quarta-feira, 19 de abril de 2017

Entre potencial, talento e lesões: a dura carreira de Jack Wilshere

Envolvido na leitura de “11 Cidades”, livro do jornalista espanhol Axel Torres, deparei-me com a narrativa de uma viagem desse a Londres. Na ocasião, o catalão cobriria a final da Carling Cup de 2011, entre Arsenal e Birmingham. Em meio aos entrelaços que caracterizam os excepcionais serviços de metrô da capital inglesa, o autor pôde ler no jornal de uma senhora os seguintes dizeres: “Wilshere has it all… The brain of Brady, the drive of Vieira and the power of Petit” ¹. Comparava-se, ali, o talento do então jovem meio-campista Jack Wilshere com o de algumas das maiores lendas do Arsenal. Hoje, pensar essa realidade pode soar absurdo, mas, naquele momento, insensato era contestar o brilhante futuro que se apresentava para o meia.



Wilshere despontou no Arsenal como a grande esperança da meia-cancha Gunner. À época, fazia sua primeira temporada completa como atleta profissional (2010/11) e via de perto seu clube se despedir de seu maior craque e referência de então: Cesc Fàbregas, o capitão do time, deixava o clube em que se profissionalizara para retornar à casa em que vivera seus primeiros anos de destaque, o Barcelona. Esperava-se, então, que Wilshere assumisse as rédeas do meio-campo arsenalista e, como Cesc fizera anos antes, sucedendo Patrick Vieira, construísse uma trajetória de êxitos.

Com sólida passagem pelas equipes de base da Seleção Inglesa, demonstrações regulares de personalidade forte e técnica com a bola nos pés, Wilshere parecia destinado às glórias e grandes palcos; surgia como uma estrela capaz de substituir, brevemente, os lendários Steven Gerrard e Frank Lampard no English Team e mais: aparecia como um potencial capitão para seu clube e nação. Trilhado estava um caminho brilhante para o meio-campista oriundo da cidade de Stevenage.

No entanto, como já se viu em incontáveis ocasiões, o futebol é uma profissão traiçoeira. Tão bela quanto feia, que vive de lágrimas de alegria e tristeza. Ainda na pré-temporada da campanha de 2011/12, em que o torcedor dos Gunners se ressentia com o retorno de seu ídolo ao Barça e, ainda mais, com a conturbada saída de Samir Nasri para o Manchester City, perdendo os mais talentosos de seus meias de uma só vez, Wilshere viu sua sorte se esvair. Gravemente lesionado, perdeu todo aquele que seria o ano de sua afirmação.

Fora da temporada 2011/12, Jack perdeu também a oportunidade de representar a Grã-Bretanha nos Jogos Olímpicos de 2012 e, ademais, a Inglaterra, na Euro 2012. Aliás, convém mencionar que o meia estreara pela Seleção Inglesa principal no final de 2010, com apenas 18 anos. Mas, tudo bem. Lesões fazem parte da carreira de qualquer atleta e Wilshere conseguiria dar a volta por cima, correto? Em partes.

De volta às atividades ainda no início da temporada 2012/13, reestreou na 9ª rodada da Premier League, em vitória contra o Queens Park Rangers. Exceto por um pequeno problema na metade final do ano, tudo correu bem para Wilshere, que voltou a dar as demonstrações de sua força, tanto física quanto mental, e de bom futebol. Em 33 partidas, marcou dois gols e criou seis assistências. Retornou, além disso, à Seleção Inglesa (a ponto de fazer brilhante partida contra o Brasil, em vitória dos Three Lions, por 2x1).

A temporada que se seguiu parecia reafirmar que o jovem jogador se manteria em alta, cada vez mais consolidado no time titular do treinador Arsène Wenger, o que se confirmou. Cumprindo praticamente todos os papéis possíveis no meio-campo, por ambos os flancos, mais atrás e adiantado, foi bem. Todavia, em março de 2014, durante partida da Seleção Inglesa contra a Dinamarca, Wilshere voltou a se lesionar, sofrendo pequena fratura no pé esquerdo, a qual o tirou de decisivas seis semanas ao final da temporada. 

Novamente, ocorreu pequeno infortúnio, mas nada que demandasse drama, mesmo porque o jogador voltou aos campos ainda naquele ano e veio ao Brasil para a disputa da Copa do Mundo de 2014. Entretanto, voltou à Inglaterra com o peso de ter feito parte de mais uma empreitada fracassada do English Team em mundiais, após a eliminação ainda na fase de grupos, vendo a surpreendente Costa Rica avançar.

Veio 2014/15 e, novamente, não se notaram bons fluidos na carreira de Jack Wilshere. Embora tenha começado a temporada em forma, no dia 22 de novembro de 2014, em derrota para o rival Manchester United, o fantasma das lesões voltou a o assombrar - seu tornozelo foi a vítima. Foram longas 21 rodadas afastado dos campos da Premier League, o que, ademais, levou o inglês a ver, à distância, o Arsenal ser eliminado da UEFA Champions League. Não obstante, um gol marcado na última rodada do Campeonato Inglês poderia indicar a retomada de sua trajetória. Poderia.

É válido, porém, fazer um parêntese. No período que antecedeu sua lesão e no que a sucedeu, Wilshere brilhou com a camisa da Seleção Inglesa nas Eliminatórias para a Euro 2016. Nesse interregno, disputou oito partidas, das quais foi vencedor em sete oportunidades, empatando apenas uma e marcando dois importantes gols no triunfo contra a Eslováquia, por 3x2.



Digressão à parte, a chegada da temporada 2015/16 não pôs fim ao calvário de Jack, muito pelo contrário. 

Ainda na pré-temporada, o meia sofreu fratura na fíbula e perdeu a temporada quase completa. Sua estreia só ocorreu na 35ª rodada da Premier League, ocasião em que os Gunners já haviam sido eliminados da FA Cup, da League Cup e da UEFA Champions League. Em uma temporada completa, Wilshere só conseguiu atuar durante exíguos 141 minutos. Ao final de mais um ano marcado pela dor e tristeza, ficara ainda mais difícil acreditar que aquele extremo talento que despontou como esperança para substituir Cesc Fàbregas pudesse, sequer, ter relevante impacto no Arsenal.

Com o fim da campanha, todavia, premiado pelo que havia feito antes de voltar a se machucar, Wilshere foi convocado para a disputa da Euro 2016, mas não teve impacto algum em mais uma campanha abaixo das expectativas de seu país. Ausente na única vitória inglesa, disputou minutos dos empates contra Rússia e Eslováquia, na fase de grupos, e esteve em campo na eliminação para a Islândia.

Por fim, chegamos à presente temporada. Finalmente livre de lesões graves, Jack não recebeu garantias de utilização por parte de seu comandante e ainda viu o Arsenal contratar o talentoso meia suíço Granit Xhaka. Dessa forma, foi emprestado ao Bournemouth, mudança, em tese, boa para todos os envolvidos na negociação.

“Nós conversamos e ele estava preocupado que não conseguiria competição suficiente. Ele sente que está pronto para jogar [...] Eu não pude garantir isso, por isso a decisão que pensamos nos pareceu lógica, dando-lhe tempo para realmente retornar ao nível competitivo”, disse Arsène Wenger, em setembro de 2016.

Integrado aos Cherries, Wilshere vive hoje temporada instável, porém, livre do martírio das graves contusões. Conquanto não seja sempre titular, demonstrando em alguns momentos dificuldades para imprimir a dinâmica de jogo que tanto caracteriza seu estilo, o meia tem atuado e recebido elogios do treinador Eddie Howe. 

Em 2016/17, já disputou 29 partidas (duas pelo Arsenal) e conta com a “sorte” de jogar apenas a Premier League, uma vez que o Bournemouth não está em nenhuma competição continental e teve breve participação nas copas nacionais. Dessa forma, tem tido tempo para se recondicionar melhor e retomar a boa forma. Contudo, tal processo tem se dado de forma lenta, o que ocasionou, inclusive, a perda de espaço na Seleção Inglesa - desde a Euro 2016, o jogador não mais envergou o alvo manto de seu país, embora tenha sido chamado algumas vezes.

“Obviamente, Jack [Wilshere] não gosta de ficar no banco de reservas, ele gosta de jogar, mas, desde o jogo contra o Manchester United - ele sentiu o tornozelo contra o Manchester City -, o time tem ido muito bem [...] Temos competição nessa posição”, disse o treinador do Bournemouth ao Independent em 03 de abril de 2017.

Reserva em alguns turnos, determinante em outros, Jack Wilshere caminha no sentido certo para retomar sua carreira. No entanto, vê incerteza em seu horizonte. O Bournemouth gostaria de manter o meia, o Arsenal já manifestou intenção, ainda que não oficialmente, de o reintegrar e ainda existe a hipótese de o atleta, hoje com 25 anos, passar a representar outra equipe. Seu contrato com os Gunners vige até o final da próxima temporada.

Independentemente de seu destino, Wilshere só precisa de uma coisa: não se machucar. Talento, liderança e força de vontade para dar a volta por cima, já mostrou em várias ocasiões.

¹ “Wilshere tem tudo… A cabeça de Brady, o ímpeto de Vieira e a força de Petit” (TORRES, Axel. 11 Cidades: Para cada viagem, um só destino: o futebol. Campinas. Editora Grande Área: 2017. p. 84.)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...