quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A missão de Borja Valero: organizar a Inter

A temporada 2016/17 se apresentou cercada de expectativas para o torcedor da Internazionale. Com a chegada de muitas contratações, atletas da qualidade de Ever Banega, João Mário, Antonio Candreva ou Gabigol, e a incorporação do treinador Frank De Boer, pensava-se que o clube poderia se reerguer. Não obstante, não foi o que ocorreu. Desorganizado, pouco produtivo e instável, o clube fez mais uma campanha decepcionante. Rapidamente, De Boer deu lugar a Stefano Pioli, que pouco fez. Para a temporada que se encaminha, fez-se aposta na experiência do técnico Luciano Spalletti e poucas contratações foram confirmadas. Uma delas, no entanto, tem o perfil e a qualidade que os Nerazzurri tanto procuram: o espanhol Borja Valero.


Hoje com 32 anos, Borja Valero é um daqueles exemplos de jogador que deu o azar de nascer na época errada. Em qualquer outro tempo da história do futebol espanhol, o meio-campista teria sido peça habitual nas convocações para a seleção de seu país. O fato é que o jogador começou a se destacar no momento mais vitorioso da vida da Fúria. Em tempos de Xavi, Andrés Iniesta, Xabi Alonso, Cesc Fàbregas ou Sergio Busquets, só conseguiu representar a Espanha em uma ocasião. O que não condiz com o que demonstra sua trajetória por clubes. 

Formado no Real Madrid, brilhou com as camisas de Mallorca, Villarreal e Fiorentina. Cerebral, construiu uma reputação. Sua capacidade para distribuir a bola, pensar o jogo, interpretar as ações do adversário e encontrar brechas em defesas fechadas fez com que fosse cultuado por onde passou. Na Itália, não se compreende como o jogador não é convocado. A própria federação do país chegou a considerar sua naturalização, o que foi prontamente rechaçado.

“Certa vez, fui perguntado pela Associação Italiana de Futebol se eu tinha algum parente italiano, para que eu pudesse ter também o passaporte italiano, mas eu lhes disse que só quero jogar pela Espanha”, revelou o jogador ao site abc.es.

Em sua última temporada pela Fiorentina, o desempenho do jogador reforçou o que se diz sobre ele. Em 31 jogos pelo Campeonato Italiano, criou 10 assistências - apenas Mohamed Salah e José Callejón o superaram. Acertou, em média, 89,5% de seus passes e ofertou uma média de dois passes para gols por partida. Foi, mais uma vez, o regente do jogo da Viola; é a figura que chega para recolocar o jogo coletivo da Inter em funcionamento.

Em 2016/17 já havia sido notada a necessidade de contratação de um jogador com o perfil de Valero. Por essa razão, apostou-se na chegada de Banega, que havia sido o principal organizador do Sevilla nas duas temporadas anteriores e que substituíra o croata Ivan Rakitic com perfeição. Contudo, o argentino não conseguiu em momento algum reviver as performances que levaram os Nerazzurri a o contratar. Embora tenha marcado seis gols e construído seis assistências, não fez o suficiente para convencer a direção do time a apostar em sua continuidade.

A equação formulada pelo clube milanês apresenta balanço positivo: saiu Banega por €9 milhões e chegou Valero por €5,5 milhões. Trocou-se um jogador de 29 anos inadaptado por outro, de 32, mas que tem cinco anos de experiência na Velha Bota.

“Borja Valero pode atuar como playmaker ou trequartista, ele tem muito caráter e não se livra da bola. Ele pode atuar como um líder para os outros e precisamos de homens assim. Quero dois jogadores como ele, porque é difícil alcançar resultados focando apenas em jogadores que têm apenas 22 ou 23 anos”, disse Spalletti à Gazzeta dello Sport

Uma das missões do novo treinador da Inter é ajudar alguns jogadores a desenvolver todo o seu potencial e fazer valer os investimentos interistas dos últimos anos. 

Por isso, Valero deverá ser sua referência dentro das quatro linhas, um jogador para coordenar as ações dos demais; alguém para fazer aflorar a qualidade de jogadores como Geoffrey Kondogbia, Roberto Gagliardini e João Mário. Foi esse o sentido de suas primeiras palavras ao site oficial da Inter, já confirmado reforço para o ano que se encaminha.

“Quero ser um jogador importante, dentro e fora do campo. Tenho muitos anos de experiência em várias ligas diferentes e sempre fui titular, não importa onde tenha ido. Espero poder contribuir com a Inter e ajudar os muitos jogadores jovens do elenco”, revelou.

A aposta em Borja Valero foi levada tão a sério, que a direção Nerazzurri firmou contrato com o espanhol até o final da temporada 2019/20, quando o meio-campista terá completado 35 anos. Nesse momento, o casamento entre clube e jogador parece ter tudo para se desenvolver em um sentido positivo. Avaliado como fundamental por um treinador de personalidade forte e dono de um perfil agregador, o meia é visto como alguém capaz de organizar o clube dentro das quatro linhas. Possibilita também, ao menos em tese, que não se desperdice o talento que já existe no elenco, mas que, diante da instabilidade dos últimos tempos, tem estado escondido.

Silenciosamente, a Inter deu cartada certeira no sentido de se reorganizar e, a partir de então, renascer. Se o timing de seu aparecimento para o futebol parece ter sido injusto com Valero em termos de Seleção Espanhola, o momento atual não poderia ser melhor para entregar ao meio-campista um protagonismo que, há anos, faz por merecer.

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