sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O resgate do Porto por Sérgio Conceição

Um dos mais destacados jogadores portugueses de sua geração, de um tempo em que figuraram ícones como Luís Figo ou Rui Costa, Sérgio Conceição tomou o caminho dos bancos de reservas quando viu sua carreira de futebolista se encerrar. Depois de passar por equipes como a Académica, de Coimbra, e os rivais do Minho, Braga e Vitória de Guimarães, o treinador marcou sua trajetória com um grande trabalho de seis meses no Nantes. Na oportunidade, herdou um time próximo da zona de rebaixamento e o entregou apenas uma posição atrás da zona de classificação à Europa League. Assim recebeu a chance de sua vida: tentando fugir da sombra do Benfica, atual tetracampeão português, o Porto, clube que projetou Conceição enquanto atleta no cenário internacional, entregou-lhe a missão de fazer ressurgir os Dragões.



Início quase perfeito

Desde que Sérgio Conceição voltou a Porto, o torcedor não tem tido do que se queixar. Já transcorreram 10 rodadas do Campeonato Português e outras quatro da UEFA Champions League – além de partidas das copas locais. O desempenho do time dificilmente poderia ter sido melhor. Ainda que os Dragões tenham vendido seu mais valorizado jogador, André Silva, deixando partir também o promissor Rúben Neves e sem fazer grandes investimentos, o clube tem conseguido se reerguer. Na prática, os reforços acabaram por ser peças que retornaram de empréstimo.

O primeiro trabalho de Conceição foi convencer o atacante Vincent Aboubakar, vindo de ótima temporada cedido ao Besiktas (36J e 18G), a retornar ao Estádio do Dragão. Conseguiu e de plano conquistou um substituto para André. “Quem me motivou a vir foi o novo treinador, que me telefonou, incentivou-me, mostrou que queria muito contar comigo [...] Na verdade, não mudamos só de treinador, mudamos muitas outras coisas”, disse o camaronês no início de outubro ao Record.

Além do goleador, que já registra 11 tentos em seus primeiros 13 encontros nesse retorno, Sérgio Conceição recebeu retornados os atacantes Hernâni e Moussa Marega, ambos de boa campanha com o Vitória de Guimarães na última temporada (quarto lugar, chegando à Europa League). Voltaram também os amadurecidos zagueiro e volante Diego Reyes, do Espanyol, o lateral direito Ricardo Pereira, um dos destaques do Nice nas últimas duas temporadas, e o meio-campista Sérgio Oliveira – comandado por Conceição no Nantes em 2016/17.

Marega e Ricardo têm sido titulares e com muito destaque. O atacante malinês registra oito gols em 14 jogos e o lateral português, que disputa posição com o uruguaio Maxi Pereira, tem duas assistências em 10 encontros. Outrora dispensáveis, sob a batuta do novo treinador e velho conhecido da torcida portista, algumas figuras renasceram.

Com elas, ressurge também o Porto. O início no Campeonato Português é quase perfeito. Em 10 rodadas, tem nove vitórias e um empate contra o rival e concorrente direto Sporting CP (fora de casa). Tem o melhor ataque (28 gols marcados) e a defesa menos vazada (quatro sofridos).  Na Champions, foi sorteado para um grupo equilibradíssimo. Dividindo-o com Besiktas, RB Leipzig e Monaco, vem obtendo destaque. Em quatro jogos, tem duas vitórias e duas derrotas. Perdeu em casa para os turcos e fora para os alemães. Na contramão, engoliu o Monaco no Principado, impositivo 3 a 0, e se bateu Leipzig em casa, 3 a 1. Tem todas as possibilidades de avançar às oitavas de finais.

Consolidação de alguns jogadores

Além de recuperar alguns atletas outrora “dispensáveis”, Sérgio Conceição vem conseguindo extrair o melhor de outras figuras que já estavam no elenco e que muitas vezes foram criticadas por apresentar alguma inconsistência em suas exibições. Talento à parte, Yacine Brahimi e Jesús Corona, por exemplo, nunca foram jogadores em quem se pôde confiar para decidir jogos em momentos difíceis. Além disso, careciam da capacidade de entregar melhor contribuição na fase defensiva.

Hoje, muitas vezes o Porto tem atuado no esquema tático 4-4-2, com Aboubakar e Marega isolados. Assim, tem vindo a ser fundamental a capacidade de Brahimi e Corona de fechar a segunda linha de quatro homens quando o time é atacado. Na esquerda, o argelino tem se associado muito bem com Alex Telles; na direita, o mexicano tem feito o mesmo com Ricardo. É possível provar isso: Brahimi tem média de 1,2 desarmes por jogo no Campeonato Português e 2,3 na UEFA Champions League; Corona 2,3 e 1,5, respectivamente.

“Às vezes as pessoas pensam que ter mais um meio-campista é melhor para o equilíbrio da equipe, mas importante é a ocupação dos espaços”, disse o treinador em entrevista coletiva após a vitória frente ao RB Leipzig.

Para se ter ideia do que isso representa, o principal volante da equipe e, possivelmente, seu jogador mais importante, Danilo Pereira, apresenta médias de 2,2 em solo doméstico e 2,8 na competição continental. Se tal desempenho não é novidade, o de Héctor Herrera, o novo capitão do time, é. Depois de começar a temporada no banco de reservas, ressurgiu e assumiu protagonismo. Dinâmico, assumiu lugar ao lado de Danilo, fazendo um double pivote. De reserva à capitão, foi o responsável, inclusive, por abrir o placar na partida de volta contra o Leipzig.

Mais atrás, Felipe e Iván Marcano seguem a mesma toada da temporada passada, seguros. Sérgio Conceição conseguiu, todavia, fazer com que, coletivamente, o escrete portista atue de forma mais compacta, com saída em velocidade pelos flancos e profundidade a partir do uso de dois atacantes de ofício, mas com velocidade o suficiente para acompanhar o ritmo do time e pressionar a saída de bola dos adversários.

Superando polêmica no gol

Outra missão dura que vem sendo enfrentada nas últimas rodadas por Sérgio Conceição, e que tem gerado polêmica, é a troca feita na defesa da meta dos Dragões.

O experiente Iker Casillas deu lugar ao jovem português José Sá, de extenso currículo nas equipes de base da seleção de seu país. A imprensa, quase em coro único, tem entendido que o espanhol vive bom momento e que o lusitano ainda não está em seu nível. No entanto, o treinador garantiu que a mudança se tratou de questão técnica e tem sustentado a opção. Enquanto os resultados seguem vindo, tem sido difícil apontar dedos à alternativa escolhida.

Parte da imprensa local disse que a troca adveio de problema disciplinar de Iker, o que Sérgio também negou com veemência: “o Casillas tem tido um comportamento irrepreensível. Escreveu-se que era um problema disciplinar? Isso é ridículo. Se fosse um problema disciplinar, ele nem estava nos convocados”, revelou antes do encontro frente ao Paços de Ferreira.

Com resultados e consistência dentro das quatro linhas, Sérgio Conceição vai dominando seu elenco, fazendo o torcedor portista sonhar com o fim da hegemonia do Benfica e com títulos – mesmo porque os Encarnados não têm tido uma temporada fácil. Como tudo em Portugal se centra ao que ocorre em torno do trio de potências, quando se fala de futebol, sempre nascem polêmicas, como a da escolha do arqueiro titular dos Dragões. No entanto, enquanto as vitórias seguirem sendo obtidas, não se torna útil a discussão acerca de problemas internos, pois mesmo que existam (e, repise-se, não há muitos indícios nesse sentido) a consciência coletiva de um compromisso com os resultados tem sido mais forte.

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