, Krol; Haan, Neeskens, Mühren; Swart (Rep), Cruyff, Keizer. Téc.: Stefan Kovacs

Independiente: Santoro; Commisso, López, Sá, Pavoni; Semenewicz, Pastoriza, Garisto (Magán); Balbuena, Maglioni, Mircoli (Bulla). Téc.: Roberto Ferreiro

Final da Copa dos Campeões de 1972/73: Ajax 1x0 Juventus

Estádio Marakana, Belgrado

Árbitro: Milivoje Gugulovic

Público 89.484

Gol: ‘4 Rep (Ajax)

Ajax: Stuy; Suurbier, Hulshoff, Blankenburg, Krol; Haan, Neeskens, Mühren; Rep, Cruyff, Keizer. Téc.: Stefan Kovacs

Juventus: Zoff; Marchetti, Morini, Salvadore, Longobucco; Causio (Cuccureddu), Furino, Capello, Bettega (Haller); Altafini e Anastasi. Téc.: Cestmir Vycpalek

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