sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Chegada de D. Sánchez é mais um reflexo do planejamento do Tottenham

No mundo da bola, sobretudo nos últimos anos e em grande medida em decorrência da influência provocada por Sir Alex Ferguson no esporte, tem se falado na concessão de tempo e espaço para que os treinadores possam desenvolver suas filosofias e projetos nos clubes. Por ser contrária à efemeridade que tanto caracteriza o futebol, muitas vezes não se aplica tal realidade, não obstante a presença de bons exemplos em desenvolvimento. Sob o comando do argentino Mauricio Pochettino, o Tottenham é indiscutivelmente um desses casos na atualidade.



Tendo trabalhado com Marcelo Bielsa, o ex-zagueiro não é exatamente um filho da filosofia d’El Loco, mas apreendeu e executa algumas das principais ideias do renomado estudioso. Ainda que alterne esquemas táticos, sendo o 3-4-2-1 o mais utilizado recentemente, a ideia aplicada não muda. Com pressão alta, o time busca sempre dificultar a saída de bola adversária, tentando recuperar a bola o mais rapidamente possível e, logo, começar a construção de sua resposta.

Para isso, aposta muito nas capacidades técnicas de todos os seus jogadores. Desde os zagueiros — habitualmente Toby Alderweireld, Jan Vertonghen e Eric Dier —, a bola é muito bem tratada. Mesmos os atletas de características defensivas se sentem confortáveis para conduzir e passar a bola. Outra demonstração de que tal argumento é verdadeiro é o fato de que todos eles, ocasionalmente, já foram e ainda são utilizados em outras funções (pelas laterais ou como volantes).

Pochettino está no clube londrino desde 2014 e, nesse período de três temporadas completas, vem modelando o elenco, procurando uma forma de ter o máximo de jogadores adequados à execução de seus ideias. Por isso, hoje já não precisa recorrer tanto ao mercado de transferências. Em seu primeiro ano no comando dos Spurs, trouxe sete jogadores; no segundo, cinco; no terceiro, também cinco; e, para a temporada recém-iniciada e que ainda se encontra na fase final da janela de transferências do verão europeu, o clube anunciou apenas duas contratações, sendo uma delas a aquisição de um goleiro reserva que chega sem custos. Isso é o reflexo do tão falado planejamento.

Não é que o Tottenham não vá mais contratar ninguém na última semana em que negócios são possíveis, mas, em um mercado cada dia mais louco, o clube revela consciência. Embora tenha sido caríssimo, o único reforço relevante — até o momento contratado — é uma figura que se adequa precisamente às necessidades do time.

Aos 21 anos, o beque colombiano Davinson Sánchez, formado no Atlético Nacional, chega do Ajax para dar suporte a um time que possuía escassas alternativas para a zaga. No entanto, não é só esse motivo que leva o clube a apostar £36 milhões em sua contratação.

O que o defensor tem de importante que lhe confere valor tão vultuoso? As características que Pochettino enxerga serem as ideais para um defensor no contexto de seu time. Sánchez é jovem, tem vitalidade, muita potência física e é capaz de atuar em outras posições, como a lateral direita. Mais que isso, é confortável com a bola nos pés; ao contrário de muitos defensores mundo afora, não vê a pelota como uma adversária que precisa ficar longe de sua retaguarda. Seu estilo já se amoldava às necessidades do Ajax e se encaixa, perfeitamente, no Tottenham.

Na Eredivisie 2016/17, o sul-americano disputou 32 jogos, sempre como titular. Fez 1,5 desarmes e 1,9 interceptações, em média por jogo. Marcou seis vezes e acertou percentual aproximado de 88,9% de seus passes. Mas o Campeonato Holandês não exige tanto dos beques das equipes mais fortes do país, isso é um fato. Por isso, para consolidar a análise, é necessário passar pelo desempenho do jovem na brilhante campanha dos Godenzonen na Europa League. No certame, jogou 12 vezes, conseguindo, em média, 3,3 desarmes por encontro e 2,6 interceptações, embora isso sinalize proteção deficiente, também demonstra qualidade técnica da parte do zagueiro. Tudo bem, seu índice de acerto de passes caiu para 82,4%, o que ainda é alto.

“Sou forte nos desarmes e sempre tento jogar futebol de verdade. Penso que essas são minhas características principais [...] assim como minha velocidade e força mental. Penso que isso me faz um jogador capaz de trazer muita contribuição ao Tottenham”, disse o beque ao site oficial do clube.

Como comparação, veja-se que os defensores do Tottenham, ainda que inseridos em cenário em que há maior competitividade, têm números parecidos na temporada 2016/17 (em campeonatos nacionais, apenas):


Jogador
Média de desarmes por jogo
Média de Interceptações por jogo
Aproveitamento de passes por jogo
Toby Alderweireld
1,4
0,9
83,2%
Jan Vertonghen
1,3
1,3
85,3%
Eric Dier
1,3
1
86,7%
Davinson Sánchez
1,5
1,9
88,9%


Sim, Davinson custou muito caro aos cofres do clube londrino. Porém, é uma contratação que faz parte de um plano de ação estruturado para funcionar a longo prazo e que vem operando com êxito — não por acaso, os Spurs foram vice-campeões da Premier League na última temporada. Suas capacidades técnicas são evidentes e seu estilo é capaz de se adaptar às exigências de seu novo treinador.

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