terça-feira, 6 de março de 2018

Não foi talento que faltou à Itália em 90

O início dos anos 90 foi extremamente marcante para o futebol italiano. Vivia-se uma efervescência de bons times e craques. Subitamente, clubes com Napoli e Sampdoria passaram a disputar títulos contra as grandes potências históricas do Belpaese.

 

Foto: Desconhecido

O Milan, por exemplo, tinha um trio holandês de tirar o fôlego; a Inter apostava naquele que venceria o primeiro prêmio de melhor do mundo oferecido pela Fifa; e a Juventus contava com um craque que ficaria eternizado por seu rabo de cavalo. 

Ser sede da primeira Copa do Mundo da década foi mais um prêmio àquele que era o melhor futebol do mundo na época. E, nesse sentido, a seleção nacional não deixava a desejar.


Uma constelação de craques

O treinador Azeglio Vicini, que desde 1975 trabalhava com a seleção italiana - primeiro com a sub-23, depois com o sub-21 e, após o Mundial de 1986, com a principal - tinha fartura de opções para todos os setores da Squadra Azzurra

Foto: Getty Images
Fala-se de um time que pôde deixar no banco de reservas um goleiro do porte de Gianluca Pagliuca, um defensor como Pietro Vierchowod, e, do meio para frente, jogadores da estirpe de Carlo Ancelotti, Nicola Berti, Roberto Mancini ou seu xará, Roby Baggio. Diga-se: era possível fazer isso porque existiam outras opções de grande qualidade no elenco.

A defesa vinha toda de Milão. Do lado Nerazzurri, o goleiro Walter Zenga e os defensores Giuseppe Bergomi e Riccardo Ferri; do Rossoneri, Franco Baresi e Paolo Maldini (Bergomi, Baresi e Maldini seriam mais tarde eternizados como one-club men). 

O meio degustava os amantes da bola com a técnica de Roberto Donadoni e Giuseppe Il Principe Giannini, e o ataque carregava a categoria de Gianluca Vialli. Era um timaço.

O reinado de um artilheiro improvável

Não é difícil perceber o porquê de ter sido um jogador italiano o escolhido como o melhor da Copa do Mundo. Curioso é, entretanto, perceber que o laureado não foi propriamente um exemplar de habilidade e distinção técnica, mas um atleta marcado muito mais pelo oportunismo. 

Foto: Getty Images
Em 1988/89, Salvatore Schillaci conseguira a façanha de ser artilheiro do Campeonato Italiano vestindo a camisa do modesto Messina. Assim, carimbou seu passaporte para a Juventus e, aos 45 do segundo tempo, para o Mundial.

Ele só havia defendido a Azzurra em uma ocasião, em março de 1990, e começou a competição na reserva. Mas, desde a primeira oportunidade, mostrou que estava predestinado a fazer uma grande competição. Na estreia italiana, contra a Áustria, substituiu Andrea Carnevale e, dois minutos após seu ingresso, marcou o tento singular da vitória.

O segundo jogo, contra os Estados Unidos, foi seu último como reserva e o único em que não marcou. Vitimou, na sequência, Tchecoslováquia, Uruguai, Irlanda, Argentina e Inglaterra. Neste último jogo, ganhou seu prêmio de consolação. 

Embora a Itália já não disputasse o título e o jogo valesse apenas um terceiro lugar, Schillaci estava empatado em gols com o tcheco Tomáš Skuhravý, que, eliminado, já não podia marcar. Os anfitriões tiveram um pênalti a seu favor no apagar das luzes e Baggio deu o presente de ouro ao seu artilheiro, cedendo a cobrança. 

O jogo valia pouco para a Itália, mas podia garantir a Totò um lugar na história. A bola saiu da marca da cal para o gol. Estava garantida a artilharia da Copa do Mundo, com seis gols, e o prêmio de melhor jogador da competição.


Ataque econômico, mas letal; defesa intransponível

Com aquela que pode ser considerada uma das melhores defesas da história do futebol, fazer gols na Seleção Italiana era uma missão inglória. Na primeira fase, Áustria, EUA e Tchecoslováquia não conseguiram. Foram todos derrotados. 

Contudo, a míngua de gols sofridos também se repetiu em tentos marcados. Na primeira fase foram apenas quatro - apenas os eslavos sofreram dois. A Itália usou o que tinha de melhor e foi avançando.

O time uruguaio que pegou pela frente nas oitavas de final não fazia jus à história da Celeste, mas, ainda assim, tinha bons nomes, como o do veterano Hugo De León e do craque Enzo Francescoli. 

Todavia, os comandados de Óscar Tabárez também não conseguiram vazar Zenga. Este, de sua meta, viu Schillaci e Aldo Serena manterem vivo o sonho italiano de repetir Uruguai, Inglaterra, Alemanha e Argentina e conquistar o Mundial em casa.

Foto: Getty Images


A seguir veio a Irlanda, que superara polêmicas e surpreendia. Desde 1985, a equipe era treinada por um estrangeiro, fato até então inédito. Se isso já não fosse suficientemente insólito, tratava-se de um inglês: ninguém menos do que o campeão do mundo, Jack Charlton (o irmão de Bobby). 

Ao modo inglês, com um esquema tático 4-4-2 típico, o esquadrão verde ofereceu resistência, mas também sucumbiu. Um a zero. Gol de Schillaci.

Sem fazer alarde, a Squadra Azzurra chegou à semifinal. Na Bota, a confiança só aumentava. Até então, a Itália só jogara na capital, Roma e os donos da casa moviam multidões, levando sempre mais de 73.000 espectadores. Mas o grande desafio estava adiante.

Maradona, Basualdo, Caniggia... e pênaltis

O mundo inteiro já estava cansado de saber quem era Diego Maradona quando a decisiva semifinal se aproximou. Mas a Itália o conhecia ainda melhor, pois o via, semana após semana, desfilar seu imensurável talento no Napoli. Por si só, esse já seria motivo suficiente para preocupações. Tudo caminhava favoravelmente, entretanto.

Logo aos 17 minutos, Schillaci colocou os italianos em vantagem, após uma jogada confusa que começou com chapéu de Giannini e terminou em lance de oportunismo do artilheiro italiano. A vantagem durou 50 minutos.

Foto: Bob Thomas/Getty Images


Foi então que Maradona e José Basualdo arquitetaram a trama fatal. Após trocarem passes, a bola foi servida na área italiana. Zenga decidiu mal, disputou a bola pelo ar e perdeu. Claudio Caniggia cumprimentou as redes da anfitriã, pela primeira vez na competição. Vieram os pênaltis.

Os erros de Donadoni e Serena condicionaram a queda italiana. Os argentinos acertaram todos os penais. Nápoles, palco do jogo, podia até ficar na Itália, mas, mais uma vez, se rendia aos pés de Maradona.

“Foi muito difícil de aceitar [a derrota]. Foi como se um edifício tivesse caído em cima de mim. Passei mais de duas horas no vestiário fumando e chorando, também. Pareceu algo que escorreu pelos nossos dedos. O desapontamento e a tristeza foram grandes”, relatou Schillaci em entrevista concedida à FourFourTwo.
Terceiro lugar e adiamento do sonho

Havia ainda um lugar no pódio para a Itália, que bateu a Inglaterra de Bobby Robson na disputa pelo terceiro lugar: 2 a 1.

Muitos se lembram da equipe de 1994 como tendo sido aquela que, verdadeiramente, perdeu a grande chance de vencer uma Copa do Mundo na década de 90. De fato, o escrete que viajou aos Estados Unidos chegou mais longe e isso é incontestável. 

Não há dúvida a respeito da qualidade que o time possuía quatro anos antes. Ele tinha tudo: uma defesa poderosíssima, um meio-campo talentoso, um banco recheado de possibilidades e um artilheiro, improvável e letal. Não foi suficiente. Como aconteceria mais tarde na América do Norte, o sonho do tetracampeonato parou na marca da cal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...