segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Mohamed Aboutrika: o craque, o ídolo e o exemplo

A última vez em que o Egito chegou à disputa de uma Copa do Mundo foi em 1990, no certame sediado na Itália. De lá para cá, foram muitas as decepções e só agora, por meio da geração de Mohamed Salah, o quadro tem vindo a mudar, após a classificação para o Mundial de 2018. A situação era, todavia, incompreensível, sobretudo quando se fala na primeira década do século XXI. Isso porque os Faraós impuseram forte domínio continental. Tricampeões da Copa Africana de Nações em 2006, 2008 e 2010, contavam no período com um jogador de indiscutível talento e um personagem icônico; um camisa 10 que vestia a 22: Mohamed Aboutrika.


Foto: AP


Muito lembrado pelas várias participações do principal clube de sua carreira, o Al Ahly, nos Mundiais de Clubes da FIFA, Aboutrika é um personagem curioso. Virtuoso com a bola nos pés, dotado de visão de jogo privilegiada, inventivo, criativo, indomável, o egípcio foi craque. A ausência em Mundiais ou o fato de nunca ter atuado na Europa não são capazes de contrariar tal realidade. Dentre os jogadores que atuavam na África, o meia foi eleito quatro vezes o melhor. Considerando todo o universo de atletas de seu continente, foi escolhido o segundo melhor em 2008.

Títulos também foram muitos: sete do Campeonato Egípcio, dois da Copa do Egito, seis da Supercopa do Egito, cinco da CAF Champions League e quatro da Supercopa da África. Isso no nível de clubes, porque vestindo o manto de sua nação foram mais duas conquistas de Copa Africana das Nações (o meia esteve ausente em 2010). No Brasil, é certa a lembrança de seu talento em pelo menos duas ocasiões, atuando contra a Canarinho na Copa das Confederações de 2009 e frente o Corinthians, em um jogo duro, no Mundial de Clubes de 2012.

Ainda assim, quando se pensa nos craques africanos dos anos 2000 vêm à mente nomes como os de Samuel Eto’o, Didier Drogba, Michael Essien ou Jay-Jay Okocha; quase nunca o de Aboutrika; ídolo absoluto do Al Ahly e da Seleção Egípcia e figura praticamente anônima no restante do planeta. Para muitos de seus compatriotas, foi simplesmente o maior jogador dos Faraós, em todos os tempos. Ainda assim, o craque nunca se mudou para o Velho Continente, onde, certamente, encontraria mais reconhecimento. Em 2009, em entrevista concedida à BBC, chegou a falar que muitas propostas chegaram a si, mas que nenhuma delas era boa para o clube e, sendo assim, não poderia sair, postura que diz muito a respeito do personagem.

“Eu recebi muitas ofertas de muitos clubes [europeus], mas a maioria delas não era boa o suficiente para meu clube considerar [minha venda]. Ainda assim, eu tenho o desejo de jogar por um grande clube da Europa. Desde que a oferta seja suficientemente boa para o Al Ahly, acredito que eles não me impediriam de deixar o clube e alcançar os meus desejos no futebol”, registrou.

A realidade, contudo, foi diferente. A dita proposta não chegou e Aboutrika nunca se mudou para a Europa. Não forçou a barra e nem esperneou, certamente outro motivo pelo qual é tão reverenciado. É forçoso reconhecer a crueldade que representa o fato de nunca ter disputado uma Copa do Mundo. Diferentemente, de outros jogadores, gênios como Ryan Giggs, que não possuíam uma seleção forte o suficiente para ser bem-sucedida em eliminatórias, o egípcio tinha boas chances. Mas não conseguiu.

Foto: AP
Selecionável desde 2001, viu sua esquadra ficar com a terceira posição do Grupo C das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002 – dois pontos atrás dos classificados senegaleses. Em 2006, novamente o Egito terminou em terceiro lugar, desta vez do Grupo 3, atrás de Camarões e da classificada Costa do Marfim. Aboutrika chegou a marcar três gols nessa disputa, vitimando Sudão, os marfinenses e Benin. 

Por fim, em 2010, a crueldade foi ainda maior. Após passar em primeiro no Grupo 12, o país avançou à segunda fase de grupos e, com campanha idêntica à da Argélia, teve que enfrentar a referida equipe em um jogo de desempate. Um gol marcado por Antar Yahia sentenciou o Egito a mais alguns anos de espera.

O craque egípcio até disputaria uma parte das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, mas deixou de ser convocado em 2013 (e o Egito voltou a decepcionar, não se classificando, novamente). 

Aboutrika iniciou a carreira no Tersana, de sua cidade natal, Giza, e a terminou no Baniyas Club, dos Emirados Árabes, na sua única aventura fora do Egito. Contudo, sua carreira é marcada mesmo pelos 10 anos em que foi bandeira do Al Ahly. Foram mais de 350 jogos e 150 gols. Ao lado de Mokthar El-Tetsh é o jogador que mais vezes marcou, por apenas um dos clubes, no Derby do Cairo, o flamejante Al Ahly e Zamalek, com 13 tentos.

Pela Seleção Egípcia, fez 105 jogos e marcou importantes 38 gols, que o tornam o terceiro maior artilheiro de seu país em todos os tempos. Em 2008, marcou o mais importante deles, o solitário tento que garantiu o título da Copa Africana de Nações, contra Camarões.

Não obstante, a idolatria por Aboutrika rompe as barreiras do futebol. Formado em filosofia, ficou famoso pelos vários trabalhos humanitários que realizou e também por ter sido um dos famosos que melhor simbolizou os desejos de seu povo na Revolução Egípcia de 2011, durante a famigerada Primavera Árabe. Tal fato inclusive lhe ocasionou problemas, posteriormente. No início de 2017, Mohamed foi colocado em uma lista de potenciais terroristas e impedido de deixar seu país. Em 2015, já tinha tido seus bens congelados, sob as suspeitas de financiar a Irmandade Muçulmana, sem que se tenha havido qualquer indício de procedência de tais alegações.

Foto: Getty Images


Também embaixador da ONU, Aboutrika usou de sua posição para dar voz a muitos que não a possuíam. Em 2008, aproveitou-se de um gol marcado para mostrar camisa em apoio ao povo da Faixa de Gaza; em 2012, quando se verificaram 74 mortes em uma partida do Campeonato Egípcio, foi um dos que clamou pela suspensão da competição, que acabou por ocorrer.

No Mundial de Clubes daquele ano, mais uma vez chamou atenção pela humanidade de sua fala: “estamos aqui para entreter as pessoas. Jogar aqui é algo importante por causa do que está acontecendo no Egito. Não há campeonato no Egito. O que aconteceu em Port Said e os mártires... Queremos vencer, queremos entreter”, disse em coletiva após a classificação às semifinais do certame.

Craque com a bola nos pés, Mohamed Aboutrika nem sempre recebe os créditos que merece. O que fez dentro e fora dos gramados é notável. O 10 que vestia a 22 e nunca disputou Copa do Mundo ou campeonato europeu foi um dos grandes de sua época. Brilhou por seu clube e seleção e usou sua posição para levar atenção a quem dela precisava. Mais que astro de futebol, Aboutrika se tornou exemplo.

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