terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Para sempre Alavés

A história do futebol registra casos que corroboram a tese de que trabalhos longevos costumam render bons frutos. Terá o Alavés pensado nisso quando, em 1997, contratou o treinador Mané Esnal? A verdade é que não. Ano após ano, o comandante foi tendo seu contrato renovado. O fato é que até seu ato final, em 2003, o que se viveu no estádio Mendizorrotza foram, em sua maioria, dias de alegria e sucesso. A princípio, aquele não era um time que encantava, mas era organizado e sofria poucos gols. Tal realidade foi se modificando e os Babazorros acabaram alcançando o melhor desempenho internacional de todos os tempos.


Foto: Reuters

Esnal foi escolhido naquela fase final da década de 90 para encaminhar o renascimento do Alavés. Eram tempos difíceis. Desde os anos 50, os vitorianos não sabiam o que era disputar a primeira divisão espanhola. Nesse ínterim, frequentaram majoritariamente a segundona, mas as dificuldades do clube o levaram a passar anos complicados na terceira e, ainda pior, por vezes, na quarta divisões.


A revolução de Mané

No ano que antecedeu o desembarque do técnico, o Alavés não passou de uma insossa e nada promissora 13ª colocação no segundo escalão hispânico. As perspectivas de acesso não eram reais. Porém, o treinador empenhou seus esforços na consolidação de uma equipe segura de si e capaz de sair do marasmo. Modestamente, em entrevista concedida ao El País, em 2001, Mané disse que sua forma de trabalhar era um “segredo público” e que “o ‘estilo Mané’ não existe”. Entretanto, não é difícil perceber as marcas que o líder consolidou no clube basco.

A análise dos resultados obtidos por Esnal é reveladora. Marcar gols é parte vital do futebol, certo? É claro. Todavia, para além disso é conveniente não os sofrer. Evitá-los evita derrotas; marcá-los não necessariamente. Assim, logo em sua primeira temporada, montou uma defesa intransponível. Nas 42 partidas que disputou na segunda divisão de 1997/98, o Alavés concedeu apenas 25 gols, consagrando, de longe, a melhor retaguarda do certame. O ataque foi apenas o quarto melhor, mas o título foi para Vitória. No mesmo ano, El Glorioso chegou às semifinais da Copa del Rey.

Foto: AFP


Os êxitos não pararam por aí. Demoraram mais de 40 anos para o clube retornar a elite e ele não os desperdiçaria. Em 1998/99, as dificuldades ficaram evidentes e o melhor setor defensivo da segundona deu lugar ao vice-líder dentre o ranking dos piores. Porém, o rebaixamento não veio e o objetivo de então foi alcançado. Passo a passo, os Babazorros foram marcando sua trajetória em La Liga. 

O primeiro grande sucesso azul e branco veio em 1999/00 - um dos anos mais atípicos do futebol espanhol. O torneio que confirmou o primeiro e único título nacional do Deportivo La Coruña também foi marcante para o Alavés. Nem o paredão do meio-campo campeão, composto por Mauro Silva e Flávio Conceição, foi mais forte do que o ferrolho de Mané. O goleiro argentino Martin Herrera, por anos ocultado sob a sombra de Navarro Montoya no Boca Juniors, foi o menos vazado do certame. Sofreu 37 tentos em 38 jogos. A defesa dos bascos foi a melhor da competição. Já o ataque acabou sendo o terceiro pior. Nada disso importou, porque o time não empatava, ou vencia ou perdia, foram apenas três as partidas que terminaram igualadas. Assim, fechou o ano na sexta colocação.

Mudando de estilo e patamar

Tal desempenho levou o time a palcos impensáveis quando da chegada de Mané. O Alavés disputaria, em 2000/01, a Copa da UEFA. Com isso no horizonte, acabou se permitindo a contratação de quatro jogadores de maior destaque, todos para seu setor ofensivo, carente de gols. Assim, chegaram um jovial Iván Alonso, ex-River Plate-URU, e três jogadores com passagens por suas seleções nacionais: o croata Jurica Vučko, o iugoslavo Ivan Tomić e o mais emblemático de todos, Jordi Cruyff, que chegou vindo do Manchester United.

O tempo de o clube se acostumar com a presença em meio à elite havia passado. Chegara a hora de abraçar o mundo. É claro que seria muito difícil obter sucesso em todas as frentes no ano, mas nem por isso o clube se apequenou, muito pelo contrário. Com parceiros melhores, o atacante Javi Moreno, contratado em 1998 e que chegaria à Seleção Espanhola, desandou a marcar gols (foi o terceiro melhor marcador de La Liga), assim como o Alavés. No Campeonato Espanhol, a defesa se abriu mais, todavia o ataque foi feroz. O 10º lugar não foi tão bom quando o sexto do ano anterior, mas os gols apareceram, foram 58. A verdade é que nada disso foi importante. Como?

Foto: Diario AS


A disputa doméstica ficou em segundo plano. Eram as noites europeias o grande interesse do Alavés. A epopeia basca revelou um time que contrariou seu passado recente. Meio camicaze, sofreu três gols dos turcos do Gaziantepspor, mas marcou quatro, eliminando-os. Contra o Lillestrøm norueguês, o placar agregado registrou vitória por 5 a 3, em favor dos espanhóis. A seguir, a vítima seguinte acabou sendo outro escandinavo, o Rosenborg: 4 a 2. Foi então que chegou a quarta fase da disputa e os vitorianos precisariam finalmente mostrar o que valiam. Pela frente, tinham a Internazionale.

É bem verdade que os Nerazzurri estavam combalidos. Não tinham Ronaldo, que vivia o inferno astral com seus joelhos e, na linha de frente, apostas como Robbie Keane ou Hakan Şükür não davam conta do recado. Ivan Zamorano partira para o América do México e apenas Christian Vieri vivia bom momento. Ainda assim, tratava-se da poderosa Inter contra o pequenino Alavés. E os bascos não tiveram modéstia alguma.

Em casa, os Babazorros saíram na frente em cabeçada de Moreno. Porém, Álvaro Recoba empatou em contragolpe mortal e virou com chute de fora da área para os italianos. Tudo pareceu ir por água abaixo em novo contra-ataque, em que Vieri fez o 3 a 1. Mas o Alavés fez valer a fama do País Basco e foi valente. Em cobrança de falta ensaiada, o defensor Óscar Téllez diminuiu e, pouco depois, um peixinho perfeito de Ivan Alonso relançou o time na disputa: 3 a 3.


Na Itália, Cruyff e Tomic sentenciaram a Inter e, com um triunfo por 2 a 0, o Alavés avançou às quartas de finais do certame. Na dita fase, o clube enfrentou uma surpresa muito conhecida, o Rayo Vallecano, do goleiro Julen Lopetegui. A vitória em casa na partida de ida condicionou o sucesso do clube. Em Mendizorrotza, o 3 a 0 foi inapelável e permitiu um escorregão na partida de volta, derrota por 2 a 1.

Entrando para a história

A certeza de que aquele time do Alavés passaria aos livros de história veio, contudo, somente nas semifinais. O adversário era um respeitável time do Kaiserslautern. Os alemães tinham jogadores importantes, como eram os casos de Youri Djorkaeff, Mario Basler e Miroslav Klose. Porém, os azuis e brancos (que acabaram jogando boa parte do torneio com uma icônica camisa cor de rosa) estavam destinados à grandeza e passaram por cima. Em casa, dois pênaltis convertidos pelo romeno Cosmin Contra foram o prenúncio do que viria a ser um massacre.

Cruyff, Alonso - também de pênalti - e o brasileiro Magno fizeram, o terceiro, o quarto e o quinto gols hispânicos. Outra penalidade conferiu o gol de honra aos Kaiserslautern, tento convertido por Harry Koch. Na volta, a história até poderia ter sido diferente se do gol de Djorkaeff, aos sete minutos da etapa inicial, tivesse se seguido uma recuperação alemã. Não foi o que ocorreu. O clube foi novamente pisoteado. Alonso, Vučko (duas vezes) e Gañan Bermúdez puseram o time na final. O 9 a 2 no placar agregado elevou o clube a um posto alto demais. Apesar disso, o clube contrariou o ditado que diz que quanto mais alto se sobe maior é a queda. O Alavés acabou, sim, caindo, mas leve como uma pluma.


O Liverpool que acabara de eliminar o Barcelona, de Rivaldo e Patrick Kluivert, foi seu adversário no Westfalenstadion, em Dortmund, buscava, ali, reafirmar seu poder perante o continente, após viver uma trajetória de glórias e sofrer grave mancha com a Tragédia de Heysel. Para isso, contava com a juventude de Steven Gerrard, Michael Owen e Emile Heskey, além das referências de Jaime Carragher, Sami Hyypiä, Markus Babbel e Robbie Fowler. Era um time forte. Mas o Alavés também era.

Da final ao final

Aos três minutos, de cabeça, Babbel lançou os Reds em vantagem. Aos 16, Owen passou a bola a Gerrard no meio da defesa espanhola e logo o Liverpool vencia por 2 a 0. Parecia o fim do sonho basco. Porém, aquele time do Alavés tinha algo de épico. Após cruzamento de Contra, Alonso diminuiu. Contudo, pouco antes do final da primeira etapa, o goleiro Herrera derrubou Owen na área, em pênalti convertido por Gary McAllister. O fato é que algo aconteceu no intervalo.

Aos 47, Moreno fez mais um para o Alavés, também em cabeceio após cruzamento de Contra. E dois minutos depois empatou o encontro, em cobrança de falta rasteira. Mais vivo do que nunca, o clube resistiu até o minuto 72, quando Fowler recolocou o Liverpool em vantagem. Entretanto, havia um sobrenome em campo conhecido por fazer história: Cruyff. Aos 88, adivinhem, de cabeça, Jordi empatou novamente a partida, que foi para a prorrogação.

Então, o brasileiro Magno foi expulso. E da forma mais irônica possível acabou a trajetória fantástica do Alavés. De cabeça. Um autogol de Delfí Geli. Antonio Karmona ainda seria expulso antes de o árbitro soprar, finalmente, o apito final. Épico, o 5 a 4 foi gravado na eternidade, assim como o nome do Alavés, após tantos anos relegado ao esquecimento.


Em 2001/02, o time voltou a fazer boa campanha no Campeonato Espanhol, ficando com o sétimo lugar e retornando à Copa da UEFA. Tudo sobre o comando de Mané Esnal. A despeito disso, o final do casamento entre treinador e clube foi duro. Em 2002/03, o time não repetiu o bom desempenho na competição continental, sendo eliminado já na segunda fase, perante o Besiktas. O pior veio ao final do ano, com o rebaixamento do Alavés, que retornou à segunda divisão.

Enfim, Mané e Alavés foram caminhar por estradas diferentes. A saída foi amigável, como revelou o então presidente do clube, Gonzalo Antón San Juan: “foi um acordo amigável entre as partes, depois de estarmos juntos seis anos, não podia haver uma demissão, uma vez que Mané fez história nesse clube”. Se o treinador tinha um método próprio, ou não, não se sabe. A única certeza que se tem é a de que os dias dedicados ao Glorioso são eternos.

Um comentário :

  1. Excelente texto, muito legal a trajetória do Alavés até a final da copa uefa e foi demais aquela final com o Liverpool.

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