quarta-feira, 8 de março de 2017

A singularidade do Tottenham de Pochettino

Embora o Chelsea se encontre isolado na liderança da Premier League da atual temporada, como poucas vezes se viu, há enorme equilíbrio entre os demais times que ocupam as seis primeiras colocações do certame. Com defesa extremamente sólida, marcação sufocante e jogadores talentosos, o Tottenham é o atual vice-líder, com méritos. Sem a contratação de nomes badalados, os Spurs vêm aperfeiçoando sua forma de jogar e os reflexos no campo são facilmente notados.



Ver o clube de White Hart Lane jogar o Campeonato Inglês é acompanhar o time com maior percentual de aproveitamento nos desarmes, ao lado de Chelsea e Southampton; e é, ao mesmo tempo, assistir o segundo time que mais oportunidades de gol cria na Premier League (são, até o momento, 352, sendo 35 delas assistências consumadas em gols). Ver o Tottenham atuar também nos permite vislumbrar um time que gere bem a posse de bola, apresentando média de 55% de posse e de 82% de aproveitamento de seus passes.

Dito isso, fica fácil perceber a forma como o treinador Mauricio Pochettino planeja seu jogo. De forma agressiva, avança suas linhas de marcação e dificulta a saída de bola de seus adversários. A partir de então, ou provoca erros, ou facilita a ocorrência de desarmes. Na sequência, trabalha bem a bola e costumeiramente só se desfaz dela no terço final do campo, criando ocasiões de gol para os atacantes da equipe.



Para tanto, conta com jogadores com todo tipo de características. Para a marcação mais bruta, dispõe de Eric Dier – que tem sido zagueiro – e Victor Wanyama; para controlar e gerir a posse de bola, Mousa Dembélé e Dele Alli (que ainda apresenta impressionante capacidade para infiltrar no ataque, atacar espaços e marcar gols); e para criar assistências, Christian Eriksen.

Ofensivos, os laterais Danny Rose e Kyle Walker também ajudam na pressão proposta, compondo com frequência a primeira linha de meio-campo da equipe. É preciso dizer que sequer falamos em outras peças como a do sul-coreano Heung-Min Son, que faz boa temporada, e dos excelentes zagueiros belgas Toby Alderweireld e Jan Vertonghen, beques que têm se mostrado intransponíveis.

Leia também: Por que Dele Alli é a maior esperança inglesa?

Assim, o artilheiro Harry Kane tem ficado à vontade para balançar as redes rivais – já são 19 tentos em 22 partidas. É claro: o goleador inglês também cria suas próprias alternativas e marca gols advindos pura e simplesmente de sua boa técnica, como foi o caso do belo chute que abriu o placar da última partida entre Tottenham e Everton.



O treinador Mauricio Pochettino conseguiu incutir em seus atletas um nível altíssimo de consciência de sua proposta de jogo. É por isso que muitas vezes, na mesma partida, é possível perceber os Spurs atuando com várias disposições táticas, desde o 3-4-2-1 até o 4-3-3, tudo de acordo com os diferentes momentos vividos durante os encontros e as respostas dadas por seus adversários.

Quando perguntado se seu jogo guarda semelhanças com o estilo de Jürgen Klopp, ainda em 2015, Pochettino foi claro ao definir o que pretende e atestar as diferenças entre sua forma de jogar e a do treinador alemão:

“É uma pressão diferente, se você analisar o Dortmund, não é semelhante à forma com a qual nós jogávamos no Southampton porque nossa pressão era alta, até o goleiro do adversário, mas o Dortmund joga com bloco médio (...) É verdade que nosso estilo é de pressão e velocidade, para mostrar proximidade no campo (...) Penso que temos um bom equilíbrio entre velocidade e posse de bola”, disse em entrevista coletiva às vésperas de partida contra o Liverpool, que marcou a estreia de Klopp no comando dos Reds.



É claro também que nem tudo são flores: o time não tem ido tão bem quando enfrenta seus principais concorrentes. Considerando os atuais seis primeiros colocados (Chelsea, Manchester City, Liverpool, Arsenal e Manchester United), tem apenas duas vitórias, contra City e Chelsea. A elas somam-se três empates contra Liverpool, Arsenal e Manchester City, e três derrotas contra Manchester United, Chelsea e Liverpool. Ou seja, um total de nove pontos conquistados de 24 possíveis; pouco para uma equipe que pretende ser campeã inglesa.

Além disso, em seu retorno à UEFA Champions League, o que não acontecia desde a temporada 2010/11, o clube foi muito mal. Dividindo grupo com Monaco, Bayer Leverkusen e CSKA, somou apenas duas vitórias em seis partidas, ambas contra a equipe russa, e viu franceses e alemães avançarem tranquilamente aos play-offs da competição continental. E o pior ainda estava por vir. Com a terceira posição no Grupo E da Champions, os Spurs herdaram vaga na Europa League. Todavia, não conseguiram superar os belgas do Gent e foram logo eliminados, perdendo fora de casa e empatando em Wembley.

Um fator que pode explicar a oscilação que o time vive na Premier League quando o assunto são os grandes jogos e, igualmente, quando defronta rivais internacionais é a juventude de seus destaques. O Tottenham tem a menor média de idade de toda a Premier League, apenas 25,1 anos, e não vê em seus destaques jogadores muito rodados e acostumados às conquistas. O trabalho que Pochettino (foto) faz com seus jovens é fantástico, mas como é de se esperar, não fica imune às questões que só a experiência e o tempo resolvem.

Seja como for, ao lado do líder Chelsea, o Tottenham é o time que menos perdeu na Premier League, com apenas três derrotas. Não obstante, é um dos que mais empata (8). Esse é o fator que mais diferencia líder e vice-líder quando nos deparamos com a tabela de classificação do Campeonato Inglês: os Blues são o time que menos empata na competição, desperdiçando poucos pontos.

A despeito de tudo isso, tem sido muito interessante acompanhar às partidas dos Spurs. A forma como, incansavelmente, buscam dificultar a saída de bola de seus adversários, trabalham o esférico quando em sua posse e criam grande número de jogadas é única, e permite grande número de discussões e debates.

Discípulo de Marcelo El Loco Bielsa, Mauricio Pochettino tem se mostrado um treinador de vanguarda, incorporando ideias de várias fontes, projetando e aperfeiçoando seu estilo próprio. Intenso, sob o comando do argentino, o Tottenham vai evoluindo temporada após temporada.

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