terça-feira, 13 de março de 2018

O título que alavancou a carreira de Sven-Göran Eriksson

Na história do futebol sueco, apenas uma equipe conquistou campeonatos continentais. Embora o Malmö FF, o recordista de títulos do campeonato local, tenha chegado à final da Copa dos Campeões de 1979, o título acabou ficando nas mãos dos ingleses do Nottinhgam Forest. O que ali não se sabia é que a espera pela primeira glória internacional sueca seria curta - e chegaria por outras mãos.


Foto: Site oficial IFK Göteborg


Depois de colocar fim a uma carreira frustrante como jogador de futebol, o treinador Sven-Göran Eriksson recebeu sua primeira oportunidade fora das quatro linhas e a abraçou. Tord Grip, seu ex-comandante no modesto KB Karlskoga, convidou-o para ser seu auxiliar no igualmente nanico Degerfors IF. A oferta foi aceita.

Os primeiros passos do jovem Eriksson

Era aquela a segunda metade dos anos 70 e o futebol sueco sofria forte influência inglesa. Roy Hodgson e Bob Houghton inauguravam, então, um novo tempo para o futebol no país. E foi com o frescor da novidade que Eriksson projetou sua trajetória como treinador, alavancado pelo que acontecia ao seu redor. Quando seu amigo, Grip, foi convidado a ser auxiliar técnico da seleção sueca, Sven-Göran, pela primeira vez, assumiu as rédeas de uma equipe.

Foto: Site oficial IFK Göteborg
Em 1978, chamou a atenção com o acesso do Degerfors à segunda divisão. A partir de então, sua carreira decolou.

Um ano depois, o jovem comandante, à época com 31 anos, chegou ao IFK Göteborg. Havia alguma pressão no ar, na medida em que o tradicional clube de Gotemburgo não conquistava o nacional desde 1969. Eriksson lidou bem com o momento e deu início a sua revolução.

Enquanto Houghton levava o Malmö ao vice-campeonato europeu, Eriksson recolocava seu time nos trilhos. O início foi difícil. Como contou Jonathan Wilson, em A Pirâmide Invertida, os três primeiros jogos no comando do clube foram derrotas, e uma oferta voluntária de demissão acabou por chegar, sendo prontamente rejeitada. 

Logo, as coisas melhoraram. Ainda em seu primeiro ano, o técnico elevou os Blåvitt ao segundo lugar na Suécia - Hodgson e o Halmstads BK acabaram campeões. Porém, o jovem comandante não deixou seu torcedor de mãos vazias, conquistando a Copa da Suécia.

Em 1980, o IFK terminou na terceira colocação no nacional e, em 1981, voltou ao segundo lugar. O time vinha batendo na trave, mas Sven-Göran seguia mostrando trabalho e valor. Já havia conquistado um título e colocara sua equipe em igualdade de condições na disputa pelas glórias. A recompensa não tardou a chegar, veio logo em 1982.

Influência tática

Eriksson nunca negou seu apreço e predileção pelo esquema tático 4-4-2, rígido, mas funcional - e tipicamente inglês. A marcação por zona e o pressing na hora de recuperar a bola, que se confirmariam duas de suas grandes marcas, davam-se a conhecer ali. À citada obra de Wilson, o jornalista Frank Sjöman relatou as impressões da época: “Ele introduziu mais consciência tática, trabalho e enfraqueceu o antigo estilo”.

Por sua vez, à revista The Blizzard, Eriksson deu maiores esclarecimentos a respeito das novidades que deram um empurrão ao seu sucesso inicial:

“Veja, por exemplo, o Malmö, que, em 1979, chegou à final da Copa dos Campeões [...] jogava com uma pressão muito agressiva e isso era eficaz, porque era relativamente novo [...] Talvez isso não parecesse bom, mas para os oponentes era muito difícil de lidar [...] Outros times [...] não conseguiam lidar”.

Na Suécia, o comandante chegou a ser acusado de privilegiar o resultado em detrimento do bom jogo, da estética. A verdade, todavia, é que havia uma revolução sendo posta em prática e resultados cruciais não tardaram a chegar. Com eles, Eriksson elevou sua carreira e se tornou um dos treinadores mais emblemáticos de seu tempo, a despeito das muitas críticas que acabou recebendo, no decorrer dos anos.

Uma Copa da UEFA para consagrar

O resultado obtido pelo Göteborg em 80 acabou assegurando uma vaga na Copa da UEFA de 1981/82 (o calendário do futebol sueco não segue os padrões das principais ligas europeias). Embora a competição não tivesse a força da Copa dos Campeões ou seu requinte, tratava-se de um torneio com equipes de qualidade, como não deixa em dúvida a presença de Valencia, Hamburgo, Real Madrid, Arsenal, PSV Eindhoven, Feyenoord ou Internazionale.

Dando um passo de cada vez, o IFK foi caminhando. Nas fases iniciais, bateu o modesto FC Haka, da vizinha Finlândia, 7 a 2 no placar agregado, os austríacos do Sturm Graz, 5 a 4, e os romenos do Dínamo Bucareste, 4 a 1. Conforme o caminho foi sendo pavimentado, o azarão sueco foi se dando a conhecer no continente. Além disso, aos poucos o centroavante Torbjörn Nilsson foi se mostrando um artilheiro feroz.

O caminho, entretanto, começou a ficar cada vez mais tortuoso. Nas quartas de finais, os de azul e branco pegaram o Valencia, do dinamarquês Frank Arnesen. Depois de empatar na Espanha, os suecos venceram por 2 a 0 na volta e chegaram às semifinais. A seguir veio o Kaiserslautern, que acabara de eliminar o Real Madrid.

A penúltima fase da Copa da UEFA acabou se comprovando a mais desafiadora para o Göteborg. Na Alemanha, os escandinavos apenas empataram, 1 a 1 - o que não deixou de ser um bom resultado contra a equipe de Andreas Brehme e Hans-Peter Briegel. Na volta, o início foi positivo, mas houve tensão até o final.

Tommy Holmgren costurou a defesa alemã para inaugurar o marcador na Suécia, marcando um belíssimo gol. Porém, os alemães empataram com Reiner Geye e o jogo só foi decidido na prorrogação. Uma penalidade máxima, controversa, permitiu o gol do defensor Stig Fredriksson e levou a equipe à final.


Um final inquestionável

O curioso é pensar que, quando se esperavam as maiores dificuldades, o IFK foi letal e, mais do que nunca, impiedoso. Pela frente, o time teve o Hamburgo, de Ernst Happel e que conquistaria a Copa dos Campeões no ano seguinte. Nada importou que o time do norte da Alemanha contasse com selecionáveis como Manfred Kaltz, Felix Magath ou Horst Hrubesch (além do dinamarquês Lars Bastrup).

Foto: Site oficial IFK Göteborg
Os comandados de Eriksson, que sequer faziam parte de uma geração sueca particularmente boa (não se classificou para as Copas do Mundo de 1982 e 1986), viviam um grande momento.

Em casa, diante de uma multidão de 42.548 pessoas, os azuis e brancos venceram os alemães por 1 a 0, tento assinado por Tord Holmgren (irmão de Tommy) - é bom que se diga que o estado do gramado certamente não facilitou em nada a vida dos comandados de Happel. Ainda assim, o tira-teima, na Alemanha, não deixou dúvidas de que o IFK merecia ser o campeão.

Aos 26 minutos, Dan Corneliusson completou cruzamento da esquerda na pequena área e abriu o placar para os escandinavos. O segundo gol veio em um contragolpe fulminante. A bola foi recuperada na intermediária e Nilsson lançado. Na velocidade, o atacante se livrou dos defensores do Hamburgo e ficou frente a frente com o goleiro. Sem maiores problemas, cumprimentou as redes e se consolidou o artilheiro da competição. 

Ao final, outra penalidade convertida por Fredriksson colocou números finais no score. 3 a 0 na casa do adversário. Pela primeira vez, um título continental foi para a Suécia.


A consolidação de um treinador respeitado

Após a conquista (somada, finalmente, de um título sueco e de outra Copa da Suécia, tudo em 1982), Eriksson partiu para novos vôos. Começou pelo Benfica e passou por Roma, Fiorentina, Sampdoria, Lazio, Manchester City, Leicester e equipes chinesas - além das seleções da Inglaterra e da Costa do Marfim. 

A história que começou no pequenino Degerfors tomou forma e forjou um treinador importante.

Apesar da saída de seu mentor, o IFK Göteborg não ficou jogado às traças. A semente plantada por Sven-Göran foi semeada e o clube voltou a conquistar a Copa da UEFA em 1986/87. Alguns jogadores de 82 remanesceram até a segunda conquista. Ainda assim, é difícil duvidar de um fato: foram as bases fundadas por Eriksson que colocaram o time no radar continental.

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