segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Não havia espaço para Jorginho na Canarinho de Tite. Há na Squadra Azzurra?

Até pouco tempo, especulava-se qual camisa, no contexto de seleções, o meio-campista catarinense Jorginho vestiria. Era bem verdade que o jogador do Napoli já envergara o manto da Itália. No entanto, o fato de o ter feito apenas em partidas amistosas deixava em aberto a possibilidade de ser chamado à Canarinho. Chegou, enfim, a última Data FIFA do ano. Diante do desempenho do Napoli, mesmo tendo Casemiro, Fernandinho e Paulinho como certezas para as posições de volante, havia expectativa por um chamado de duas peças fundamentais aos Partenopei, o ex-vascaíno Allan e Jorginho. Nem um dos dois ganhou oportunidade com Tite. Porém, o último não teve tempo para lamentar, foi lembrado pelo treinador Giampiero Ventura e, agora em jogos oficiais, vai representar a Seleção Italiana.



Dizia-se que o ítalo-brasileiro não era chamado a defender a Squadra Azzurra em razão de não se encaixar à proposta de jogo intentada por Ventura, o que parece ser verdadeiro. No início de outubro, à rádio Kiss Kiss, seu empresário, João Santos, garantia ser essa realidade. O meio-campista permanecia aberto às possibilidades: caso fosse chamado por Tite, aceitaria a missão de defender o escrete pentacampeão mundial. Nem o fato de, anteriormente, ter dito que sonhava em representar a Itália mudaria tal realidade – mesmo porque o fato é que Jorginho vinha sendo ignorado por ambas as equipes nacionais.

A constante ausência do jogador, hoje com 25 anos, do futebol de seleções causava espanto a muitos (sobretudo ao torcedor napolitano). Ainda que tenha alternado momentos brilhantes com atuações irregulares, Jorginho possui qualidades que nunca foram subestimadas. A acurácia nos passes, capacidade de, vindo de uma posição interior, propor o jogo, encontrar espaços e fazer a bola rodar têm se mostrado ao longo do tempo diferenciais; Maurizio Sarri, técnico do Napoli, que o diga.  

Chamar Jorginho de volante é limitá-lo. Dada a completude de seu papel, o melhor é atribuí-lo a posição de meio-campista; é a forma mais genérica, mas também a mais completa. O ítalo-brasileiro, que tantos recordes de maior número de passes por partida tem quebrado no futebol italiano é fundamental ao Napoli. Ele é de longe o jogador com maior número de passes por jogo em média na primeira divisão da Velha Bota (ressalte-se que os seis primeiros são todos napolitanos também).

Os dados apontam o oferecimento de 111 toques por jogo, com 92,3% de aproveitamento. Além disso, mesmo seu time sendo controlador da posse em quase todas as partidas (tem a maior média de posse de bola por jogo do Campeonato Italiano, 61,8%), o atleta tem 1,2 desarmes por jogo e 1,4 interceptações. É, pois, também eficaz na recuperação da redonda. Ainda assim, talvez sua grande qualidade seja também sua maior fraqueza quando o assunto é o futebol de seleções.

Para se destacar, Jorginho precisa atuar em uma equipe que preze pela gestão da bola e que se permita jogar com um construtor de jogo como eixo do meio-campo e não um destruidor. Como comparação, imagine-se hipótese em que a Seleção Espanhola do período entre 2008-2012 não se apoiasse no jogo construído por Pep Guardiola no Barcelona. Teria Xavi, por exemplo, tido o desempenho fabuloso daqueles tempos com outras propostas de jogo? Dificilmente. Sua própria carreira é prova de que foi a partir da chegada de Pep que o meio-campista alcançou seu maior nível.

Ou seja: dado o fato de que Tite dispõe de um meio-campo com Casemiro e Paulinho cimentados no onze inicial, além de Fernandinho como alternativa imediata, como se poderia encaixar Jorginho? O ítalo-brasileiro não tem o físico de Casemiro e Fernandinho – que também se saem bem na saída de bola – e não consegue se infiltrar como Paulinho. Embora seu passe seja sua grande força, para que alcance a máxima eficiência precisa vir de trás, razão pela qual também não competiria com Renato Augusto (ou quem lhe faça as vezes). O treinador da Canarinho já definiu, com sucesso, a cara de sua equipe e ela não tem lugar para Jorginho. Perdeu o Brasil? Sim, mas o fato é que, no momento, seria difícil seu encaixe.

Análise semelhante é a que se faz no contexto da Seleção Italiana. O 4-4-2 (ou 4-2-4) que Giampiero Ventura tenta aplicar (e também prejudica outro napolitano, Lorenzo Insigne) obriga a utilização de meio-campistas melhores na destruição. Já tendo em Marco Verratti um mestre do passe e alguém superior na recuperação de bola, torna-se difícil acomodar Jorginho. Em uma estrutura com dois volantes, habitualmente formada por Verratti e Daniele De Rossi, o encaixe do ítalo-brasileiro fica dificultado.  Há, no entanto, uma questão que torna mais palpável a utilização dele com a camisa itálica: o time ainda não se acertou. Assim sendo, ainda são possíveis testes e não se descarta a possibilidade de uma nova formação.

Por exemplo, caso Ventura procure utilizar um trivote, Jorginho passa a ser possibilidade real. Foi justamente esse o sentido da mais recente entrevista concedida pelo comandante da Azzurra: “Teremos dois jogos complicados e é bom estar aberto a várias e diferentes formas de se jogar. Para ir à Copa do Mundo, não podemos ter apenas um sistema”, disse ao La Domenica Sportiva.

A imprensa italiana avalia a possibilidade de o treinador alternar a escalação de sua equipe para o 3-5-2 ou o 4-3-3, este último podendo servir para a afirmação de Jorginho na equipe, vindo de trás de Verratti e Daniele De Rossi – da mesma forma como faz no Napoli, habitualmente com Marek Hamsik e Allan.

Finalmente, portanto, parece ter se definido a nacionalidade de Jorginho, ao menos para fins futebolísticos. Chamado a defender a Itália nas partidas da repescagem classificatória para a Copa do Mundo de 2018, contra a Suécia, deve atuar e, tratando-se de partidas oficiais, deixará de ser oportunidade para a Seleção Brasileira. É uma perda para o Brasil? Do ponto de vista técnico, é claro que é. Não havia ninguém com suas capacidades no radar de Tite. Ao mesmo tempo, suas características não têm lugar com o comandante. Porém, a Itália, que ainda precisa evoluir, pode se beneficiar de sua presença.

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