quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Os anos dourados do Anderlecht

Em tempos posteriores ao desfecho do famoso “Caso Bosman”, é difícil imaginar um contexto de emergência de novas superpotências no futebol. Excetuados os casos em que há injeção brutal de dinheiro por algum investidor, existe uma tendência de que os clubes mais ricos e estruturados se mantenham como tal e que aqueles de menor poderio financeiro, por melhor que seja seu planejamento, lutem apenas por algumas temporadas esporádicas de sucesso. Assim, times holandeses, portugueses, franceses e outros, de países de ainda menor cultura futebolística, perderam espaço no cenário do futebol europeu. Contudo, nem sempre foi assim. Houve um tempo em que o Steaua Bucareste, o Celtic ou o Estrela Vermelha conseguiam lutar por glórias continentais. Nesse período, vindo da Bélgica, o Anderlecht viveu grandes dias.


Foto: Desconhecido


Dentre as várias máximas ou jargões populares no mundo da bola, talvez um dos que mais se mostre verdadeiro, com casos que comprovam sua aplicabilidade, seja o de que os rivais se puxam uns aos outros. Não raro, os momentos de crise de um se refletem em seu antagonista, sendo o contrário, referente aos bons momentos, também verdadeiro. Nesse sentido, os anos 70 foram fundamentais para o estabelecimento do futebol belga. Nesse período, Club Brugge e Anderlecht chegaram ao topo na Europa.

Até a temporada 1982/83, o maior êxito futebolístico ao nível dos clubes da terra dos Waffles havia sido o vice-campeonato da Copa dos Campeões, em 1977/78. Na oportunidade, o Brugge perdeu a finalíssima para o Liverpool, com gol do King, Kenny Dalglish. Eram tempos de sucesso do futebol nos Países Baixos e os flamengos eram treinados por Ernst Happel, campeão europeu em 1970, com o Feyenoord. Porém, já ali o Anderlecht havia conquistado duas Recopas Europeias e, na sequência, uma dupla de Supercopas da UEFA. Em solo doméstico, as honras também ficavam repartidas entre os dois times, com algumas intromissões do Standard Liège.

As primeiras glórias e a imposição contra gigantes

No entanto, não foram só técnicos vitoriosos que acabaram seduzidos pelo promissor e crescente futebol belga. As equipes vencedoras do Anderlecht, em meados da década de 70, contavam com astros. Ex-Ajax e titular da Seleção Holandesa mais impressionante de todos os tempos, a de 1974, Arie Haan representava os Mauves et Blancs, assim como o maior destaque da Oranje no Mundial de 78, Rob Rensenbrink.

Foto: Football Magazine
Entre a segunda metade da década de 70 e a primeira de 80, o Anderlecht mostrou força contra os maiores da Europa. Na Recopa de 1976, a disputa até não foi tão dura, perpassando Rapid Bucareste, Borac Banja Luka, Wrexham e Sachsenring Zwickau antes do West Ham, na final. Entretanto, em 1978, a parada foi mais pesada. Depois de passar fácil pelo Lokomotiv Sofia, o clube suou para eliminar o Hamburgo, de Kevin Keegan e Felix Magath, o Porto e o Twente, dos selecionáveis Arnold Mühren e Frans Thijssen (que fariam sucesso na Inglaterra). Tudo isso para se superiorizar ao Austria Vienna na finalíssima.

Ainda assim, a prova maior de que o Anderlecht tinha um escrete poderoso foram as disputas da Supercopa da UEFA. Em 1976, os belgas até perderam a partida de ida por 2 a 1, mas na volta foram impetuosos, alcançando o título com uma goleada de 4 a 1. O adversário? O Bayern de Munique tricampeão da Copa dos Campeões da UEFA, de Franz Beckenbauer, Sepp Maier, Gerd Müller e companhia. Sempre decisivo, Rensenbrink anotou dois tentos nos bávaros.

Em 1978, a vitória foi mais apertada, mas teve ainda um sabor melhor. Como mencionado, o Liverpool vencera o Club Brugge na final da principal competição do continente. Contudo, os Reds não foram páreo para os Mauves et Blancs na Supercopa. Em Bruxelas, o brilhante goleiro Ray Clemence foi batido três vezes, subjugado por Franky Vercauteren, Van der Elst e Rensenbrink. Jimmy Case até marcou um gol, deixando a final em aberto. Em Anfield Road, todavia, a vitória inglesa pela margem mínima de 2 a 1 não foi suficiente para evitar o bicampeonato roxo e branco. Em 1978, Bruxelas comemorou duas vezes: o insucesso do Club Brugge e o êxito do Anderlecht.

Naquela altura, o clube era comandado por Raymond Goethals, o treinador que comandara a Bélgica ao terceiro lugar na Eurocopa de 1972 e que seria, até os dias atuais, o único belga a ter conquistado a Copa dos Campeões, liderando o Olympique de Marseille, em 1992/93. Voltemos, porém, aos anos 70 e 80. Ali, devia ser especialmente bom torcer para o Anderlecht, que jogava um futebol atraente, competitivo e vitorioso.

Troca de influências: sai o carrossel, entra a máquina

Foto: BT
O império de Rensenbrink durou até 1980, quando o astro holandês partiu para uma empreitada no incipiente futebol norte-americano. Acabava um ciclo, mas não cessaram os bons fluídos bruxeleses. Se antes os belgas contaram com astros da era mais mágica da Holanda, nos anos 80 foram os fabulosos dinamarqueses que deram as caras. Em 1979 veio o primeiro de vários: Kenneth Brylle, atacante que marcaria um dos gols mais importantes da história do clube.

No ano seguinte, desembarcou o escandinavo de maior destaque: Morten Olsen. Um dos mais importantes líberos da história do futebol, era o comandante das ações dos Mauves et Blancs. Em 1982, chegaram o lateral Henrik Andersen e o meia Per Frimann, e, em 1983, outro astro: Frank Arnesen. Além dos dinamarqueses, outro jogador marcante que passou pela capital belga foi o espanhol Juan Lozano, que em 83 deixaria a equipe para representar a alva camisa do Real Madrid. Assim, era possível imaginar a continuidade da senda de vitórias, o que aconteceu.

Na campanha de 1980/81, o Anderlecht venceu o Campeonato Belga e, embora só tenha voltado a o fazer em 1984/85, viveu dois anos mágicos nesse ínterim, consumando a maior conquista de sua história. Em 1982/83, havia sido vice-campeões nacionais, classificando-se para a disputa da Copa da UEFA. Evidentemente, não se tratava de uma glória o segundo lugar belga, mas a chegada à dita competição continental ampliava o horizonte do time.

A cereja do bolo: título inapelável

Foi assim que começou a caminhada para mais uma vitória roxa e branca. O primeiro passo foi simples: fácil passagem pelos finlandeses do KPT Kuopio, 6 a 1, no placar agregado. Na sequência, o somatório das mãos da segunda fase também sinalizou seis gols para os belgas, mas, dessa vez, foram concedidos três tentos. O adversário? Novamente o Porto. Freguês? Naquela época, sim. Na Bélgica, o Anderlecht chegou a vencer por 4 a 0.

Na terceira fase, o clube voltou a passear. Dessa vez, vitimou os iugoslavos do Sarajevo: 6 a 2 no combinado dos dois encontros. Detalhe: aquele time contava com um grande craque, Safet Susic, astro histórico do Paris Saint-Germain. Veio, então, o Valencia, que ainda tinha em seus quadros a estrela de Mario Kempes. Avassaladores, os bruxelenses venceram em casa e fora: avançaram às semifinais, com um 5 a 2 no somatório. Na última fase antes da final, o Anderlecht reafirmou sua força, vencendo os tchecos do Bohemians, 1 a 0 fora e 3 a 1 em casa.


Porém, nas finais o desafio seria mais espinhoso. Primeiro, porque se tratavam dos jogos mais decisivos, cercados por mais tensão, e, segundo, em razão de o adversário ser o Benfica. O histórico esquadrão de Eusébio contava com a classe de Fernando Chalana, o Asterix de Lisboa, ou Chalanix, para a torcida encarnada. Foi aí que entrou a estrela de Brylle. Em Heysel, coube ao camisa 9, de cabeça, garantir a vantagem marginal que se provou fundamental para o inédito título que viria a seguir. Os Mauves et Blancs venceram a partida de ida por 1 a 0. No Estádio da Luz, o empate por 1 a 1 elevou o clube ao lugar mais alto no pódio. Depois de Sheu inaugurar o marcador para as Águias, Lozano, como Brylle, testou a bola para o fundo das redes. O Anderlecht vencia a Copa da UEFA.

Os últimos capítulos

Foto: Allsport UK
Essa história ainda teria mais um capítulo importante. No ano seguinte, de volta à competição conquistada, o Anderlecht, já com Arnesen em seu elenco, voltou a ser finalista, mas dessa vez perdeu para o Tottenham.

Derrota à parte, consolidava-se um período de glórias para os belgas. Nem o obscuro, decisivo e assumido pagamento de £27.000 libras ao árbitro Emilio Guruceta Muro, responsável pelo apito na decisiva semifinal do certame, contra o Nottingham Forest, foi capaz de macular o brilho que aquele time emanava. Em 1986, 10 atletas do roxo e branco mais famoso do planeta foram à Copa do Mundo, sete belgas e três dinamarqueses. Entretanto, exceção feita à final da Recopa de 1990, perdida para a Sampdoria, o time não mais chegou tão próximo de um título continental.

Se o presente registra apenas campanhas pífias do Anderlecht em terreno europeu, com o clube se destacando apenas na revelação de talentos, a memória gravou na eternidade sua força. Com toque holandês e, após, dinamarquês, os Mauves et Blancs escreveram páginas que não se apagam na história do futebol.

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