sábado, 23 de setembro de 2017

Sebastian Deisler: a estrela que provou alguns dos venenos do futebol

No futebol não faltam histórias a respeito de carreiras que prometiam alcançar os céus e terminaram de forma triste. Lesões, más decisões e verdadeiros descaminhos têm contribuído para isso desde sempre. Na Alemanha, ao final dos anos 90 e início do século XXI, despontou um jogador de enorme talento. A hora era, além disso, oportuna: os germânicos começavam a discutir os rumos de seu futebol; tratava-se de questionar o modelo historicamente aplicado, que apostava, basicamente, nas fortes virtudes alemãs. Contudo, a sorte não esteve ao lado de Sebastian Deisler, que aos 27 anos já estava aposentado.



Em 1998, a Alemanha havia sido castigada pela Croácia na Copa do Mundo. O 3 a 0 sinalizado no placar do Stade de Gerland, em Lyon, havia deixado uma pulga atrás de orelhas germânicas. A Euro 2000 reiterou suas fraquezas e nem o vice-campeonato mundial em 2002 serviu para mascarar os indícios de decadência. A Maanschaft era apenas um reflexo do jogo praticado no país, como um todo.

Diante desse cenário, o aparecimento, no pós-copa de 98, de um jogador com virtudes incomuns para o contexto alemão animava. Meia-direita com arranque, criatividade, drible e um pé direito moldado para bilhar em cobranças de faltas, cruzamentos e escanteios surgiu no Borussia Mönchengladbach, aquele mesmo time que lançara ao mundo jogadores da estirpe de Günter Netzer ou Jupp Heynckes. Deisler apareceu no momento mais oportuno possível.

Era setembro de 98 e, tendo no Eintracht Frankfurt seu primeiro adversário, o jovem estreou. Pouco tempo depois, protagonizou corrida de 60 metros e marcou um golaço contra o 1860 Munich. Logo, ganhou o apelido de Das Supertalent (“O supertalento); as expectativas ao seu redor eram altíssimas e o preço de tanta exigência foi cobrado. Custou caro.

“Em algum momento, ele será lembrado no mesmo patamar de [Fritz] Walter, [Uwe] Seeler e [Franz] Beckenbauer”, disse, à época, seu treinador no Gladbach, Friedel Rausch, como veiculou reportagem do Goal.com.

Apesar de toda a sua vinculação com os Potros, que o receberam aos 15 anos, o meia nada pode fazer para evitar o rebaixamento de sua agremiação à 2.Bundesliga. Seu talento, indiscutível, ficou claro já naquela instância, entretanto. O próprio Beckenbauer profetizou que o atleta era “física e tecnicamente o melhor da Alemanha”, como reportou o The Guardian. Por isso, recebeu várias propostas e escolheu o Hertha Berlim, que havia ficado na terceira colocação da Bundesliga no ano anterior e disputaria a UEFA Champions League de 1999/00. Partiu para a capital do país, custando aos cofres azuis e brancos 4,5 milhões de Marcos Alemães.
“Eu tinha 19, 20 anos, quando o povo pensou que eu poderia salvar o futebol alemão. Eu sozinho [...] Eles não me deram tempo para me encaixar”, revelou Deisler à mesma reportagem publicado pelo Goal.com.

Não obstante, já no ano de seu debute como jogador da agremiação berlinense, Deisler sofreu lesão no ligamento cruzado de seu joelho, disputando apenas 19 encontros. O segundo revés veio em 2001, quando rompeu a membrana sinovial do joelho direito. Era outubro e o jogador ficou afastado do restante da temporada. Resultado? Perdeu a oportunidade de disputar a Copa do Mundo de 2002. Sua trajetória no Hertha durou três temporadas. Foram poucas partidas, com a conquista da Copa da Alemanha de 2001. Ainda assim, sua impressionante qualidade o qualificou a alçar voos mais altos. Em 2002/03 passaria a representar o poderoso Bayern de Munique, após saída polêmica do Hertha; chegava com a missão de substituir Stefan Effenberg.

Apesar disso, as lesões continuaram a perseguir o talento alemão e sua forma física foi ficando cada vez mais debilitada. Seus joelhos jamais se recuperaram dos traumas a que foram expostos, seus músculos desenvolveram limitações decorrentes da falta de treino e o pior: sua saúde mental também não passou imune; em 2003, Deisler foi diagnosticado com depressão e interrompeu sua carreira. Voltou em 2004, mas nunca se recuperou plenamente.

Em determinada instância revelou que, diante da missão de levar alegria ao povo, sentia-se como um palhaço triste. Nas quatro temporadas e meia em que defendeu as cores bávaras, o meia fez apenas 90 partidas; não teve tempo de crescer como indivíduo, tamanha foram as exigências depositadas em suas costas.

Tentativas de voltar não foram poucas, sempre infrutíferas. 2005/06 acabou sendo seu melhor ano, atuando regularmente durante a maior parte dele. Porém, a velha história se repetiu: em março, às vésperas da Copa do Mundo que seria disputada na própria Alemanha, lesionou novamente o joelho direito e perdeu a oportunidade de disputar o Mundial. Mesmo após retornar aos campos, em novembro, Deisler já se sentia acabado. Assim, em janeiro de 2007, colocou fim em sua carreira, mesmo possuindo contrato vigente até 2009. Já não queria passar pelo ciclo vicioso “jogo-lesão-recuperação”, vivido desde o início de seus anos como atleta profissional.

Pela idade, Deisler teria sido vital para a transição que acabou por acontecer no futebol alemão. Poderia ter sido importante nos Mundiais de 2002, 2006, 2010 e até mesmo 2014, quando teria 34 anos. Tinha a técnica necessária, o estilo de jogo ideal. No entanto, o mundo do futebol, mais uma vez, sem deixar explicações, mostrou que há muito mais em jogo do que bola e redes. O meia acabou disputando 36 partidas pela Nationalelf, mas nunca conseguiu jogar uma grande competição. O mais perto que chegou foi a disputa da Copa das Confederações de 2005, tendo atuado em todas as partidas do certame.

Uma carreira de oito temporadas e meia teve apenas 195 jogos por clubes, uma média de 23 jogos por ano. Pouco. Além da citada Pokal, vencida nos tempos de Hertha Berlim, levou para casa mais três conquistas da Bundesliga, outros três títulos da Pokal e um da Ligapokal, todos pelo Bayern. A dureza das expectativas e os sucessivos reveses de sua carreira levaram Deisler a viver uma carreira que tinha tudo para alcançar o estrelato, mas foi quase exclusivamente drama.

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