segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Manipulado? O triste desfecho argelino de 1982

O dia 5 de julho de 1962 é histórico para a Argélia: representa o final de uma guerra civil sangrenta e longa, iniciada em 1954. Naquela data, os argelinos puderam gritar para quem quisesse ouvir que eram um país independente. No entanto, a realidade era caótica. Milhares haviam morrido, boa parte do país estava destruída e outros tantos locais haviam emigrado. A economia inexistia e um cenário de paz social era impossível. Assim, mesmo já não fazendo parte da França, a nação africana não disputou as eliminatórias da Copa do Mundo de 1966 (em protesto diante da inexistência de vaga direta para os africanos) e foram necessários três insucessos – em 1970, 74 e 78 – até que finalmente chegassem à disputa de um Mundial.



A competição de 1982, sediada na Espanha, foi realmente um evento curioso. O poderoso Brasil caiu para a desacreditada Itália; Paolo Rossi ressurgiu após escândalo envolvendo apostas; a forte Polônia, que já não tinha Kazimierz Denya, chegou em terceiro lugar; e a talentosa França de Michel Platini sucumbiu contra a forte, porém pragmática, Alemanha, que tinha em Karl-Heinz Rummenigge seu maior craque. Além disso, história também marcante é a que diz respeito à primeira participação da Argélia em mundiais.

Comandada pela qualidade diferenciada de jogadores como Lakhdar Belloumi, melhor jogador africano de 1981, Salah Assad e Rabah Madjer (que seria protagonista da primeira conquista da Copa dos Campeões com o Porto), a seleção nacional teve participação louvável nas Eliminatórias para o certame de 82. Deixou Serra Leoa, Sudão, Níger e Nigéria pelo caminho. Curiosamente, diante de um destino que, à primeira vista, sugeria muitas dificuldades à estreante, a Argélia se saiu muito bem.

Compartindo o Grupo 2 do Mundial com Alemanha Ocidental, Áustria e Chile, todos experientes em Copas do Mundo, as Raposas do Deserto surpreenderam e poderiam ter vivido uma realidade verdadeiramente brilhante.

A estreia aconteceu em Gijón, justamente contra os germânicos, então campeões europeus e colocou o dia 16 de junho de 1982 na história do esporte do tão sofrido país. Jogar uma competição de tal porte já era muito bom. Ganhar da Alemanha Ocidental? Surreal. De nada importou que Rummenigge tivesse ido às redes, porque antes dele Madjer já as cumprimentara, após grande defesa de Harald Schumacher, e pouco depois Belloumi também acabou por o fazer, após cruzamento de Assad. 2x1 histórico, mesmo porque os relatos da época apontavam certa soberba da parte dos alemães antes de a bola rolar.



O triunfo colocou os argelinos em boa situação no grupo. No entanto, logo após veio derrota inoportuna contra os austríacos, 2x0. Na sequência, porém, a Argélia bateu o Chile por 3x2 e teve de esperar o confronto entre Áustria e Alemanha para saber se avançaria à fase seguinte. Entretanto, uma vitória alemã simples ou por dois gols colocaria ambos os europeus na fase seguinte, já que haviam vencido os chilenos. Qual foi o desfecho? No mesmo palco em que a nação africana havia vencido sua primeira partida, Alemanha um, Áustria zero. Europeus na fase seguinte, Argélia eliminada.

Sem demonstrar muito interesse pela partida após os germânicos abrirem o placar, os países foram acusados de manipular o resultado. A FIFA, contudo, não promoveu investigação e o evento ficou conhecido como “A Desgraça de Gijón”. Após o incidente, foi revisto o sistema de disputa de grupos, para que as partidas finais acontecessem ao mesmo horário, evitando, assim, o levantamento de suspeitas.

Nunca ficou provado nenhum tipo de pacto entre Alemanha e Áustria. Mas, diante da conveniência do resultado obtido, difícil foi não contestar o evento. Em 28 de junho daquele ano, o New York Times falou em “Gosto amargo na Copa do Mundo”, chamando a partida entre as nações europeias de “evento vergonhoso”. Por sua vez, o El País do próprio dia 26, data da partida, relatou que houve gritos de “que se besen” (que se beijem) e que “vários torcedores argelinos, que eram os diretamente prejudicados por este resultado, tentaram saltar ao campo e foram atacados pela Polícia Nacional”.

Em reportagem do The Guardian de 2010 ficou ainda mais consignado o tamanho da vergonha vivida. O periódico inglês reproduziu as palavras de Eberhard Stanjek, comentarista do canal alemão ARD: “o que está acontecendo aqui é vergonhoso e não tem nada a ver com futebol. Você pode dizer o que quiser, mas nem todos os meios justificam os fins”. O escândalo estava ali marcado na história.

Em 2002, o antigo capitão das Raposas do Deserto, Ali Ferghani, falou à BBC sobre o estilo de jogo que praticavam e tanto encanto provocou: “jogamos um tipo diferente de futebol, que nunca havia sido visto antes. Era uma mistura dos estilos alemão, francês e latino”. Por sua vez, à mesma reportagem, Belloumi deixou claro o sentimento de sua nação: “os alemães e austríacos jogaram um combinado para nos eliminar pela diferença de gols. Foi o que chamados de partida da vergonha”.

Mais uma vez, a Argélia sofria pesada dor. Obviamente incomparável com a dureza de uma guerra, mas, ainda assim, o fim de um sonho, afinal o esporte é sempre um instrumento de pacificação social, capaz de provocar onda de otimismo e esperança. A Argélia retornaria ao Mundial de 1986, mas apenas para ter participação obscura. Após, só voltaria em 2010.


Um comentário :

  1. Uma pena, realmente, para os argelinos. Foi óbvio para todos que assistiram o jogo que ninguém queria jogar. Mas não é possível afirmar que houve algum tipo de complô. O mais provável é que tenham simplesmente jogado com o regulamento debaixo do braço. O verdadeiro culpado foi o regulamento. Quaisquer outros dois times no lugar de Alemanha e Áustria provavelmente fariam o mesmo.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...