quarta-feira, 3 de maio de 2017

Duplas históricas: Roy Keane e Paul Scholes

No último texto da coluna, trouxe à memória a excelente dupla de meio-campo formada por Patrick Vieira e Gilberto Silva, no Arsenal. Neste, continuo na Inglaterra e volto a falar sobre uma parceria da meia-cancha, mas, desta vez, vinda do Manchester United: trato da força e liderança do irlandês Roy Keane e da competitividade e perícia nos passes do ruivo Paul Scholes.



É difícil imaginar a existência de uma equipe de sucesso que não tenha contado com um meio-campo equilibrado: combativo e criativo, forte e rápido, com espaço para o drible, o desarme e o passe. O Manchester United que Sir Alex Ferguson começou a montar no início dos anos 90 tinha todos esses componentes. Pelos lados, contava com a genialidade de Ryan Giggs e a elegância de David Beckham, mas era na faixa mais central que estava concentrada a estabilidade de toda a equipe.

Postado como um cão de guarda, forte, destemido, bravo e viril (às vezes violento), o irlandês Roy Keane representava o coração do time. Foi durante muito tempo capitão de uma esquadra que nunca aceitou a derrota, mesmo quando ela parecia evidente. Seu trabalho, não obstante, foi sempre mais fácil quando teve a seu lado a figura de um jogador que não se cansava de correr, ofertar passes de impressionante precisão e organizar a equipe: Paul Scholes.

Ambos foram lapidados por Ferguson, o grande responsável pela transformação histórica por que passaram os Red Devils.

Keane desembarcou em Old Trafford em 1993, aos 22 anos. Havia, naquela instância, destacado-se enormemente com a camisa do Nottingham Forest e, desde 1991, representava as cores de seu país. Embora não tenha sido criado no clube, encarnou como poucos o seu espírito.

O eterno camisa 16, a despeito de ter sido muitas vezes protagonista de polêmicas, nunca se incomodou com o fato de ter que correr, marcar, dar carrinhos e, verdadeiramente, carregar o piano para que as estrelas mais ofensivas pudessem brilhar. Ao todo, foram 12 anos representando o lado vermelho mancuniano.

“Ele [Keane] era o treinador dentro do campo [...] Se você fizesse algo errado, sabia disso. Ele tentava obter o melhor de cada um para conseguir o resultado para seu time [...] Todos os que jogaram com Roy sabiam o quão bom ele era, ele era alguém em quem você podia confiar”, disse Paul Scholes em entrevista concedida ao programa Off the Ball, em 2015.

Por outro lado, Scholes foi formado no clube e integrou a famosa Class of 92. Era, então, o motor da equipe, a figura que proporcionava suas ligações, aquela engrenagem que permitia a conexão entre meias e atacantes, sempre consciente de que, quando atacado, precisava retomar sua posição no meio-campo e ajudar na recuperação da bola.



Se o futebol inglês é mundialmente conhecido como um bom lar para grandes passadores, especialmente para aqueles mais afeitos aos toques de longa distância, assim o é em função da presença de alguns expoentes, dentre os quais Scholes é um dos mais marcantes em todos os tempos. Todavia, ser tecnicamente diferenciado não significava que o meia não fosse combativo e competitivo, muito pelo contrário. 

Poucas vezes, o futebol inglês se viu diante de uma parceria tão completa de meio-campistas centrais quanto quando pôde acompanhar as estrelas de Keane e Scholes. 

“Nada de celebridade, nada de autopromoção - [Scholes era] um jogador incrivelmente talentoso que permaneceu um ser humano não afetado [pela fama]”, disse Keane sobre Scholes, em reportagem veiculada pelo Telegraph

Scholes estreou pelo time profissional do Manchester United em 1994 e, junto a Keane, conquistou tudo o que era possível. No período entre 1994 e 2005, venceram seis vezes a Premier League, três a FA Cup, uma a UEFA Champions League, quatro a Community Shield e uma o Intercontinental. Em particular, é de vital importância ressaltar os feitos alcançados em 1999.

O aludido ano ficou eternizado por toda a história dos Red Devils. Nele, o clube conquistou nada menos do que quatro títulos. Na Premier League, somou um ponto a mais do que o rival Arsenal; na FA Cup foi superior ao Newcastle, de Alan Shearer; e, ao final, na disputa do Intercontinental venceu o Palmeiras, no Japão. Espere aí: como o Manchester United obteve acesso a esta última disputa? Por meio de um dos títulos mais incríveis de toda a história da UEFA Champions League.

Após superar Internazionale e Juventus, nas quartas e semifinais do certame, o clube mancuniano se viu frente a frente com o Bayern de Munique, o time que, na fase inicial, havia impedido os ingleses de terminarem com a primeira colocação do Grupo D.

E o curioso é que, na batalha contra a Vecchia Signora, tanto Scholes quanto Keane receberam cartões amarelos e ficaram suspensos da final. Eventual derrota seria um castigo imenso para a dupla que tanta consistência havia assegurado à equipe durante toda a campanha.

Contudo, parecia que esse seria o veredito da final, quando Mario Basler abriu o placar para os bávaros aos seis minutos, marcando o gol que permaneceu solitário até os acréscimos da partida.

Vieram, pois, dois escanteios e dois iluminados brilharam. Do banco de reservas saíram Teddy Sheringham e Ole Gunnar Solskjaer, que transformaram os corners cobrados por Beckham em puro êxtase. Na comemoração reapareceram dois dos maiores merecedores daquela glória: Keane e Scholes.

Em 2005, Keane deixou o clube para firmar pelo Celtic, clube em que atuou por pouco tempo, pendurando as chuteiras após o final da temporada de 2005/06. Ao todo, representou os Red Devils 480 vezes, sendo o 12º que mais o fez em todos os tempos.

A seu tempo, Scholes só representou as cores do Manchester United em sua carreira, a qual terminou em 2013, após várias outras conquistas, dentre as quais se destaca mais uma UEFA Champions League, em 2008/09. Em seu caso, vale destacar dois poréns, contudo.

Em 2005/06, o jogador passou a conviver com um problema de visão que ameaçou a continuidade de sua trajetória. Superado, entretanto, esse revés, continuou. Além disso, em 2011 chegou a se aposentar, mas logo no início de 2012 retornou, uma vez que o clube passava por um período complicado, com grande parte de seus meio-campistas lesionados.

Ao final definitivo de sua carreira, encerrou-a alcançando a terceira posição no ranking dos que mais vestiram o vermelho de Manchester, com 718 jogos.



Keane - Roy Maurice Keane - 10 de agosto de 1971

Carreira: Cobh Ramblers (1989/1990), Notthingham Forest (1990/1993), Manchester United (1993/2005), Celtic (2005/2006)

Títulos: Full Members Cup (1992), Premier League (1993/94, 1995/96, 1996/97, 1998/99, 1999/00, 2000/01, 2002/03), Community Shield (1993, 1996, 1997, 2003), FA Cup (1993/94, 1995/96, 1998/99, 2003/04), UEFA Champions League (1998/99), Intercontinental Cup (1999), Scottish Premier League (2005/06), Scottish League Cup (2005/06)

Scholes - Paul Scholes - 16 de novembro de 1974

Carreira: Manchester United (1994/2013)

Títulos: Premier League (1993/94, 1995/96, 1996/97, 1998/99, 1999/00, 2000/01, 2002/03, 2006/07, 2007/08, 2008/09, 2010/11, 2012/13), FA Cup (1993/94, 1995/96, 1998/99, 2003/04), League Cup (2008/09, 2009/10), Community Shield (1996, 1997, 2003, 2008, 2010), UEFA Champions League (1998/99, 2007/08), Intercontinental Cup (1999), Mundial de Clubes (2008)

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