sexta-feira, 28 de julho de 2017

A epopeia europeia do Dynamo Kyiv de Shevchenko e Lobanovskyi

Um dos centroavantes mais prolíficos da história recente do futebol, lembrado mundo afora sobretudo por sua passagem pelo Milan, Andriy Shevchenko deve muito de sua carreira ao Dynamo Kyiv, em que deu seus primeiros passos como futebolista profissional. No clube da capital ucraniana, reinou em solo doméstico e chegou perto de ganhar a maior notoriedade que poderia em nível continental. Isso tudo sob o comando do mais importante de todos os treinadores da história do futebol do país: Valeriy Lobanovskyi.


Ainda que tenha sido ex-jogador de talento indiscutível, o comandante tem lugar cativo na eternidade pelo que fez fora das quatro linhas. Paralelamente ao que aconteceu na Holanda nos anos 70, Lobanovskyi construiu, à sua maneira, um time de futebol disciplinado, adepto da marcação pressão e possuídor de destacável consciência coletiva — nada muito distinto do que desenvolveu Rinus Michels à frente do Ajax. Dessa forma, colocou o clube ucraíno na história, com conquistas nacionais e internacionais e desenvolvendo o talento de Oleh Blokhin.

No fim de sua trajetória e vida, voltou, pela quarta vez (a terceira como treinador), à equipe. As duas anteriores haviam sido notáveis e vitoriosas, mas já não remanescia nenhum de seus antigos comandados e o clube vivia momentos de tensão fora das quatro linhas. O Dynamo havia sido suspenso por três temporadas das competições da UEFA. Supostamente, tentara subornar o árbitro espanhol Antonio Lopez Nieto, antes de uma partida de UEFA Champions League, em 1995 contra o Panathinaikos. A punição foi posteriormente revista e o clube perdeu, apenas, a disputa da competição na própria temporada 1995/96.

Lobanovskyi retornou em 1997 e, rapidamente, levou o clube a feitos incríveis. Conduzindo uma safra de jovens de enorme talento, equilibrada pela experiência de outras peças, fez com que os ucranianos voltassem a ser temidos. Nesse sentido, a maior de suas estrelas era ninguém menos que Shevchenko, um garoto que chegara aos profissionais do Dynamo em 1994 e, desde a temporada 1995/96, empilhava gols pela equipe e chamava atenção, tanto que logo se tornou selecionável.

Em 1997/98, o clube da capital ucraína disputou a UEFA Champions League e fez papel honroso. Após despachar o modesto Barry Town, do País de Gales, e passar apertado pelos dinamarqueses do Brondby, chegou à disputa da fase de grupos e superou um desafio impressionante. Azarão no Grupo C, deixou Barcelona, Newcastle United e PSV Eindhoven comendo poeira e avançou. Só perdeu uma vez, para a equipe inglesa e fora de casa. Por outro lado, soterrou os catalães em duas oportunidades, vitória por 3 a 0 em casa e massacre de 4 a 0, em pleno Camp Nou, com hat-trick de Sheva.

No entanto, os feitos mais incríveis da equipe ficaram para a temporada seguinte, uma vez que, embora tenha avançado às quartas de finais, parou na Juventus, que havia sido vice-campeã e o seria novamente, perdendo para o Real Madrid.

Com o tetracampeonato ucraniano, o Dynamo voltou à UEFA Champions League em 1998/99. Novamente, o clube de Lobanovskyi demoliu o pequeno Barry Town e passou dificuldades na fase que se seguiu, eliminando o Sparta Praha nos pênaltis. Assim, chegou ao Grupo E, o qual compartiu com Lens, Arsenal e Panathinaikos, avançando com louvor (apenas uma derrota, para o Panathinaikos).

Novamente comandado pelos gols de Shevchenko (e de Serhiy Rebrov), o clube chegou às quartas de finais, mas dessa vez as superou. O rival foi ninguém menos que o Real Madrid, o campeão da edição anterior e que alinhava figuras como Roberto Carlos, Fernando Hierro, Fernando Redondo, Clarence Seedorf e Raúl em sua esquadra. Do lado ucraniano, todavia, estava a presença marcante e fundamental de Sheva.



Na partida de ida, os madrilenos abusaram de perder gols; Guti isolou chute após boa trama, Fernando Morientes parou em Oleksandr Shovkovskiy e Raúl cabeceou bola perigosa. Os ucranianos também deram trabalho ao goleiro alemão Bodo Ilgner, em chutes de fora da área. Porém, foi de uma jogada curiosa que saiu o primeiro tento da partida. Shovkovskiy bateu o tiro de meta, a bola foi escorada no meio do caminho e Shevchenko ganhou campo para avançar e balançar as redes — era o prenúncio do que viria a seguir. De falta, Predrag Mijatović ainda empatou, nada que tenha impedido o time de brilhar na partida de volta.

Em Kiev, um contragolpe velocíssimo só foi parado quando Ilgner puxou Sheva pelas pernas: pênalti cobrado pelo próprio ofendido e defendido pelo arqueiro germânico. No rebote, contudo, o goleador não perdoou. Já o segundo gol... Foi uma verdadeira pintura, a perfeita execução do que Lobanovskyi sempre enxergou como seu ideal de jogo. A bola foi recuperada na defesa, gerida com cuidado, paciência e movimentação constante do time, para que a oportunidade fosse criada. Shevchenko deu o passe à frente, avançou, recebeu a bola novamente, tabelou e foi colocado de frente para Ilgner, que nada pôde fazer. O Dynamo estava nas semifinais.

Quis o destino, novamente, que os ucranianos enfrentassem a equipe que seria vice-campeã, dessa vez o Bayern de Munique. Apesar da derrota, 4 a 3, no placar agregado, o surpreendente time de Lobanovskyi não deu vida fácil aos bávaros, que tiveram que se superar. Na capital ucraína, Shevchenko colocou o Dynano em vantagem por dois gols. Primeiro, foi lançado em velocidade, superou a defesa alemã e tocou na saída de Oliver Kahn. A seguir, cobrou falta que não desviou em ninguém e balançou as redes. Também de falta, Michael Tarnat diminuiu para o Bayern, que foi para o vestiário com desvantagem de um gol no intervalo.



Na volta, pouco após o desperdício de chance clara, com o gol aberto, o Dynamo chegou ao terceiro tento, marcado por Vitaliy Kosovskyi. No entanto, a persistência alemã se fez presente. Ignorando o fato de que os donos da casa eram mais perigosos, Stefan Effenberg marcou de falta e Carsten Jancker, livrando-se de seu marcador dentro da área ucraniana, deu números finais ao encontro: 3 a 3. No segundo, Kahn parou os visitantes e Mario Basler, em belíssima jogada — deixando dois marcadores para trás e finalizando com maestria de fora da área — marcou o solitário tento que colocou os alemães na final.

“Não chorei após a partida, mas meu desapontamento foi profundo. (...) Ainda estou certo de que o Dynamo era mais forte naquela temporada; os alemães, basicamente, tiraram três gols do nada”, afirmou Kosovskiy, em 2009, ao site oficial da UEFA.



Após essa temporada, Sheva, o artilheiro da competição com oito gols (ao lado de Dwight Yorke, do campeão Manchester United), partiu para o Milan, clube em que, mais tarde, finalmente ganharia a competição continental mais prestigiada da Europa. Lobanovskyi ainda permaneceria no comando do Dynamo até 2002, mas, sem sua estrela maior, embora tenha mantido o reinado em território nacional, não voltaria a surpreender o continente. O fim de sua brilhante carreira se deu em razão de complicações decorrentes de um AVC, ocorrido em maio daquele ano.

Aquele time tinha jogadores importantes e históricos, figuras como o goleiro Shovkovskiy, os defensores Kakha Kaladze e Oleh Luzhny, além do meia bielorrusso Valyantsin Byalkevich e do excepcional Rebrov, no ataque. Contudo, a mente da equipe era seu treinador e o coração seu artilheiro, pelas capacidades de organização e motivação do primeiro, instinto de matador e poder de decisão do segundo.

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