segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Michel Platini, o nome que resumiu a Euro 1984

O futebol francês tem uma relação histórica com as individualidades. As primeiras referências remetem aos nomes de Raymond Kopa e Just Fontaine, enquanto as mais recentes elencam jogadores como Zinédine Zidane e Thierry Henry. Cada um desses gênios é lembrado por algum motivo, seja ele os seus feitos ou a distinção técnica. Nesse sentido, não há como não mencionar Michel Platini. Campeão por onde passou e dotado de inata liderança, o craque conduziu uma geração especial ao primeiro título da história de seu país. Foi, como poucos na história do futebol, protagonista.


Foto: Henri Szwarc/Reporters


Essa é uma história de continuidade. Em 1982, a França havia conquistado sua segunda melhor participação em uma competição internacional. Desde o terceiro lugar obtido na Copa do Mundo de 1958, Les Bleus não mostravam tanta força. Contudo, na Copa do Mundo disputada na Espanha, o país mostrara do que era capaz: terminara a competição na quarta colocação, mas fizera uma semifinal soberba. Contra a Alemanha, empatara no tempo regulamentar por 1 a 1, chegara a obter a virada e esteve à frente em dois momentos. Porém, o três a três e as consequentes penalidades máximas tiraram os franceses da disputa.

A base de 1984 era a mesma de dois anos antes e possuía ainda o mesmo craque e capitão: ele, Platini. O camisa 10 vivia a melhor forma de sua carreira. Chegara à Euro 1984 carregando o título e a artilharia do Campeonato Italiano de 1983/84. Marcara 20 gols e viria a conquistar a Copa dos Campeões da Europa no ano seguinte. Estava chegando aos 30 anos e alcançara a maturidade enquanto atleta. Porém, o cenário da disputa, a própria França, oferecia uma dualidade: por um lado, significava ter sempre superioridade nas arquibancadas e muito apoio; por outro, aumentava a pressão pela obtenção de uma glória – algo até então inalcançado.

Obviamente, tratando-se da equipe anfitriã, a França não disputou as eliminatórias para o certame, chegando a ele já para a disputa da fase de grupos. Naquela época, o torneio era ainda mais acirrado do que em tempos hodiernos. Isso porque eram apenas oito as equipes disputantes. Diante disso, Les Bleus compartiram o Grupo 1 com três equipes fortes: Bélgica, Dinamarca e Iugoslávia.

Foto: Getty Images
Apesar disso, desde o primeiro momento não teve para ninguém; inexistiu qualquer estrela capaz de ameaçar o brilho do detentor do prêmio Ballon d’Or de então. Platini estava on fire e com ele sua seleção. Em três jogos, os donos da casa marcaram nove gols e sofreram apenas dois. Sozinho, o líder soberano da França somara sete tentos – um, o único, contra a Dinamarca e dois hat-tricks nos outros jogos. Os escandinavos até fizeram bonito e repetiriam o bom desempenho na Copa do Mundo de 1986, mas a Euro 84 era da França, pertencia a Platini.

Valeram gols de pé direito e esquerdo, de pênalti e de falta, com a cabeça e de peixinho. Não parecia haver obstáculo capaz de parar o camisa 10 e capitão. Até mesmo a sorte caminhava ao lado do astro, como ficará evidente a seguir.

Poucos campeonatos ou títulos podem ser tão individualizados como foi aquele torneio europeu. Nunca antes alguém havia marcado tantos gols em uma edição da Euro e, mesmo com o aumento no número de equipes disputantes, nenhum outro personagem voltou a o fazer. O que Platini alcançou teve proporções épicas. Em toda a história, apenas Cristiano Ronaldo alcançou sua marca, tendo, para tanto, que disputar quatro edições da competição, contra uma do francês.

Diante do fulgurante desempenho de Michel, a França avançou às semifinais com a liderança de seu grupo e melhor campanha da competição na primeira fase. Com isso, enfrentou o segundo colocado do Grupo 2, Portugal. Les Bleus esbarraram na partida iluminada de Rui Jordão, em ocasião que parecia que não teria a marca de Platini. Só parecia.

Jean-François Domergue abrira o placar para a França, ainda no primeiro tempo, mas Jordão assinou o empate lusitano. Até parecia que a partida se transformaria em um duelo particular dos protagonistas de então. Isso porque o atacante da Seleção das Quinas virou o placar, marcando seu segundo gol, já na prorrogação. Mal sabia ele que a missão de Domergue na partida não estava finalizada, tendo ele equalizado novamente o placar, seis minutos antes do apito final. Naquela altura, tudo levava a crer que só as penalidades máximas poderiam ser o desfecho da partida. No entanto, naquela competição não era possível limitar as expectativas ao ordinário, pois Platini superava a cada jogo as barreiras do comum.

“[A Euro 1984] foi o único torneio internacional em que eu não estava lesionado. Em 1982, eu estava lesionado – tinha um problema na virilha – e em 1986 eu estava lesionado – com um problema no nervo. Em 1984, eu não estava machucado e estava apto para jogar no meu limite”, disse Platini ao site da UEFA, em 2016.

Ele, o 10, o craque, o líder recebeu a bola de outro jogador extraordinário, Jean Tigana, que foi à linha de fundo portuguesa, pelo lado direito, e cumprimentou as redes do goleiro Manuel Bento. Faltava um minuto para o fim da partida: a França estava na final, algo que nunca conseguira.

Foto: Reuters
Na decisão, Les Bleus tiveram pela frente a Seleção Espanhola. E a sorte (lembram-se dela?) lhes bateu à porta. Era decorrido o minuto 57 quando foi assinalada uma falta para a França. Obviamente, Platini foi para a cobrança: bateu. Quando a bola parecia em segurança, guardada nas mãos do goleiro e capitão da Fúria, Luis Arconada, ela acabou por escapulir e abrir o placar da partida. Esse placar foi sustentado até os acréscimos do segundo tempo, quando o atacante Bruno Bellone confirmou o primeiro título francês, fazendo o 2 a 0.

A França que disputou a Euro 1984 poderia ser eternamente lembrada como um time de craques, o que seria justo. Um meio-campo que conta com um trio da qualidade de Luis Fernández, Alain Giresse e Tigana impunha respeito, aliás, somando-se Platini, o setor tinha até alcunha: Le Carré Magique, o quadrado mágico.

Entretanto, a estrela individual de Platini era tanta, seu desempenho tão fora da curva, que não houve forma de dissociar a glória francesa de seu nome. Coube a ele a missão de liderar a França, era o capitão; ele tambémera o responsável por construir o jogo de sua equipe, o 10. Não se podia supor, no entanto, que além disso ele seria um goleador tão prolífico, um recordista. Não foi à toa que renovou o Ballon d’Or ao final de 84 – e de novo em 1985. Platini estava imparável.


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