sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Oleg Salenko, o artilheiro perdido

Quantos jogadores, na história do futebol, conseguiram a proeza de marcar cinco gols em uma só partida? A despeito da falta de números absolutos, é possível dizer que são poucos. Quando o assunto são as Copas do Mundo, sim, tem-se os dados, que revelam que cinco bolas nas redes em um mesmo jogo, ainda hoje, são façanha de um só homem: Oleg Salenko, um jogador que após seu máximo êxito foi, aos poucos, caindo no esquecimento.


Foto: Getty Images

Recorde absoluto em contexto difícil

A Copa do Mundo de 1994 foi a primeira que a Rússia disputou após o fim da União Soviética. Aliás, com a dissolução da supernação aquela foi também a primeira competição oficial disputada pelo país. A esquadra, comandada por Pavel Sadyrin, tinha a missão de mostrar força em um tempo de reafirmação nacional. Em um grupo difícil, não conseguiu, mas deixou marca eterna, pois em seu ataque tinha Salenko.

Os russos enfrentaram Camarões, surpresa no Mundial de 1990, em que chegou às quartas de finais, e os tradicionais Brasil e Suécia, que logo se consagrariam campeão e terceira colocada do certame. Perderam para brasileiros e suecos, mas bateram os camaroneses. Ficaram com a terceira posição e a artilharia do certame. Como? Isso mesmo, Salenko se confirmou o primeiro e até os dias atuais único atleta de todos os tempos a receber o prêmio Golden Boot representando uma nação que sequer avançou de fase.


O tento de consolação contra os escandinavos, somado aos impressionantes e imparáveis cinco contra o time de Roger Milla, transformou Salenko em um personagem único na história do futebol. De sua glória máxima viria sucesso maior ainda, afinal o jogador tinha apenas 24 anos na ocasião, correto? Nada mais distante da realidade. Os sucessos da juventude, obtidos com as camisas de Zenit e Dynamo Kyiv, em sua terra, e com a do Logroñés, na Espanha, não se tornaram uma constante.

O artilheiro ascendente havia sido decisivo em 1993/94 para evitar o descenso de seu clube no Campeonato Espanhol - marcara 16 dos 47 tentos do Logroñés (o que inclui gol importante em empate contra o Barcelona de Johan Cruyff, em pleno Camp Nou). Esse feito, somado ao brilho no Mundial estadunidense levaram o Valencia, último sétimo colocado de La Liga, a buscar o talento e os gols de Salenko. É bem verdade que o atacante possuía também, em seu currículo, um Campeonato Soviético, uma Copa da URSS e a artilharia do Mundial Sub-20 de 1989, mas foram os feitos mais recentes que levaram os Che à procura dos gols de Oleg.

Oportunidades, insucessos e lesões

Apesar disso, em termos mundiais, o que aconteceu entre o início da temporada europeia de 1993 e o fim da Copa do Mundo de 1994 acabou se confirmando como os 15 minutos de fama do russo. A ida ao Valencia não foi proveitosa como se poderia esperar. Em grande medida, isso ocorreu porque no próprio Mestalla as coisas não iam bem. As esperanças, com a chegada do tetracampeão Carlos Alberto Parreira, tornaram-se rápida decepção.

Com o brasileiro no banco de reservas, os Che não passaram de um péssimo 10º lugar em 1994/95. Ainda que tenha acompanhado o iugoslavo Predrag Mijatovic no ataque, com a dupla a marcar 19 tentos na campanha (12 de Mijatovic e sete de Salenko), as expectativas altas não foram cumpridas. Oleg não conseguiu sequer ser o vice-artilheiro da esquadra, posto que coube a Lyuboslav Penev (nove gols). O fracasso no Valencia, levou o russo à Escócia no ano seguinte, onde representou o Rangers.

Foto: Jeff Holmes
Embora chegasse ao time mais dominador do solo escocês (Salenko chegou em um contexto em que o Rangers era heptacampeão nacional), a passagem por Glasgow  não foi boa e durou meia temporada, apenas. Já chegara ao novo clube sofrendo com lesões e logo foi trocado pelo holandês Peter van Vossen, partindo para o futebol turco, para defender o Istanbulspor. É bem verdade que não se adaptou ao futebol escocês e sua personalidade pode ter tornado a situação mais difícil.

“Só assinei porque acreditava que eles [o Rangers] tinham chances de vencer a Champions League. Mas isso [a Liga Escocesa] era muito chata. Os padrões eram muito baixos, especialmente quando comparados aos da Espanha. O que tornou isso ainda pior foi o fato de que você tinha que enfrentar os mesmos times quatro vezes. Os únicos jogos que eram interessantes eram as partidas contra o Celtic - essas eram uma batalha de vida ou morte”, relatou ao The Herald, em 2014.

Os problemas físicos, todavia, perseguiram Salenko. A primeira temporada na Turquia foi de luta contra o rebaixamento. Já na segunda seu time conseguiu se classificar à disputa da Copa Intertoto e na terceira à Copa da UEFA. Porém, Oleg teve pouco a ver com isso. Quase não jogou e em 1999 voltou à Espanha, assinando com o modesto Córdoba, então na segunda divisão. Fez três jogos e em 2000 marchou para o Pogoń, da Polônia. Não tinha condições de atuar profissionalmente e no ano seguinte pendurou as chuteiras. Tinha 31 anos.

E a Seleção?

Foto: Twitter @eldeportereyweb
O jogador que estreou em nível de seleções com a camisa da União Soviética, no sub-20, chegou a envergar a camisa da Ucrânia em uma ocasião e brilhou com o mando russo em 1994 não teve continuidade também representando seu país.

Após a Copa do Mundo de 1994, Sadyrin foi trocado por Oleg Romantsev. Este, nas palavras que Salenko conferiu à revista Four Four Two, “não gostou do fato de que eu tinha uma reputação maior do que ele. Ele preferia jogadores que conhecia, então começou a me deixar de lado. Quando Boris Ignatyev assumiu, em 1996, eu está tendo problemas de lesões”.

O fato é que, após a Copa do Mundo de 1994, Salenko nunca mais foi chamado à defesa das cores de seu país.

Em seu momento mais áureo, perdeu espaço por conta de diferenças pessoais; quando essas já não eram problema, Oleg já não era mais o mesmo. Ele não chegou a ser um andarilho ou um fracasso completo, mas não cumpriu as expectativas, ainda que parte disso se deva a fatores exteriores às suas capacidades e desempenho individual. Ainda assim, dificilmente o russo será esquecido. Sua proeza de 94 é das primeiras lembranças que qualquer amante do futebol reconhece ao pensar na Seleção Russa. Embora não tenham sido muitos, seus 15 minutos de fama parecem ecoar pela eternidade.

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