terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A obscura e violenta morte de Lutz Eigendorf

Era 05 de março de 1983 quando um acidente de carro, aparentemente causado por excesso de velocidade combinado com a ingestão de bebida alcoólica, ocasionou a morte de um jogador de futebol em Braunschweig, na Alemanha. À época, suspeitava-se, mas não havia indícios suficientes, de que o passamento de Lutz Eigendorf não teria sido obra de sua própria imprudência. O ex-meia havia, sim, consumido álcool, mas não se embriagara - testemunhas que o viram em um bar naquela noite confirmam. O choque com uma árvore não fora obra do acaso ou de entorpecimento. O atleta desertara da Alemanha Oriental após um amistoso em 1979 e a STASI, a polícia secreta da DDR, não perdoou a “traição”.


Foto: dpa









Eigendorf era um meio-campista com algum talento. Já aos 22 anos, então jogador do Dynamo Berlin, passou a representar a seleção da Alemanha Oriental. Porém, a vida não era fácil no lado leste germânico e era especulado (senão sabido) que as condições de vida no oeste eram bem melhores. Quando o assunto era o futebol, não havia dúvidas. Já ali a Alemanha Ocidental conquistara dois Mundiais e seus clubes haviam levantado títulos continentais. Assim, após um amistoso contra o Kaiserslautern, o jogador se aproveitou de uma parada feita no caminho de volta a Berlim, pegou um táxi e permaneceu no ocidente.


Logo, passado um período de banimento imposto pela UEFA por ter abandonado seu clube (uma punição de caráter meramente desportivo), firmou contrato justamente com o Kaiserslautern e passou a disputar a Bundesliga. Permaneceu nos Diabos Vermelhos por três temporadas e havia se transferido para o Eintracht Braunschweig pouco antes do evento fatal. Ao todo, fez 61 jogos na Bundesliga. Suas qualidades podiam até ter menos distinção na Alemanha Ocidental, mas para alguém que disputava a precária Oberliga, atuar com regularidade na Bundesliga era muito melhor.

Foto: Getty Images
O futebol na Alemanha Oriental era mais um microcosmo de um universo marcado por dificuldades e exílio; uma verdadeira realidade monocromática. Inserida nesse contexto estava a corrupção. As pessoas não possuíam um arbítrio muito livre e tudo girava conforme as intenções dos entes estatais. Um dos privilégios que o cidadão comum não possuía era justamente o direito de transitar entre os dois lados da nação dividida. Porém, o futebolista podia, afinal, isolamento de lado, os países do bloco socialista continuaram disputando as competições internacionais e, eventualmente, partidas amistosas.

Não deve ter sido propriamente difícil armar o acidente que vitimou Eigendorf. E certamente os prováveis assassinos entendiam que possuíam motivos razoáveis para fazê-lo. O jogador não só desafiara o governo, mas também deixara o Dynamo Berlin. Abandonara, pois, o time que se tornaria o maior campeão do campeonato nacional, em todos os tempos - o que também não ocorreu por acaso, contando com algumas mãozinhas de uma certa instituição de motivações de caráter duvidoso, a STASI. Reza a lenda que o líder da polícia secreta da Alemanha Oriental, Erich Mielke, era um fervoroso torcedor do clube, para além de dirigente.

Lutz era um traidor da pátria e um pária, que abandonara suas funções junto a seu clube. A primeira tentativa de arruinar a vida do atleta foi forçar seu divórcio e, após a separação, com sua esposa já unida a um membro da perversa corporação, promover a adoção de sua filha pelo padrasto. O “acidente” fatal acabou o serviço. No entanto, foi tratado como um infortúnio, uma mera desgraça. 

Após a queda do Muro de Berlim, todavia, um grupo de jornalistas investigou os arquivos da STASI e conclui pela existência de um plano de morte. Não há, de fato, provas definitivas. Porém, como apontam diversas fontes, dentre as quais se destaca a DW, as circunstâncias são reveladoras: há um documento que indica ter o atleta sido drogado antes de retornar ao volante. Acaso? Também há indícios de que não foi feita extensiva perícia no veículo e, tampouco, autópsia conclusiva. Não obstante, descobriu-se que havia uma “comitiva” de agentes secretos que não deixava o seu encalço um minuto sequer (um deles, inclusive, forjou-se seu amigo).

Foto: dpa

Em tempos de Guerra Fria, assassinatos mal esclarecidos foram comuns. A violência marcou essa época, que é também lembrada pelo poder quase infinito de instituições secretas, muitas das vezes ligadas às polícias e exércitos. Eigendorf foi corajoso e, em certa medida, tolo - nem tanto por ter corrido riscos conhecidos, mas por ter se permitido sonhar em um período em que a dureza da realidade não permitia tal faculdade; mas ele queria uma vida nova, procurava jogar futebol de alto nível. 

Mais tarde, em 2008, um certo Karl-Heinz Felgner acabou preso na Alemanha e confessou que, nos anos 80, tinha em Eigendorf um alvo; possuía ordem de matar. Ou seja: embora não se tenha certeza absoluta de que a morte, em si, não foi obra dos descuidos de Lutz, há razões suficientes para pensar que, mesmo que não se acidentasse, não duraria muito tempo nesse plano. Assim, o atleta passou à história. Poderia ser lembrado por seu futebol, por conquistas e glórias, mas nunca será esquecido pela violência de sua morte e a obscuridade que marcou a investigação de seu sinistro final.

*Atualizado às 16h24 (GMT +00:00).

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