quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Günter Netzer e a importância de se ter um craque na reserva

O período marcado pelo final dos anos 60 e início da década de 70 presenciou uma revolução cultural por todo o mundo. Como um microcosmo dessa realidade, o futebol não ficou de fora. Enquanto a Holanda e o Ajax se afirmaram os principais expoentes desse cenário, tendo em Johan Cruyff o protagonista de um Futebol Total, na Alemanha dois times entalhavam sua supremacia no país: Borussia Mönchengladbach e Bayern de Munique; Liderados pela genialidade de Günter Netzer e Franz Beckenbauer, dois jogadores que, como Cruyff, provaram-se expoentes de uma nova realidade.



Porém, enquanto não se discute o papel do Kaiser na conquista da Copa do Mundo de 1974 pela Seleção Alemã, pouco se fala em Netzer.

Uma das estrelas centrais da Nationalelf que conquistou o Campeonato Europeu de Seleções em 1972 – verdadeiro combinado de atletas vindos das poderosas equipes de Baviera e Renânia do Norte-Vestefália – Netzer chegou ao Mundial de 1974 como uma das maiores esperanças germânicas; não foi à toa que envergou a camisa 10. Se existia alguém capaz de executar função semelhante ao papel desempenhado por Cruyff na Oranje, esse era ele. No entanto, como em muitas outras ocasiões da história do futebol, jogadores de maior talento acabam sendo preteridos em benefício da utilização de peças coletivamente mais consistentes.

Em sua vaga, afirmou-se Wolfgang Overath. Houve, então, protestos da torcida e da imprensa. Não importava, naquela instância, que o substituto fosse considerado um jogador também talentoso, menos genial, porém mais confiável. O mundo queria arte, e os alemães queriam Netzer.

Fosse porque tivesse longos cabelos, jogasse confiando em seus instintos e protagonizasse lances verdadeiramente mágicos, ou por qualquer outro motivo. Todos pediam a presença do 10. No entanto, tiveram que se contentar com apenas 21 minutos do astro na competição, justamente na famosa derrota para a Alemanha Oriental.



Netzer não exemplificava as virtudes alemãs. Era indomável e talvez tenha sido essa a característica que o tomou um lugar no time alemão. Em 1972, Overath se encontrava lesionado. Em 1974, não. Posteriormente, o artista preterido revelou (falando do título europeu de 1972) que “não recebíamos instruções do treinador. Fizemos isso sozinhos no campo e deu certo”, como revelou o site da UEFA. Certamente, esse tipo de fala reflete a atitude que Netzer demonstrava. Nem mesmo sua categoria e elegância foram suficientes para Helmut Schön, o treinador naquela instância, o escalar.

Apesar disso, o comandante campeão, por mais que deixasse Netzer de lado, não podia ignorar o fato de que estava diante de um craque. Por isso, em segredo, como revelou David Winner no livro “Brillant Orange”, usou o gênio recém-transferido ao Real Madrid para emular Cruyff nos treinamentos de preparação para a tão esperada final daquele Mundial.

“O trabalho de personificar o capitão holandês foi entregue ao recuperado Günter Netzer, que, sob protestos da imprensa alemã, havia sido substituído pelo mais confiável Wolfgang Overath. Netzer-como-Cruyff jogou tão brilhantemente que deixou Vogts em farrapos; após 20 minutos, um intervalo foi pedido e ajustes feitos. Na final, Vogts fez de Cruyff uma sombra de si mesmo”.

Quem pode garantir que o implacável marcador Berti Vogts teria alcançado o brilhantismo e protagonismo daquela final se não fosse pela humilhação imposta por seu ex-companheiro de Gladbach nos treinamentos? Netzer era exatamente isso: alguém, em seus melhores momentos, capaz de provocar revoluções durante as partidas. Como Cruyff.

Nas palavras de Wolfram Pyta, reproduzidas por Jonathan Wilson no livro "A Pirâmide Invertida", Netzer "tornou-se favorito dos intelectuais de esquerda que enxergavam nele alguém que rompia com as tradições culturais alemãs dentro e fora do campo, porque celebrava uma forma de jogar que representava uma mudança radical [...] em especial, porque ele era considerado um não conformista".



Curiosamente, foi o alemão o escolhido pelo Real Madrid para responder o Barcelona quando os catalães contrataram o gênio holandês. Sua história com a camisa Merengue não chega perto da grandeza da vivida pelo eterno camisa 14 (também pela passagem como treinador) no Camp Nou, porém, não pode ser subestimada. A inteligência e eficiência de seus passes, a beleza dos dribles e a precisão de seus chutes foram vistas no Estádio Santiago Bernabéu. O individualista que por tantos anos fez o coletivo do Gladbach funcionar (10, para dar precisão ao dado), conquistou, em apenas três temporadas, dois títulos espanhóis e dois da Copa del Generalísimo – número superior ao obtido por Cruyff. Netzer saiu em 1976 para encerrar sua carreira no suíço Grasshopper.

Como a Alemanha venceu a Copa do Mundo de 1974, pouco se fala no fato de ter um gênio do tamanho de Günter Netzer permanentemente ficado no banco de reservas. O fato é que, direta ou indiretamente, o meia contribuiu para o sucesso da Mannschaft; colocou, pois, em sua sala de troféus a láurea mais procurada do mundo da bola. Mostrou sua importância, mesmo atuando por pouco mais de 20 minutos oficiais. Lembrado ou não por 1974, está na história.

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