quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Um Dortmund sem identidade

Quando ressurgiu no cenário internacional, o Borussia Dortmund era treinado por Jürgen Klopp e seu jogo tinha feições muito próprias. O famigerado Gegenpressing estava ali em alta, em um time que contava com a juventude de peças como Mats Hummels, Nuri Sahin e Mario Götze. Aquela equipe ficou caracterizada pela forma intensa como pressionava seus adversários, evitava seus contra-ataques e os apanhava em seus próprios e fatais contragolpes. 


Foto: TF-Images/Getty Images

Esse estilo foi sendo modificado, com a implementação do jogo de posição proposto por Thomas Tuchel, o sucessor de Klopp e que era apontado como a alternativa ideal para aperfeiçoar o trabalho pretérito. Porém, embora tenha conseguido propor variações que inexistiam com seu predecessor, ele se desgastou internamente e deixou o clube. A ideia de Klopp terminou de ser deixada de lado na gestão fracassada de Peter Bosz, que fez o time perder sua eletricidade e gastar a bola de forma pouco objetiva. Agora, a aposta em Peter Stöger demonstra que o clube está sem direção e procurou um nome para apagar o incêndio que se alastrou pelo Signal Iduna Park. 

No início da temporada 2017/18, tudo parecia indicar que os aurinegros haviam feito a aposta perfeita quando foram a Amsterdã convencer Bosz a deixar o Ajax e partir para Dortmund. Isso porque, dos seus sete primeiros jogos, venceu seis, obtendo um saldo de gols de +24. Entretanto, rapidamente os adversários do time do Vale do Rühr entenderam a forma de o neutralizar. Forçando o clube a sair jogando com sua primeira linha defensiva, sem o auxílio de um meio-campista, os rivais aurinegros fizeram com que o time ficasse sem saída. Podia ter a bola que nada conseguia produzir.

Foto: Imago/Rene Schulz


Muitas vezes criticado também por algumas escolhas frequentes – como a opção por Gonzalo Castro – Bosz foi cavando, aos poucos, a própria cova. Seu time, previsível, começou a cair pelas tabelas. Hoje, é apenas o sexto colocado na Bundesliga e foi eliminado da disputa da UEFA Champions League (resta a Europa League no horizonte). O tradicional esquema tático 4-3-3, da forma como foi executado, mostrou-se demasiado rudimentar e carente de possibilidades para o futebol do mais alto nível. Em menos de seis meses, toda a eletricidade de Tuchel e Klopp se acabou e o holandês perdeu o emprego. 

Diante desse quadro, pende uma dúvida: a direção do Borussia Dortmund conhecia o estilo de jogo de Bosz ou apostou apenas em seu retrospecto recente (em 2016/17 foi vice-campeão da Europa League)? Independentemente da resposta, há uma certeza: jogados às traças, os aurinegros não têm mais identidade. E o questionamento atual diz respeito às ideias de Stöger, o nome escolhido para suceder Bosz. 

Foto: Lintao Zhang/Getty Images
É impossível duvidar do fato de que o trabalho do austríaco à frente do Colônia foi muito positivo. Foi sob sua direção que o time retornou da segunda divisão, em 2013/14, evitou o rebaixamento em 2014/15, terminou na parte de cima da tabela em 2015/16, e se classificou à Europa League em 2016/17. Nota-se, pois, importante escalada. No entanto, as aspirações de seu clube anterior não se assemelham às do Dortmund. Para este, a classificação às competições europeias não passa de obrigação; a luta verdadeira precisa ser pelo título, que, após retomada importante no início da década, não chega desde 2011/12 e não virá em 2017/18. 

É óbvio que, a princípio, a única missão de Stöger é evitar que a temporada se torne ainda mais fracassada. Além disso, ao contrário do que se verificava com Klopp e Tuchel, que brilharam no Mainz antes de chegar ao Signal Iduna Park, os feitos de Peter no Colônia não o credenciam como uma boa aposta. Na última temporada, conseguiu que seu time fosse coeso e teve em Anthony Modeste um artilheiro implacável. Mas aquela era uma proposta carente de ideias, embora equilibrada (o time perdeu poucas vezes, mas foi o segundo que mais empatou na Bundesliga). Em geral, jogou sempre no esquema tático 4-4-2, com duas linhas de quatro bem estruturadas e aposta em bolas despejadas na direção de seu centroavante - não muito mais do que isso. 

Em 2016/17, o Colônia foi o terceiro time que menos chutes, em média, ofereceu por partida; foi também o terceiro que menos tempo conservou a posse de bola e, em razão da procura constante por Modeste, acabou ficando com o terceiro lugar na estatística de impedimentos por jogo. Em compensação, foi o quinto que mais desarmes obteve, com média de 20 a cada encontro. Em suma, o clube se mostrou encaixado e com um modelo de jogo bem definido e adequado para suas pretensões. Contudo, isso tudo é muito pouco diante das aspirações aurinegras. 

Foto: Herbert Bucco
Talvez a recuperação do Dortmund até passe por uma reestruturação mais básica, mas a longo prazo este se mostra um plano muito pouco ambicioso. É claro também que Stöger tem contrato apenas até o final da presente temporada, o que denota que a direção aurinegra acusou o golpe: destruiu sua identidade e não pode remontá-la no curso do ano. Ainda assim, necessita obter melhores resultados.

Se o comandante contratado sofreu no início dessa campanha, perecendo sem Modeste, que partiu para o futebol chinês, e deixando o Colônia na lanterna da Bundesliga, ao menos pode agora contar com Pierre-Emerick Aubameyang. Mas, a despeito de seu histórico, esse também não tem sido sombra do goleador de outrora. 

Parece evidente que Stöger é somente um bombeiro, que não vem para marcar território, mas buscará devolver a confiança a alguns jogadores e recolocar o Dortmund no caminho das vitórias. Não lutará pelo título alemão, já vendo o Bayern de Munique 13 pontos adiante, mas tem na Europa League uma possibilidade. Para já, o clube pode ter encontrado uma solução, a qual parece ter prazo de validade. No entanto, até isso é difícil prever, pois não se sabe o que o treinador poderá oferecer com um elenco de melhor qualidade nas mãos. Certo é que o time vai ter que buscar uma nova identidade, entretanto, o mais provável é que isso só ocorra em 2018/19.

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