segunda-feira, 9 de outubro de 2017

A Europa League que quase chegou a Craven Cottage

Antes de fracassar no comando do Liverpool e chegar ao English Team, o treinador Roy Hodgson fez grande trabalho no Fulham. O inglês quase fechou com chave de ouro um período de dois anos e meio, que tirou os Cottagers da luta contra o rebaixamento e quase culminou com um título continental inédito. Havia, no entanto, um certo Diego Forlán no meio do caminho do clube. Pelos pés do uruguaio, a conquista foi perdida, o que não diminui, em nada, os méritos do trabalho executado pelos londrinos.



Um dos vários times da Terra da Rainha que jamais conquistou o título da primeira divisão inglesa, o Fulham viveu os anos mais estáveis de sua história na primeira quinzena do século XXI. Após passar tempos à margem, oscilando entre as divisões inferiores do futebol bretão (chegou à quarta divisão), sob o comando do francês Jean Tigana, o clube chegou à Premier League em 2001/02. Lá permaneceu até a campanha de 2013/14. Nesse meio tempo, fez campanhas regulares na maior parte dos anos, ficando longe do rebaixamento, mas também distante do título.

Houve, contudo, um ano em que a perspectiva de retorno à segunda divisão quase se tornou realidade. Após flertar fortemente com o descenso em 2006/07, o time trocou o treinador Chris Coleman, desde 2002 membro de sua comissão técnica. Chegou o interino Lawrie Sanchez, então treinador da Irlanda do Norte. Este evitou o rebaixamento, mas começou a campanha seguinte de forma terrível.

O impacto de Roy Hodgson

Roy Hodgson foi contratado em 30 de dezembro de 2007 pelo Fulham. Naquela altura, os Cottagers acumulavam nove derrotas, nove empates e duas vitórias apenas na Premier League. Era verdadeiramente impossível a missão do novo comandante. No entanto, Hodgson inspirou o clube à permanência. Na reta final, os últimos cinco jogos, o time venceu quatro vezes. Bateu Reading, Manchester City, Birmingham e Portsmouth. A esquadra que só havia ganho quatro partidas na temporada inteira, venceu a mesma quantidade no apagar das luzes e permaneceu na Premier League, por meio do saldo de gols, em uma das maiores recuperações da história recente do futebol.

O ano de 2008/09 foi completamente diferente. Nele, o Fulham chegou à melhor colocação de sua história na elite do futebol inglês, o sétimo lugar. Tendo na figura do norte-americano Clint Dempsey seu destaque absoluto, consolidou uma defesa quase intransponível. Apenas Manchester United, Liverpool e Chelsea, os três primeiros colocados, buscaram menos bolas em suas redes do que o clube do oeste de Londres. Em uma temporada, o Fulham saiu do saldo negativo de -22 para o positivo de +5.

Na primeira campanha completa como treinador do time da capital inglesa, Hodgson pôde encorpar seu elenco. Chegaram, dentre outros, os atacantes Andy Johnson e Bobby Zamora, o goleiro Mark Schwarzer e o meia húngaro Zoltán Gera, peças que seriam importantíssimas. Dempsey seguiu sendo o diferencial, mas já podia dividir as responsabilidades. Veio a temporada 2009/10, com a Europa League – em sua primeira disputa, deixando a nomenclatura de UEFA Cup para trás – no horizonte.

Sem perder nenhum jogador importante e, ainda, incorporando a experiência de Damien Duff, outrora peça importante no rival Chelsea, pensou grande; permitiu-se o sonho. Para um time cujas maiores glórias são o título da Segunda Divisão Inglesa e a UEFA Intertoto, a mera disputa de uma competição continental já era motivo suficiente para orgulho. Contudo, conforme a temporada foi avançando, a conquista foi se tornando palpável.

A Premier League foi disputada sem sustos. A campanha não teve o brilhantismo da anterior, mas tampouco conviveu com os riscos de 2007/08. Ao final, o 12º lugar fez justiça ao que o clube fez. Havia clara preferência pela disputa da Europa League, em detrimento das demais competições. Na FA Cup, disputou quatro fases; Na League Cup, caiu já na primeira. Nada que importasse ou preocupasse.

A saga continental

Na disputa europeia, tudo ia bem e isso era o mais importante. Após eliminar os fracos lituanos do FK Vėtra, na terceira etapa classificatória, os Cottagers bateram o Amkar Perm, da Rússia, nos Play-offs e chegaram à Fase de Grupos. Dividindo o Grupo E com Roma, Basel e CSKA Sofia, os ingleses não tiveram vida fácil. A despeito da fraqueza do clube búlgaro, o time suíço se provou um rival à altura e os italianos, como esperado, foram líderes. Somando dois pontos a mais que o Basel, o Fulham avançou à fase de 16 avos de final. Foi então que a saga começou a ganhar contornos épicos.

O primeiro adversário foi o Shakhtar Donetsk, simplesmente o último campeão da UEFA Cup. Na partida de ida, Gera e Zamora (com um petardo fantástico) marcaram para os ingleses; Luiz Adriano descontou para os ucranianos, que decidiriam em casa. Na volta, o zagueiro grandalhão Brede Hangeland (1,99m) colocou os Cottagers em vantagem. Jádson chegou a empatar, mas os londrinos avançaram, com performance defensiva exuberante. Era apenas o início das dificuldades, pela frente viria a Juventus, sedenta por títulos após começar sua reconstrução pós-escândalo.



“Nós colocamos em campo muito trabalho, treinamos muito e o resultado mostra que não foi em vão [...] Não descarto que, ao final dos meus dias como treinador, eu colocarei essa partida como a melhor da minha carreira”, disse Hodgson em coletiva após o jogo.

O esperado, então, aconteceu. Em Turim, Nicola Legrottaglie, Jonathan Zebina e David Trezeguet colocaram os Bianconeri em vantagem; Dickson Etuhu descontou para os ingleses. No entanto, aquele não era o ano da Juve. Por outro lado, marcaria para sempre a história do Fulham.

A recuperação histórica

Tudo parecia perdido quando Trezeguet marcou no Craven Cottage, aos dois minutos. O tento sinalizava vantagem de 4x1 no placar agregado para os italianos. No entanto, sem tempo para respiro, Zamora empatou o encontro aos nove minutos, e, antes do final da primeira etapa, Gera virou. Logo na volta, o húngaro aumentou o placar de pênalti. Mas o encerramento estava à espera de Dempsey, que saiu do banco para marcar um gol maravilhoso de cobertura e selar a classificação do Fulham, quando eram decorridos 82 minutos de partida. Depois desse jogo e do gol espetacular do craque estadunidense, não havia mais espaço para ceticismo.

“Nove de dez vezes, eu não acho que acertaria tão bem como fiz, mas estou feliz que entrou [...] Esse é um time que tem grande caráter e muito coração”, revelou Dempsey em entrevista concedida após o encontro.



A seguir, foi a vez de o Fulham se encontrar com o campeão alemão de então, o Wolfsburg, de Edin Dzeko e Grafite. Em casa, Zamora e Duff colocaram o clube na frente e o zagueiro Alexander Madlung descontou para os Lobos, todos os gols saindo no segundo tempo. Na volta, o mesmo Zamora sentenciou os germânicos à eliminação com 25 segundos. Aquele foi o único tento do jogo. À medida que a final se aproximava, o funil ficava mais estreito. Restavam, naquela instância, Liverpool, Atlético de Madrid e Hamburgo, que seria rival do Fulham.

Aquele clube que, à primeira vista, parecia o mais fraco enfrentado pelos Cottagers nas fases decisivas, causou grandes problemas. Contra um rival cauteloso, que apostava na juventude de Jérôme Boateng, experiência de Ruud van Nistelrooy e Zé Roberto, além do talento de Piotr Trochowski e Paolo Guerrero, o zero não saiu do placar na Alemanha e a decisão ficou para Craven Cottage. Tudo parecia convergir no sentido da chegada dos ingleses à final, não fosse pelo fato de Mladen Pétric ter aberto o placar para o Hamburgo, em ótima cobrança de falta.

No entanto, Simon Davies foi lançado pelo capitão Danny Murphy, driblou o defensor Guy Demel com extrema perícia e empatou o jogo, já no segundo tempo. O placar ainda dava vantagem aos alemães. Porém, após cobrança de escanteio e confusão na área, a bola sobrou para Gera, um dos grandes heróis da competição, que cumprimentou as redes do goleiro Frank Rost e assegurou lugar na final para os ingleses. Na outra semifinal, com gol de Forlán na prorrogação e vitória no critério do gol fora de casa, o Atlético de Madrid eliminara o Liverpool e seria o adversário do Fulham.



“Ele [Hodgson] tem sido de primeira categoria desde que passou pela porta, trazendo seu conhecimento e incutindo em nós a forma como quer jogar. Somos muito difíceis de jogar contra: compactos indo à frente e defensivamente. Agora, espero que possamos ir uma etapa adiante e trazer o troféu para casa”, disse Davies após o jogo.

O final honrado de um suado sonho

Naquele ano, os Colchoneros ainda não eram comandados por Diego Simeone, mas possuíam um leque de bons jogadores à disposição. Em forma fantástica, tinha na dupla de ataque formada por Forlán e Sergio Agüero sua grande esperança. Pelos lados também havia qualidade com José Antonio Reyes e Simão Sabrosa. E, no gol, David De Gea começava a mostrar os motivos pelos quais seria o sucessor de Iker Casillas na Seleção Espanhola. Ainda assim, depois de enfrentar tantos desafios, o Fulham já não temia ninguém. Em Hamburgo, disputou com enorme gana o título europeu.

Com Dempsey no banco, tônica de um ano de problemas físicos para o norte-americano, Roy Hodgson alinhou seu já tradicional esquema tático 4-5-1. Não mudaria nada na final. Por outro lado, Quique Sánchez Flores também foi com força máxima, em 4-4-2. O início de jogo mostrou o poder do ataque madrileno, com Forlán atingindo a trave aos 12 minutos. A pressão do clube deu resultados: aos 32, o mesmo Forlán abriu o placar, aproveitando-se de mau chute de Agüero. Porém, sem se deixar abater e mostrando o espírito de toda a competição, o Fulham empatou cinco minutos depois, mais uma vez com Davies, após belo contragolpe puxado por Zamora. Assim terminou o primeiro tempo. E o segundo, embora o Fulham tenha crescido muito de produção nessa etapa. O jogo foi para a prorrogação, com o clube londrino dando mostras de força.

Porém, no apagar das luzes, aos 116, Agüero venceu a defesa inglesa e cruzou para Forlán, o craque da competição, levar o título para Madrid e colocar fim ao sonho do Fulham. Decepção de lado, o que o clube de Craven Cottage fez foi histórico.



“Merecíamos ter ido aos pênaltis, mas não era para ser. Ainda assim, foi uma conquista magnífica – todos querem chegar em primeiro, mas terminar em segundo é algo de que podemos ficar muito orgulhosos [...] Em resumo, foi uma competição fantástica – só temos coisas boas a dizer sobre ela. Jogamos contra alguns clubes fantásticos e aqui hoje fizemos um jogo excelente contra um dos grandes times da Europa”, disse o, enfim vencido, Hodgson na entrevista coletiva concedida após a final.

Depois desse ano, Hodgson partiu para o Liverpool e o Fulham voltou à mesmice. Disputaria mais quatro edições da Premier League, até retornaria à Europa League, em 2011/12, somente para cair ainda na Fase de Grupos. No entanto, a história de 2009/10 ficou marcada, não só pelos resultados, mas pelo que provocou: desde admiração até um senso de que, no futebol, enquanto houver um fio de esperança, deve-se agarrar a ele.

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