segunda-feira, 12 de junho de 2017

Solanke é protagonista de uma história que se repete

Destaque maior da Seleção Inglesa Sub-20 que acaba de conquistar o Mundial da categoria, o atacante Dominic Solanke representará as cores do Liverpool na próxima temporada. Cria do Chelsea, o jogador optou por se mudar para um clube que tem utilizado jovens com maior frequência. A expectativa de ser treinado por Jürgen Klopp, comandante que revelou, por exemplo, Mario Götze, e fez amadurecer Mats Hummels e Robert Lewandowski, certamente, teve grande peso na escolha, mas é o modo como os Blues têm trabalhado que mais pesa.



É difícil a compreensão do fenômeno vivido pelo Chelsea. Sua categoria de base tem sido extremamente vitoriosa e, mesmo assim, o clube se recusa a, paulatinamente, utilizar seus prospectos.

Para que se tenha uma ideia clara do que se diz, nos últimos anos, os londrinos venceram a UEFA Youth League duas vezes (2015 e 2016) e a FA Youth Cup em cinco oportunidades (2012, 2014, 2015, 2016 e 2017). Mesmo assim, apenas quatro atletas formados na Chelsea Academy fizeram parte do elenco de Antonio Conte na vitoriosa campanha de 2016/17 (e com pouquíssimas oportunidades): Nathan Aké, Ola Aina, Ruben Loftus-Cheek e Nathaniel Chalobah.

Não existe dúvida quanto à qualidade do trabalho de base desenvolvido pelo clube. No entanto, a falta de perspectivas profissionais para os jovens formados é um problema a ser administrado. Bons valores, como o próprio Solanke, têm preferido se mudar, arriscando-se em outras equipes, até mesmo na segunda divisão. Foi esse o caso, por exemplo, do meia John Swift, da Seleção Inglesa Sub-21. Ao final de seu contrato com o Chelsea, partiu para o Reading, time em que conquistou a titularidade e fez ótimo ano.

“Eu poderia ter permanecido no Chelsea, mas não queria ser emprestado novamente. Eu queria assinar por um clube e fazer o melhor para mim mesmo”, disse Swift em meados de maio ao Mirror.

O caso de Swift é sintomático. Há vários jogadores do clube londrino se destacando, tanto nas categorias de base quando em empréstimos, mas as chances no time principal raramente aparecem.

Hoje, na Seleção Inglesa Sub-21 o Chelsea emplaca nomes como o citado Chalobah, Lewis Baker (que fez excelente temporada em 2016/17 com a camisa do Vitesse) e o goleador Tammy Abraham, autor de 23 gols no último ano, em que esteve emprestado ao Bristol City. Já o time campeão Sub-20 contou com as presenças de Fikayo Tomori, Jake Clarke-Salter e Solanke. É pouco?



Diante disso, não há como não compreender a opção de Solanke por uma mudança para Anfield Road. É bom que se diga que não é só o Chelsea que aposta pouco nos formados em suas categorias de base, mas seu exemplo é o mais impressionante diante do excepcional desempenho recente nas competições que tem disputado.

No Liverpool, o vice-artilheiro e melhor jogador do Mundial Sub-20, tem ao menos a promessa de utilização ocasional. Na última temporada, Jürgen Klopp lançou os jovens Bem Woodburn (de 17 anos) e Trent Alexander-Arnold (18). Deu também alguns minutos a jogadores como Marko Grujic e Kevin Stewart. Não é muito, é verdade. Mas a fartura de talento que encontrada nos Blues não se faz presente nos Reds.

Solanke, ressalte-se, chegou a passar uma temporada emprestado. Foi em 2015/16. Na ocasião, representou as cores do Vitesse e não fez mau papel. Em 25 partidas, marcou sete vezes. Isso, com 17 para 18 anos. Mesmo assim, não conseguiu espaço no elenco londrino. Nem mesmo em partidas das Copas Inglesas. O atacante deixa o clube com apenas uma partida, ou 17 minutos, disputados como profissional do Chelsea. Na oportunidade, goleada sobre o Maribor na UEFA Champions League de 2014/15, o eterno John Terry chegou a profetizar:

“Isso cria um precedente para os jogadores jovens, que agora acreditam que podem conseguir uma oportunidade se forem suficientemente bons e trabalharem duro. [...] Não é bom apenas para Dom [Solanke], o efeito que isso terá sobre a base será excelente”, disse em entrevista coletiva.

Por mais orgulhoso que estivesse ao ver uma cria do clube, como ele próprio foi, despontar, John Terry estava errado. As chances para os jovens continuaram escassas em Stamford Bridge, por mais que a qualidade, comprovada com troféus, convocações e bom desempenho, estivesse lá.

O próprio Solanke é confirmação disso. Representando os escalões sub-18, 19 e 21 do Chelsea marcou 65 gols em 83 jogos, números extremamente significativos. Vale dizer, ainda, que o atacante não é um goleador sem recursos técnicos. Pelo contrário. É rápido, movimenta-se com inteligência, tem qualidade nas finalizações e sabe driblar. Por isso, já foi utilizado em algumas oportunidades mais longe do gol, pelas pontas ou como segundo atacante.

Em 2016/17, ficou escanteado pelo clube. A questão central foi sua recusa em renovar seu contrato. Diante dessa realidade, fica o questionamento: Solanke estava errado por querer deixar um clube que vai reafirmando, ano após ano, a fama de que produz muito e com qualidade, mas aproveita pouco seus jovens? Atualmente, o atacante inglês é apenas o protagonista de uma história que já teve vários outros.

No passado recente, foi assim também com jogadores jovens, de enorme potencial, contratados como esperanças para o futuro. São exemplos os casos de Kevin De Bruyne e Romelu Lukaku e, indo mais longe, de Nemanja Matic, que acabou sendo recomprado posteriormente. Na temporada 2016/17, o Chelsea emprestou nada menos do que 38 atletas, conforme noticiou o Guardian. Ótimo na formação e desenvolvimento de jogadores, mas ruim em seu aproveitamento e transição ao futebol profissional de alto nível, o clube londrino vê mais um destaque deixar Stamford Bridge; vive a repetição de sua história recente.

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