quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A maturidade de Andrés Guardado

Em um início interessante de temporada do Campeonato Espanhol, com o renascimento do Valencia sob a batuta de Marcelino Toral e contínua mostra de força da parte do Sevilla, talvez a grande surpresa sejam as performances do rival Rojiblanco, o Real Betis. Comandado por Quique Sétien, o responsável pelo belo futebol praticado pelo Las Palmas nas últimas temporadas, os Verdiblancos jogam com classe, voltados para o domínio da posse e o ataque. Para tanto, algumas peças têm tido desempenho exemplar, uma delas sendo a de Andrés Guardado. Passados os 30 anos, o mexicano se afirma um grande meio-campista central.



Lá se vai uma década desde que o jogador partiu para o Velho Continente. Naquela altura, era pretendido por várias equipes. Procurando um substituto para Roberto Carlos, até o Real Madrid chegou a propor oferta pelo jogador. No entanto, não o atraiu a perspectiva de passar um período junto à segunda equipe madrilena, o Castilla. Pouco tempo depois, desembarcou em La Coruña, então um talentoso ala pelo flanco esquerdo, habilidoso e versátil. Podia fazer com qualidade qualquer função daquele lado.

No Deportivo, Andrés passou a maior parte de sua carreira. Contudo, já não era uma equipe em boa fase e, em algum momento, foi necessário procurar novos desafios. “Ali deixei boas recordações. É uma segunda casa. Estive cinco anos e vivi de tudo, Europa [disputas continentais] e Segunda [divisão], revelou em entrevista coletiva recente. Ainda hoje, é lembrado com carinho na Galícia. Foram 143 partidas disputadas e 25 tentos anotados, além de várias assistências.

Partiu para o Valencia. No Mestalla, foi, na maior parte do período de um ano e meio em que atuou no clube, lateral. Depois, atuou pela metade da temporada 2013/14 no Bayer Leverkusen, sem deixar sua marca.

A despeito da importante influência com a camisa da Seleção Mexicana, que atualmente capitaneia e é o quinto com mais internacionalizações, precisou fazer um movimento apontado como retrocesso para alcançar aquele que é provavelmente o melhor nível de sua trajetória: rumou para o futebol holandês, assinando com o PSV Eindhoven.

Representando os Boeren, inicialmente por empréstimo e, posteriormente, em definitivo, percebeu-se que boa parte do talento do mexicano ficava subaproveitado pelo lado. A visão de jogo e qualidade para distribuir bolas foi descoberta. Na instância, os neerlandeses possuíam muita força na equipe. Hoje peça importante no Liverpool, Georginio Wijnaldum ainda atuava em sua meia-cancha, e, a toda potência pela esquerda, o time contava com o lateral Jetro Willems e o ponteiro Memphis Depay. Não havia espaço para Guardado por ali. Então, o mexicano foi convertido em eixo central do time.

A qualidade do pé canhoto de Andrés, antes percebida em seus chutes, cruzamentos e cobranças de falta, passou a ser percebida em seus passes. Atuando pelo meio, tornou-se o cérebro do onze inicial e, com ampla visão do campo, peça fundamental na saída de bola e construção de jogo. Como era de se esperar, os gols dos tempos de Depor rarearam, mas o número de assistências cresceu. O carillero deu lugar ao organizador. Em suas duas últimas temporadas pelo time holandês, ofertou nove assistências em cada uma. A média de 30-40 passes por partida dos tempos de ala superou o patamar dos 60 com a conversão em meia. Esse é o jogador que retornou à Espanha e vem sendo instrumental no renascimento bético.

Quique Sétien enxergou na figura do mexicano a peça perfeita para desempenhar o papel que entregava a Roque Mesa em seu tempo no Las Palmas. No último ano, este se tornou um dos jogadores mais elogiados da Espanha e carimbou seu passaporte para a Premier League, firmando contrato com o Swansea.

Em suas primeiras sete partidas como jogador do clube andaluz, Guardado já ofertou seis assistências. Tem também média de 85,7% de aproveitamento de seus passes e dá aproximadamente 2,6 passes-chave por encontro.

“[Guardado] Nos deu várias assistências, tem uma qualidade enorme, uma capacidade de trabalho enorme. Ninguém chega a jogar 140 partidas internacionais nem todos os de liga sendo um qualquer. Guardado é um dez enorme. Nos dará muito, mas é preciso cuidar dele, o queremos para o ano inteiro”, disse seu treinador em entrevista coletiva.

Dentre os meio-campistas do clube, apenas Javi García, volante e fiel escudeiro do mexicano, tem mais passes entregues até agora na temporada. Aliás, em seu retorno à La Liga, após passar por Benfica, Manchester City e Zenit, o espanhol é outro atleta que tem papel fulcral para os planos de Sétien, com sua proposta de aplicação do famigerado jogo de posição, sendo o atleta comentado protagonista da saída de bola com três atletas, que tem em Pep Guardiola um de seus maiores aplicadores.

Sétien chegou ao Betis para dar nova cara ao time e vem conseguindo. Ainda sofre muitos gols nesse período de adaptações, mas também marca em grande quantidade (são 14 marcados para 11 sofridos). Um de seus méritos foi buscar no mercado peças capazes de lhe permitir a execução de sua proposta.

Assim, encontrou em Guardado um jogador fundamental; maduro, experimentado. Alguém que atuou em várias funções diferentes durante a carreira, disputou competições europeias, Copas do Mundo por sua seleção nacional, já foi preterido e renasceu como centrocampista. Com a camisa Verdiblanca, Andrés mostra, ao máximo, como foi útil sua partida para a Holanda. Aos 31, é muito mais influente do que aos 20.

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