quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Jake Livermore e a importância da segunda chance

Jake Livermore, volante inglês de 27 anos, viveu situações que nenhum ser humano, de dentro ou fora das quatro linhas, gostaria ou merece passar. Era o mês de maio de 2014 e, enquanto alguns de seus compatriotas preparavam-se para viajar ao Brasil para a disputa da Copa do Mundo, o atleta se afundava na depressão. Vivera a morte de um filho recém-nascido e, ainda um ano após, buscara seu refúgio na cocaína quando da conclusão do inquérito. Sorteado, foi flagrado no exame antidoping; viu pairar sobre si a possibilidade real de dois anos de banimento. No entanto, uma decisão inovadora e sem precedentes lhe garantiu uma segunda chance, que foi aproveitada.



Com base no princípio da proporcionalidade, a comissão da Football Association (FA) responsável pelo julgamento de Jake entendeu que a excepcionalidade do caso merecia se sobrepor à fria letra dos regramentos antidopagem, derivados do Código da World Anti-Doping Agency (WADA). Na ocasião, mesmo a descoberta do uso de substância proibida tendo se dado cerca de um ano após a morte do filho de Livermore, o depoimento de um psiquiatra forense atestou a peculiaridade e gravidade de seu caso. Aliado a isso esteve o fato de que, poucos dias antes do teste positivo ser revelado, havia sido concluído inquérito a respeito da morte da criança. Ainda assim, em tese a pena deveria ter sido de no mínimo um ano de afastamento.

“As circunstâncias aqui identificadas [...] provêm um extremo e único caso no qual a imposição da suspensão de um ano, conforme a Regulação 70, seria absolutamente injusta e, ainda, grosseiramente desproporcional”, disse a decisão.

Concretamente, apenas no caso em que não se provasse falta ou negligência significativas, da parte do atleta, poder-se-ia deixar de o sancionar. Por isso, o caso de Livermore é icônico. Não havia como dizer que o jogador não sabia o que estava fazendo ou que foi negligente. No entanto, o que estava em disputa ia além disso. Por essa razão, a FA decidiu deixar de punir Jake. Este, por sua vez, deu sinais positivos após a absolvição e hoje mostra que, provavelmente, a decisão de seu caso caminhou pelo lado mais correto.

A decisão saiu em setembro de 2015 e, pouco menos de um ano após, o volante falou à BBC sobre o ocorrido. 

Disse, então, que naquele momento, era apenas um “ser humano que se perdeu diante das circunstâncias e não sabia como reagir”. Na altura do teste, Livermore, formado no Tottenham, representava as cores do Hull City, que se preparava para disputar a final da FA Cup. Jake ficou de fora, suspenso após o teste. “Pelo menos as pessoas sabiam o estado mental em que me encontrava”, continuou.

Em última instância, o jogador admitiu que o teste positivo salvou sua carreira. “Pisar no gramado quando eu retornei foi um dos melhores momentos da minha vida”, concluiu à reportagem. Por mais dramáticos que tenham sido os anos de 2014 e 2015 para o jogador, concedida a segunda chance, sem condenação, Livermore a aproveitou. A volta aos campos aconteceu logo depois do fim de sua suspensão preventiva. E, na própria temporada 2015/16, o volante já deu sinais de que estava em pleno processo de recuperação: ajudou os Tigers a retornar à Premier League, conquistando a vaga nos play-offs.

De volta à elite, contudo, o Hull City viveu período complicado. A relação entre torcedores, FA e clube não era boa. Os proprietários tentavam mudar o nome da equipe, o que foi gerando instabilidade nos corredores do The KC Stadium. Iniciada a EPL, o clube não havia contratado ninguém e perdera jogadores. O treinador Steve Bruce também pedira o boné, diante da crise. Reforços acabaram por chegar, mas Livermore se viu muitas vezes utilizado na zaga e, com o time em mau momento técnico e administrativo, transferiu-se para o West Bromwich em janeiro de 2017, por £10 milhões. Tal valor já demonstrava uma realidade: o volante voltara a jogar bem. 

Na nova casa, disputou o restante da temporada, tendo sido titular em 15 jogos da Premier League e ingressando no segundo tempo de apenas um deles. Ou seja: o impacto de sua chegada ao The Hawthorns foi imediato. Quem esteve atento a isso foi o treinador da Seleção Inglesa, Gareth Southgate. Livermore havia conquistado um chamado ao English Team, no distante ano de 2012. O que voltou a acontecer em março de 2017. Era a coroação de um atleta que concluíra sua volta por cima. Mesmo sem atuar em um gigante inglês, mostrou serviço e fez o suficiente para ser convocado.

Tal continua sendo sua realidade, uma vez que segue sendo chamado a representar os Three Lions e se mantém titular dos Baggies. Até ocorreu nova polêmica envolvendo seu nome, mas nada que não tenha sido rapidamente esclarecido.

Livermore pediu ao treinador do WBA, Tony Pulis, em setembro último, um período maior de descanso no curso da semana, após ter representado a Seleção Inglesa. O requerimento foi concedido, mas o comandante disse publicamente que Jake estava “bem fisicamente, mas mentalmente ele se sente um pouco cansado”. Foi o suficiente para relançar a história do doping. Posteriormente, o treinador foi à imprensa se desculpar pela infelicidade de suas palavras.

Seja como for, o volante voltou a ser chamado a representar seu país na última convocação de Southgate e, menos de um ano antes do Mundial da Rússia, vai solidificando seu lugar no grupo inglês. Com a conhecida marcação forte e capacidades físicas em ótimo nível, Livermore prova que na altura de sua absolvição a medida tomada era realmente a mais adequada. Seu momento difícil foi sendo superado e sua carreira renasceu. O voto de confiança foi valorizado; a segunda chance agarrada com unhas e dentes.

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