sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Um brasileiro em vermelho e branco: a trajetória de Mehmet Aurélio

Luxemburgo, 16 de agosto de 2006. A seleção local enfrentava a Turquia em um amistoso e o placar final foi tão pequeno quanto o estádio Josy Barthel: 1 a 0 para as Estrelas Crescentes. Esta partida poderia ser irrelevante se não fosse um ato histórico. De forma inédita, em mais de oitenta anos da criação da federação de futebol turca, um estrangeiro naturalizado defendeu as cores do país. A partir de então,  Marco Aurélio encarnou Mehmet Aurélio. 




Do Rio de Janeiro a Trabzon

Quase trinta anos antes desta partida, em 15 de dezembro de 1977, no Rio de Janeiro, nasceu Marco Aurélio Brito dos Prazeres. Com ele, a distância aproximada de 10.000 km entre a antiga capital brasileira e uma cidade de um país dividido entre dois continentes foi encurtada pelo elemento fundamental às culturas brasileira e turca: o futebol.

Por seus primeiros anos no futebol carioca — passagens por Bangu, Flamengo e Olaria — não terem sido memoráveis, Marco não hesitou em partir para Trabzon, em 2001, junto de outros três companheiros do Azulão da Bariri — somente Marco Aurélio vingou.

Historicamente lembrada pela importância de seu porto, a cidade banhada pelo Mar Negro é também conhecida por ser casa do Trabzonspor. Embora viva à margem dos sucessos do “trio de ferro” da outrora capital turca Istambul, Beşiktaş, Fenerbahçe e Galatasaray, trata-se de um clube tradicional e, em certa medida, vitorioso. É a quarta força do país, com seis títulos nacionais e oito copas — duas a mais que o Fener.

Após um ano de estreia ruim, que culminou com a 14ª colocação no Campeonato Turco, a temporada 2002/03 foi um sucesso para Marco Aurélio: título da Copa da Turquia e a sétima colocação no campeonato nacional. Mas o contrato do jogador estava próximo do fim e chamado para renovar, optou pela saída. Na versão do presidente do clube foi uma despedida por dinheiro, um pecado imperdoável, um defeito de caráter — segundo relato ao Hurriyet Daily News em 2003 — e, injuriado, prometeu nunca mais contratar um brasileiro, vendo seu destacado volante rumar para Istambul. 

Sucesso em Istambul

Após a mudança, 2003 pode ser considerado o primeiro ano do fim da vida como Marco Aurélio. Vestindo as famosas cores amarela e azul marinho do Fenerbahçe, e acompanhado de Fábio Luciano e Márcio Nobre, conquistou seu primeiro título turco, como protagonista, rindo por último na queda de braço com o presidente do Trabzonspor ao levar a taça para casa e ver seu ex-clube ficar com a segunda posição.

No ano seguinte, depois da conquista da famigerada Tríplice Coroa do Cruzeiro, Alex partiu para a Turquia e se tornou ícone, lenda, para muitos o maior jogador da história do Fenerbahçe. Na onda do talento do novo contratado, Marco Aurélio seguiu em alta, elevando sua importância e conquistando, na temporada de 2004/05, o segundo campeonato turco da carreira.

Seu estilo resiliente, com destacada aptidão para o desarme e o jogo coletivo, além de muita resistência física e compreensão tática, rendeu-lhe uma reputação na Turquia. A despeito disso, não foram apenas suas qualidades que o levaram a ser reconhecido e buscar a cidadania turca. Havia também a necessidade de abertura de uma vaga de estrangeiro, em atenção aos limites impostos pela federação local. Após viver cinco anos no país, Marco Aurélio estava apto a iniciar o processo de naturalização.

“Eu não sabia que estava sendo observado pela seleção da Turquia. Mas o treinador me chamou para uma reunião perguntando o que eu achava, se eu jogaria pela seleção da Turquia. Eu fiquei muito feliz e aceitei na hora”, relatou o atleta em entrevista ao UOL, em 2015.

Ingresso na história

Eram os idos de 2006. Pouco depois da conclusão do processo de naturalização, o jogador viveu aquela noite de verão em Luxemburgo. Não era mais Marco, seu passaporte indicava outro nome: Mehmet. Envergou o manto da nação que o acolhera em 2001 e o defendeu com garra, o que se repetiu outras 37 vezes. 

Primeiro jogador naturalizado a representar o selecionado turco, aos poucos superou as desconfianças e até mesmo o preconceito: segundo o periódico português Público, no estádio em que estreou foram expostas faixas com os dizeres: “os Mehmets nascem, não se fazem”, mas menos de dois anos depois já era ovacionado pela campanha de terceiro lugar da Euro 2008.

Naquele torneio, após a derrota na estréia para Portugal, a Turquia venceu Suíça e República Tcheca, avançando ao mata-mata. Nos pênaltis, despachou a Croácia, na única partida que não contou com a presença do turco-brasileiro, suspenso. Todavia, nas semifinais, a Alemanha de Miroslav Klose, Bastian Schweinsteiger e Philipp Lahm, enterrou os sonhos das Estrelas Crescentes, em uma partida dura e carregada de simbologia, com o placar final em 3 a 2. 

A trajetória de Mehmet Aurélio na seleção só não foi mais bonita porque a equipe não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo de 2010.

Curiosamente, sua última partida representando as cores da nação que o recebeu foi justamente contra a algoz de 2008, a Alemanha, em 2011. Nesse meio tempo, porém, o volante voltou a vencer o Campeonato Turco e a Supercopa da Turquia, ambos na temporada 2006/07. Marcou presença, ainda, na melhor campanha do Fenerbahçe na UEFA Champions League em todos os tempos. Em 2007/08, comandado por Zico e com mais compatriotas — Edu Dracena, Roberto Carlos, Wederson, e Deivid, além de velhos conhecidos do público tupiniquim como Claudio Maldonado e Diego Lugano —, chegou às quartas-de-finais do certame, sendo eliminado pelo Chelsea, futuro finalista.

Contudo, após a disputa da Euro, decidiu realizar outro de seus sonhos, deixando os canários amarelos para representar as cores do Real Betis.

Sonho frustrado, rivalidade acirrada

Após viver anos felizes e vitoriosos em Istambul, Mehmet rumou para a solar a capital andaluz, queria ter a experiência de atuar na Liga das Estrelas. Novamente acompanhado de outros brasileiros, o zagueiro Lima e os atacantes Edu e Ricardo Oliveira, decepcionou-se. Nada pode fazer para evitar o descenso dos Verdiblancos à segunda divisão. A circunstância, como um todo, teve contornos de drama: o Betis somou 42 pontos, os mesmos que o Getafe, 17º colocado e que conseguiu a permanência, e apenas dois a menos do que 13º colocado, Athletic Bilbao. 

Entretanto, o turco-brasileiro não abandonou o barco na hora da tempestade. Ficou e viveu nova frustração, ainda mais dolorosa. Na disputa da segundona, os Béticos terminaram na quarta posição, com os mesmos 71 pontos de Hércules e Levante, que ascenderam, e três atrás da campeã Real Sociedad. Sua passagem pela Espanha não chegou nem a ser um sonho de uma noite de verão, foi toda pesadelo. Um lance, em especial, resume bem o período: na disputa da 37ª rodada de La Liga 2, partida contra o Gimnàstic, escorregou numa cobrança de pênalti, isolando a bola e ocasionando risos cruéis mundo afora.



Diante do novo insucesso, retornou, em 2010/11, à Turquia em outra transferência polêmica, dessa vez para representar as cores do Beşiktaş. Já em fim de carreira, com 33 para 34 anos, ainda conseguiu ter importância. Em sua primeira campanha pelo time alvinegro, voltou a conquistar a Copa da Turquia. Devido a uma grave lesão no joelho, porém, pouco atuou na sua derradeira temporada no país.

Mehmet ainda teve tempo de retornar ao Brasil em 2013, para encerrar a carreira onde tudo começou: no Olaria, recusando-se a receber salários. Disputou a Taça Rio daquele ano, breves sete partidas, assegurando a quarta colocação do Grupo A. No entanto, na classificação geral do Campeonato Carioca, o Azulão acabou rebaixado e então o turco-brasileiro fechou com simplicidade e orgulho a sua carreira do jogador. 

Seu futuro ainda está ligado ao futebol, mas no banco de reservas, comandando. Mehmet voltou à Turquia, em 2015, para exercer a função de auxiliar técnico, primeiro no Kasımpaşa, pouco depois, no modesto Göztepe e a partir de 2016 no Sakaryaspor. Tudo isso, afinal, para ratificar que sua ligação com a Turquia transcende o campo: é histórica. 

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