sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Duplas históricas: Andrea Pirlo e Gennaro Gattuso

Após rememorar o brilho da dupla formada por Luizão e Edílson, sobretudo no Corinthians, lembro um duo de meio-campo que marcou época com as camisas do Milan e da Seleção Italiana, jogadores de estilos diferentes e que se complementavam com maestria: Andrea Pirlo e Gennaro Gattuso.



Um era sinônimo de técnica, visão de jogo, leitura perfeita do que acontecia à sua volta e brilhantismo nos passes e cobranças de bolas paradas; o outro de entrega, luta e raça, de inexistência de limites quando em busca de seu objetivo: recuperar a bola para sua equipe. Um era todo classe enquanto o outro se valia de desmedida dedicação.

Capaz de providenciar brilhante saída de bola para sua equipe, Andrea Pirlo foi um jogador fantástico durante quase toda sua carreira. Entretanto, quando chegou ao clube Rossonero ainda não detinha todo esse estatuto. Formado no modesto Brescia, o jogador despontou como um talentoso meia-atacante. Importante no acesso de seu clube à Serie A, na temporada 1996/97, disputou sua primeira campanha na primeira divisão italiana no ano seguinte e logo foi contratado pela Internazionale. Sim, caro leitor, pelo grande rival do Milan.

No entanto, seu tempo com a camisa Nerazzurri não foi propriamente produtivo. Entre empréstimos à Reggina e ao próprio Brescia, disfrutou de poucos minutos em campo no clube de Milão. Todavia, foi bem em ambas as cessões pelas quais passou e, mais do que isso, uma delas se provou fundamental para a sequência de sua carreira. Foi em seu retorno aos Rondinelle que Pirlo se transformou no segundo volante, ou construtor de jogo interior, que tanto o caracterizou nos anos que se seguiram.

Pelas mãos do treinador Carlo Mazzone, que possuía para a função de Pirlo ninguém menos que o craque veterano Roberto Baggio, Andrea foi inserido em uma nova realidade, que, comprovadamente, adequou-se muito melhor às suas características e habilidades do que aquela em que atuou nos primeiros anos de sua carreira. Deixou de ser trequartista e se transformou em regista. Foi assim que Il Metronomo bresciano chegou ao Milan, para a disputa da temporada 2001/02, contratado junto à Inter.

Logo em sua primeira temporada com a camisa Rossonera encontrou o técnico que mais marcaria sua trajetória e recolocaria o Milan entre os maiores clubes do mundo, Carlo Ancelotti. Antes do comandante, porém, Pirlo se encontrou com aquele que viria a ser seu fiel escudeiro durante muitos anos. Desde a temporada 1999/00, Gennaro Gattuso já integrava os quadros do Milan.

Cria do Perugia, clube que defendeu em poucas ocasiões, entre 1995 e 1997, Gattuso ganhou maior notoriedade quando vestiu a camisa do Rangers, da Escócia. Passada uma temporada e meia, o jovem volante, descontente com o fato de ter sido muitas vezes improvisado como lateral direito, retornou à Itália para representar o modesto Salernitana, então na primeira divisão italiana. Bastou meia temporada de qualidade e o rebaixamento de sua equipe para chamar a atenção do Milan.

A pegada, raça incontida, contagiante disposição e, é claro, qualidade para exercer a contenção começou a ficar famosa já na primeira temporada que Gattuso disputou com a camisa do Milan, tendo o jogador de plano atuado em muitas partidas. Foram 28 em sua estreia com a camisa rubro-negra de Milão.

Vale dizer que tanto Pirlo quanto Gattuso passaram por Seleções de Base da Itália e o primeiro encontro vitorioso da dupla aconteceu em 2000, quando, representando a Seleção Italiana Sub-21, os meio-campistas conquistaram o título europeu da categoria. Contando com a titularidade de ambos, a Squadra Azzurra liderou um grupo que contou com Eslováquia, Inglaterra e Turquia e, na partida final, bateu a República Tcheca, que tinha importante safra de jogadores, com nomes como Milan Baros e Marek Jankulowski. Os gols do título foram anotados por Pirlo, o artilheiro da competição, com três tentos, e melhor jogador do certame.

No Milan, raça e técnica voltaram a se encontrar e, unidas, fizeram de Gattuso e Pirlo uma dupla de meio-campistas memorável. Amigos fora de campo e parceiros nos limites das quatro linhas, entendiam como poucos a relação de complementaridade existente entre seus estilos. No contexto em que atuaram, é difícil imaginar que ambos conseguissem a notoriedade que alcançaram sem terem jogado juntos.

A despeito da presença de um grande número de craques para o meio-campo, o Milan nunca prescindiu de sua dupla italiana. Não poderia. Pirlo e Gattuso eram o coração da equipe. Foi assim que, durante 10 anos, contando com a parceria de jogadores da estirpe de Rui Costa, Clarence Seedorf, Rivaldo, Kaká, David Beckham e Ronaldinho Gaúcho como parceiros.

Assim, vieram conquistas, muitas. Juntos, os italianos venceram dois títulos italianos, uma Copa Itália, uma Supercopa Italiana, duas UEFA Champions League, duas Supercopas da UEFA e um Mundial de Clubes com a camisa milanista. Juntos, também viveram situações difíceis como a que ocorreu no “Milagre de Istambul”, quando perderam o título europeu para o Liverpool após abrirem três gols de vantagem. Juntos, viram, ainda, Kaká ser eleito o melhor jogador do mundo, coroando em uma pessoa o brilhantismo de um Milan histórico, e o principal: venceram uma Copa do Mundo.

As prévias do mundial de 2006 não indicavam grande favoritismo italiano. No entanto, como a história já contara, duvidar do potencial da Squadra Azzurra nunca é tarefa sábia. Então tricampeã mundial, a Itália chegou à Alemanha com um elenco muito experiente. Embora contasse com jogadores da qualidade de Alessandro Del Piero e Francesco Totti em seu elenco, coube ao setor defensivo brilhar.

Nas primeiras três partidas, em que enfrentaram Gana, EUA e República Tcheca, os italianos se saíram muito bem, com duas vitórias, um empate e apenas um tento sofrido. Foi de Pirlo o primeiro gol da equipe na competição. Gattuso só estreou como titular na terceira partida, com a suspensão de Daniele De Rossi. Não mais saiu.

Nos mata-matas, a Itália suou, mas nos acréscimos eliminou a Austrália, por 1x0; bateu com autoridade a Ucrânia, 3x0; superou a anfitriã Alemanha na prorrogação; e conquistou o título contra a França, nos pênaltis. Ao final, deixou a competição tendo sofrido dois gols apenas, fruto de um trabalho defensivo de inspiração raras vezes vista (que conduziu Fabio Cannavaro ao prêmio de melhor jogador do mundo da FIFA em 2006), e Pirlo foi eleito o melhor jogador da partida final. Mais uma vez, a dupla formada de meio-campo do Milan brilhou, tendo ambos integrado a seleção da competição.

Os anos passaram, contudo, e após 10 anos de parceria, o Milan, acreditando não valer a pena propor a Pirlo a renovação de seu contrato, o clube deixou que seu excepcional camisa 21 partisse, sem custos, para a rival Juventus, onde distribuiria mais uma penca de passes geniais e conquistaria o tetracampeonato italiano. Tardiamente, Adriano Galliani, CEO do clube, reconheceu que ter deixado seu astro sair da forma como aconteceu foi o maior erro de toda o seu período como gestor do Milan.

Gattuso ainda permaneceu no clube por mais uma temporada, mas, já não sendo tecnicamente o mesmo e tendo sofrido um problema de visão, após se chocar com Alessandro Nesta, viveu uma temporada de poucos jogos.

Durante 10 anos, Pirlo e Gattuso se complementaram como poucas duplas de meio-campistas o fizeram na história do futebol. Seus êxitos e performance foram notáveis e nem o fato de o primeiro ter partido para a rival Juventus é capaz de diminuir a belíssima história construída pela gana de um camisa 08, para o qual nunca existiu bola perdida, e um camisa 21, que nunca teve problemas para colocar a redonda onde quis.

Pirlo – Andrea Pirlo – 19 de maio de 1979

Carreira: Brescia (1995/1998; 2001), Internazionale (1998/2001), Reggina (1999/2000), Milan (2001/2011), Juventus (2011/2015) e New York City (2015-)

Títulos: Série B (1996/1997), Série A (2003/2004, 2010/2011, 2011/2012, 2012/2013, 2013/2014, 2014/2015), Copa Itália (2002/2003, 2014/2015), Supercopa Italiana (2004, 2012, 2013), UEFA Champions League (2002/2003, 2006/2007), Supercopa da UEFA (2003, 2007), Mundial de Clubes da FIFA (2007), Copa do Mundo (2006)

Gattuso – Gennaro Ivan Gattuso – 09 de janeiro de 1978

Carreira: Perugia (1995/1997), Rangers (1997/1998), Salernitana (1998/1999), Milan (1999/2012), Sion (2012/2013)

Títulos: Série A (2003/2004, 2010/2011), Copa Itália (2002/2003), Supercopa Italiana (2004, 2011), UEFA Champions League (2002/2003, 2006/2007), Supercopa da UEFA (2003, 2007), Mundial de Clubes da FIFA (2007)

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