quarta-feira, 15 de março de 2017

A afirmação de Adam Lallana sob a tutela de Jürgen Klopp

Quando Jürgen Klopp desembarcou em Liverpool, renovaram-se as esperanças de um renascimento em Anfield Road. O estilo de jogo que o treinador aplicara em seu período como comandante do Borussia Dortmund o credenciava ao posto de “redentor” dos Reds, há tanto tempo distantes do título inglês. Com pouco mais de uma temporada e meia no comando do clube, o técnico germânico ainda não conseguiu ser tão exitoso quanto o foi em seu período com os aurinegros; contudo, já deixa marcas positivas. A afirmação de Adam Lallana é, indiscutivelmente, uma delas.



Contratado junto ao Southampton para a disputa da temporada 2014/15, período em que o Liverpool ainda era treinado pelo norte-irlandês Brendan Rodgers, o atleta inglês tinha uma missão clara: precisava assumir protagonismo e ajudar jogadores como Philippe Coutinho e Daniel Sturridge a superar a saída de Luis Suárez para o Barcelona. Estrela maior dos Saints, Lallana custou € 31 milhões, tendo sido a contratação mais cara da equipe naquele momento, e criou enorme expectativa.

O espírito livre que seu jogo transparecia no tempo em que permaneceu tendo o St. Mary Stadium como casa, quando era protegido por jogadores com Morgan Schneiderlin e Victor Wanyama e contava com a parceria ofensiva de um saudável Jay Rodríguez, o credenciava a ocupar lugar fixo no onze inicial do Liverpool; a destreza com a bola nos pés, criatividade e inteligente movimentação também.

Em seu último ano no clube do sul da Inglaterra, o inglês havia criado cinco assistências (além de ter construído mais 63 ocasiões de gol), marcado nove gols, estado presente em todos os jogos do time na Premier League e carimbado seu passaporte para a Copa do Mundo de 2014; vivia momento especialmente brilhante.

“Adam [Lallana] está motivado para ser o melhor que puder e ser parte de algo especial. Acreditamos que ele se encaixa no que estamos tentando fazer no Liverpool. Nós vimos, nas últimas duas temporadas da Premier League, que ele tem consciência tática para se adaptar ao que lhe é requerido e para colocar o time acima de suas ambições pessoais. Ele tem liderança e qualidades pessoais que o tornam uma ‘mercadoria’ especial”, disse Brendan Rodgers na apresentação de Lallana ao Liverpool.

Apesar de tudo isso, em sua chegada a Anfield, Lallana não conseguiu se adaptar rapidamente; mostrava-se tímido, contido. Com o time distante da luta pelo título, Rodgers pressionado pela falta de bons resultados e as altas cifras despendidas em transferências, o jogador inglês se tornou apenas “mais um”. Seu desempenho caiu muito: apenas três assistências (29 ocasiões de gol criadas) e cinco gols marcados em sua primeira temporada no Liverpool.

No período, todavia, ganhou importância para a Seleção Inglesa, pela qual mostrava performance melhor, mantendo esperançoso o torcedor dos Reds. Sua situação começaria a mudar em meados da temporada 2015/16.

Novamente com uma sequência de resultados contestáveis e gastos exagerados (como os € 46,5 milhões investidos na contratação de Christian Benteke), o Liverpool demitiu Brendan Rodgers ainda no início da campanha mencionada e para seu lugar trouxe alguém mais que especial: Jürgen Klopp. Naquele momento, o mundo da bola pôde sentir que não havia ninguém melhor para o trabalho. Taticamente evoluído, de sangue quente e respostas inteligentes e afiadas, o alemão se encaixava com precisão nas necessidades do clube inglês.

Se, com Rodgers, Lallana ficava muito restrito à faixa do campo em que era escalado – seja pelo centro ou pelos flancos do meio-campo ofensivo – com Klopp, o inglês ganhou novo papel, campo para trabalhar e companheiros com quem dialogar. Em 2015/16, Lallana marcou apenas quatro tentos, mas voltou a ganhar criatividade: proveu seis assistências e construiu 43 oportunidades de gol para seus companheiros.

Aos poucos, o treinador alemão começou a moldar a ideia que só iria aperfeiçoar na atual temporada. Em seu pensar, o jogador inglês precisava poder expressar seu jogo, enxergar o campo com maior amplitude, ter a possibilidade de se apresentar para o mesmo, tabelar, chegar à área, marcar e assistir. Para tanto, não poderia ficar preso ao lado do campo, como um ponta puro, e, tampouco, em posicionamento cerebral, como meio-campista ofensivo; precisaria recuar, vir de trás.



Com as incorporações especiais de Georginio Wijnaldum e Sadio Mané, finalmente o Liverpool tem conseguido desfrutar da inteligência de Lallana, da consciência tática que Brendan Rodgers profetizou na chegada do inglês a Anfield Road.

Atuando na maior parte das vezes como meio-campista central, ao lado de Wijnaldum e de outra peça (Jordan Henderson ou Emre Can, habitualmente), com Mané e Coutinho trabalhando pelos flancos e Roberto Firmino como referência, Lallana tem lutado incansavelmente na pressão pedida por Klopp e, especialmente bem, na construção de jogadas. A bola passa constantemente por seus pés e sai deles costumeiramente limpa para que seus companheiros mais ofensivos possam buscar o caminho do gol. Lallana recebeu a confiança de Klopp e se converteu no catalisador da equipe.

“O que eu acho mais impressionante sobre essa notícia [renovação de contrato de Lallana] é que ele está apenas chegando ao seu melhor. Seus melhores anos estão pela frente e eles serão no Liverpool (...) Ele está em forma fantástica (...) Nossos jogadores jovens vão poder se beneficiar por vê-lo, escutá-lo e aprender com ele por um período ainda maior, porque ele se tornou o exemplo perfeito todos os dias”, disse Klopp após a última renovação de contrato do jogador, em fevereiro último.



A ferrenha crítica da imprensa inglesa se rendeu ao futebol de Adam e o tem apontado como o melhor jogador inglês no momento, tanto que o jogador recebeu o prêmio de Melhor Jogador Inglês do Ano de 2016. Na campanha de 2016/17, tem, até o momento, sete assistências, 23 ocasiões de gol criadas e sete gols marcados. Tais números ainda deixam de considerar a enorme quantidade de jogadas do clube que começam nos pés do jogador de 28 anos e terminam com assistência e gols de outros atletas.

Titular imprescindível ao Liverpool e à Seleção Inglesa, Lallana vive momento fantástico. Se muitas vezes falamos apenas no brilhantismo dos dribles e gols de figuras como Coutinho e Mané é porque em outras tantas não percebemos o excepcional trabalho de bastidores desempenhado pelo jogador bretão. Adam se tornou um jogador completo, que tem bons fundamentos, inteligência e não se cansa de correr pelo bem do coletivo.

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