sexta-feira, 7 de abril de 2017

Seleções de que Gostamos: Portugal 1966

Após lembrar os feitos da Seleção Francesa no período entre 1998 e 2001, trato da excelente Seleção Portuguesa dos anos 60, que, na Inglaterra, em 1966, conseguiu sua melhor participação na história das Copas do Mundo.


Em pé: Baptista, Jaime Graça, Hilário, Festa, José Carlos, José Pereira
Agachados: Augusto, Torres, Eusébio, Coluna, Simões


Seleção: Portugal

Período: 1966

Time Base: José Pereira; Morais (Festa), Baptista, Vicente, Hilário; Jaime Graça, Mario Coluna; José Augusto, Eusébio, Torres, Simões. Téc.: Otto Glória

Conquista: Terceiro lugar na Copa do Mundo de 1966

Os anos 60 são considerados os mais frutíferos e vitoriosos de toda a história do futebol português. Com o Benfica chegando a cinco finais da Copa dos Campeões da Europa e conquistando duas, o futebol luso estava em evidência. Além disso, o Sporting havia vencido um título da UEFA Cup Winner’s Cup, em 1964. Em resumo: o futebol europeu se rendia à qualidade de uma das maiores gerações de talentos lusitanos de toda a história.

Foi assim que, com um setor ofensivo baseado no sistema dos Encarnados e algumas adições pontuais de outras equipes, Portugal montou um time que fez bonito na Copa do Mundo de 1966 e consagrou a estrela de Eusébio, o artilheiro da competição. É também curioso pensar que, embora o Benfica fosse o clube português de maior sucesso à época, foi o Sporting, com oito atletas, o time que mais emplacou selecionáveis.

O caminho para a Inglaterra

Embora vivesse momento especial em sua história, Portugal falhara na missão de ir à Copa do Mundo de 1962 e, até então, jamais havia disputado um Mundial. Enquanto o Benfica se firmava como um dos mais vitoriosos times do Continente Europeu, a Seleção das Quinas não conseguia sair da sombra de outros países. Nas eliminatórias para a competição de 1962, Portugal ficou atrás da Inglaterra no Grupo 6 e não viajou ao Chile; tal situação não se repetiria em 1966.

Compartindo o Grupo 4 das Eliminatórias Europeias com Tchecoslováquia, Romênia e Turquia, Portugal dominou as ações e se classificou com méritos. Vitorioso contra os turcos em duas ocasiões (o que inclui uma goleada fantástica, por 5x1), vencedor de um dos dois encontros contra tchecos e romenos, o esquadrão só se viu subjugado na partida contra a Romênia fora de casa, tendo, ademais, empatado uma vez contra a seleção eslava. Com quatro vitórias, um empate e uma derrota, finalmente Portugal disputaria uma Copa do Mundo.


É importante notar que, embora tenha tido importante supremacia em seu grupo, a vida lusitana não foi fácil e muitos foram os placares magros na trajetória citada. Das quatro vitórias conquistadas, três foram pela vantagem mínima de um gol.

É curioso pensar que, àquela época, a Seleção Portuguesa possuía um Selecionador e um Treinador. O que isso quer dizer? Tal situação determinava que, a partir de 1964, a escolha dos jogadores que representariam os lusos cabia ao português Manuel da Luz Afonso e os treinamentos ao brasileiro Otto Glória (foto), ambos já tendo, então, uma longa trajetória de sucessos em suas carreiras.

Enquanto Luz Afonso vinha do Benfica, clube em que exercia a função de chefe do departamento de futebol, Glória trabalhara em Porto e Sporting CP simultaneamente às funções que exercia junto à Seleção das Quinas. A coexistência de ambos foi sempre respeitosa e pacífica.

Um Mundial quase perfeito

Após se preparar para a viagem à Inglaterra durante quase um mês em Vale do Lobo, no Algarve, recuperando os atletas após uma dura temporada em que os Leões somaram um ponto a mais que os Encarnados e levaram o caneco nacional para Alvalade, o esquadrão português estava pronto para brilhar e fazer uma Copa do Mundo dos sonhos.

Antes, foram também disputados três amistosos, todos vitoriosos, contra Escócia, Dinamarca e Uruguai. O caminho para o sucesso estava pavimentado. 

A estreia portuguesa colocou a talentosa equipe lusitana frente a frente com a forte e então afamada Seleção da Hungria que, se já não possuía os craques de outrora - Ferenc Puskas, Sándor Kocsis ou Zoltán Czibor - ainda contava com um selecionado forte. Em Old Trafford, campo do Manchester United, a Seleção das Quinas venceu seu primeiro encontro: 3x1, com dois gols de José Augusto e um de José Torres. Conta, ainda, a crônica da época, que esse encontro teve como outro protagonista o goleiro Carvalho, que, curiosamente, perderia posição.

Na sequência, os portugueses defrontaram a Seleção Búlgara; Teoricamente a partida menos difícil da fase de grupos, confirmou-se assim: 3x0 para Portugal, com gols de Eusébio e Simões - além de um tento contra. O jogo mais duro viria a seguir.

Contra o Brasil, selecionado que outrora fora colônia portuguesa e que já havia conquistado um lugar cativo na história do futebol mundial, com os títulos das Copas do Mundo de 1958 e 1962, era esperada muita dificuldade; do lado adversário estava ninguém menos que Pelé. No Goodison Park, no entanto, foi a estrela de Eusébio que brilhou, fundando o placar de 3x1, contra a Canarinho. O craque lusitano foi às redes duas vezes, vendo Simões completar o score; Rildo descontou para o escrete verde-amarelo.

É sempre válido ressaltar que, controvérsia à parte no que tange à intenção, Pelé foi atingido duramente pelo português Morais em fase inicial da partida e atuou sem as melhores condições durante o restante do encontro.

Jogo maluco, decepção e terceiro lugar

Assim, com 100% de aproveitamento, nove gols marcados em três encontros e apenas dois sofridos, Portugal avançou às quartas de finais. Na aludida fase, contudo, protagonizou uma das mais significativas histórias daquele Mundial. Tendo na surpreendente e desconhecida Coreia do Norte (que deixara a Itália de fora dos mata-matas) sua adversária, era difícil saber o que aguardava os portugueses.

Rapidamente, viu-se que os norte-coreanos não entraram em campo para brincar: com um minuto de partida a equipe asiática abriu o placar, o qual, passados 25 minutos, já registrava três bolas a zero contra Portugal. Se já era surpreendente ver a Coreia do Norte fazer 3x0 em uma equipe que passara por Hungria, Bulgária e Brasil com louvor, mais inesperada foi a reação da Seleção das Quinas. Eusébio obrigou o goleiro adversário a buscar quatro bolas do fundo de sua baliza, enquanto José Augusto deu números finais à ocasião: 5x3 para Portugal, que chegava à semifinal com enorme confiança para enfrentar a anfitriã.

Confira ainda: Seleções de que Gostamos: Inglaterra 1966

Em Wembley, todavia, Eusébio conheceu seu algoz: Nobby Stiles. Tal qual uma sombra, o volante inglês perseguiu o craque lusitano por todo o campo, anulando-o. Sem a magia de seu maior ícone, Portugal viu o brilho de outro craque se acender: Sir Bobby Charlton, autor de dois gols que puseram fim ao sonho português - Eusébio ainda descontou, de pênalti.

Como consolo, sobrou para a equipe a disputa pelo terceiro lugar do certame. Contra a URSS, a vida de Portugal não foi fácil. Marcados pelo cansaço da partida contra o English Team, Eusébio e seus companheiros tiveram que lutar muito para vencer o time soviético. Embora tenha aberto o placar ainda muito cedo, a Seleção sofreu o empate no final do primeiro tempo e só foi assegurar o terceiro posto no final da partida, pelos pés de José Torres.

Se o título não veio, a primeira participação de Portugal em Mundiais, ainda hoje a mais afortunada de toda sua história, foi brilhante, consagrou um time composto por jogadores que já haviam obtido êxitos representativos por seus clubes e, como não poderia ser diferente, o artilheiro do certame: Eusébio, com nove gols.

O poderoso time de dois comandantes

A defesa da meta portuguesa, curiosamente, ficou a cargo do jogador mais experiente dentre os selecionados – e ele não vinha de Benfica, Sporting ou Porto, mas do tradicional Belenenses. Após ver Carvalho, arqueiro sportinguista, brilhar na estreia, José Pereira retomou seu posto de titular, mantendo-se nessa condição durante todo o Mundial. Justo: a classificação portuguesa para o mundial passara por uma fundamental defesa penal nas eliminatórias, contra a Tchecoslováquia, em Bratislava. Aos 34 anos, o Pássaro Azul foi importante referência para o restante da equipe, contudo falhou no jogo decisivo contra a Inglaterra. Pereira totalizou 11 partidas, apenas, pela Seleção das Quinas.

À direita da defesa portuguesa, dois atletas de características distintas se revezaram durante a Copa do Mundo. Improvisado, o polivalente João Morais, originalmente um talentoso ponta-esquerda, foi usado pela lateral direita em três partidas, contra Hungria, Brasil (partida em que teve, dentre outras, a missão de parar Pelé) e Coreia do Norte. Nos demais encontros, a titularidade coube ao portista Alberto Festa, especialista da função, mais disciplinado que Morais, porém menos talentoso com a bola nos pés.

Pelo outro lado, o domínio foi absoluto de Hilário Conceição. Referência do Sporting à época (é o jogador com maior número de partidas oficiais pelos Leões, com 471), era um lateral esquerdo talentoso, dotado de muita técnica e velocidade, tendo no chute potente, ainda, uma de suas marcas registradas. Ao final da Copa do Mundo, foi eleito o melhor jogador de sua posição no Mundial.

O miolo de zaga contou com a titularidade absoluta de um jogador: Alexandre Baptista, outro atleta do alviverde lisboeta. Lembrado pela conjugação de virilidade, com muita capacidade física, e técnica na saída de bola. É outro jogador que ainda é muito lembrado em Alvalade, como um dos maiores da história leonina. Em alguns turnos, foi acompanhado por Vicente Lucas, outro atleta do Belenenses. Como Baptista, era lembrado por sua capacidade técnica, além de ter senso de posicionamento acima da média e capacidade exemplar para antever jogadas. Durante sua carreira, inclusive atuou em posições mais avançadas.

A despeito disso, lesionado, viu José Carlos, companheiro de Baptista no Sporting e defensor mais duro, terminar a Copa do Mundo e há quem diga que, tivesse Vicente estado em campo, Portugal poderia ter um Mundial em sua história.

No meio-campo, vindo do Vitória de Setúbal e futuro jogador do Benfica, Jaime Graça era um dos pilares da equipe. Destaque dos Sadinos no vice-campeonato da Taça de Portugal de 1965/66, ganhou um lugar na meia-cancha lusitana. Segundo Simões, seu companheiro na Seleção e no Benfica: “era um número 8 fantástico (...) foi o primeiro jogador na história do futebol português a fazer aquilo a que agora se chama box-to-box”, relatou ao Público

No entanto, o patrão do meio português era Mário Coluna (foto). Atleta vindo do Benfica, o Monstro Sagrado foi o encarregado de portar a faixa de capitão do selecionado e era nessa condição que se comportava no campo. Com elegância, precisão nos passes e leitura perfeita do jogo, sobressaía-se; não parecia estar no mesmo patamar da maioria dos demais jogadores, era sublime. É outro atleta português que integrou a Seleção da Copa do Mundo.

À frente da dupla de meio-campistas lusitana, foram alinhados quatro atacantes, todos benfiquistas. Pela extrema-direita, a referência era José Augusto. Recordado por suas fintas, rapidez e especial talento para os arremates de cabeça, marcou importantes três gols durante o Mundial de 1966. Por sua vez, o flanco esquerdo era ocupado por António Simões. Diz-se que se fosse possível descrever um jogador por uma de suas características, o ponta seria o drible, por sua destreza, empáfia e poder de decisão.
 
Centralizado, como referência ofensiva, José Torres, o Bom Gigante, era um típico e bom centroavante. Com 1,91m, vencia a suprema maioria dos embates aéreos e marcava muitos gols nessa condição. Entretanto, não era só pelo ar que se destacava, tendo nos pés também ótima capacidade de finalização. Como Augusto, balançou as redes três vezes na Inglaterra.

Completando o esquadrão português, estava o maior de todos, aquele que para muitos nunca perderá o posto de maior craque lusitano de todos os tempos: Eusébio (foto), o Pantera Negra. Circulando por todo o setor ofensivo do time, o atacante era uma máquina; fazia gols, driblava, ofertava fintas e distribuía grandes passes; era imparável, conjugava o máximo dos aspectos físicos com distinta técnica. Na Inglaterra, viu-se o melhor desse jogador lendário, que foi, ademais, o artilheiro do certame, com nove gols.

Ficha técnica de alguns jogos importantes no período:

Grupo 3 da Copa do Mundo de 1966: Portugal 3x1 Brasil

Estádio Goodison Park, Liverpool

Árbitro: George McCabe

Público 62.000

Gols: ’15 Simões, ’27 e ’85 Eusébio (Portugal); ’70 Rildo (Brasil)

Portugal: José Pereira; Morais, Baptista, Vicente, Hilário; Jaime Graça, Mario Coluna; José Augusto, Eusébio, Torres, Simões. Téc.: Otto Glória

Brasil: Manga; Fidélis, Brito, Orlando, Rildo; Lima, Denílson; Jairzinho, Silva, Pelé e Paraná. Téc.: Vicente Feola

Quartas de finais da Copa do Mundo de 1966: Portugal 5x3 Coreia do Norte

Estádio Goodison Park, Liverpool

Árbitro: Menachen Ashkenazi

Público 40.248

Gols: ’27, ’43, ’56, ’59 Eusébio e ’80 Augusto (Portugal); ‘1 Pak Seung-Zin, ’22 Lee Dong-Woon e’25 Yang Seung-Kook (Coreia do Norte)

Portugal: José Pereira; Morais, Baptista, Vicente, Hilário; Jaime Graça, Mário Coluna; José Augusto, Eusébio, Torres, Simões. Téc.: Otto Glória

Coreia do Norte: Lee Chan-Myung; Ha Jung-Won, Lim Zoong-Sun, Shin Yung-Kyoo, Oh Yoon-Kyung; Im Seung-Hwi, Pak Doo-Ik; Pak Seung-Zin, Han Bong-Zin, Yan Seung-Kook e Lee Dong-Woon. Téc.: Myung Rye-Hyun

Semifinais da Copa do Mundo de 1966: Inglaterra 2x1 Portugal

Estádio Wembley, Londres

Árbitro: Pierre Schwinte

Público 94.000

Gols: ’30 e ’80 Bobby Charlton (Inglaterra); ’82 Eusébio (Portugal)

Inglaterra: Banks; Cohen, Charlton, Moore, Wilson; Ball, Stiles, Charlton, Peters; Hurst e Hunt. Téc.: Alf Ramsey

Portugal: José Pereira; Festa, Baptista, José Carlos, Hilário; Graça, Coluna; José Augusto, Eusébio, Torres e Simões.

Disputa do Terceiro Lugar da Copa do Mundo de 1966: Portugal 2x1 URSS

Estádio Wembley, Londres

Árbitro: Ken Dangnall

Público 87.000

Gols: ’12 Eusébio e ’89 Torres (Portugal); ’43 Malofeev (URSS)

Portugal: José Pereira; Festa, Baptista, José Carlos, Hilário; Jaime Graça, Mario Coluna; José Augusto, Eusébio, Torres e Simões. Téc.: Otto Glória

URSS: Yashin; Ponomarev, Khurtsilava, Komeev, Danilov; Voronin, Sichinava; Metreveli, Malofeev, Banishevsky e Serebrjannikov. Téc.: Nikolai Morozov 

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