quinta-feira, 15 de março de 2018

Tommy Gemmell, um revolucionário da lateral

Em 1967, o Celtic se tornou o primeiro clube britânico a conquistar a Copa dos Campeões da Europa. Por mais curioso que possa ser, esse fato é notório. Os comandados do treinador Jock Stein viajaram a Lisboa e bateram a Internazionale, então treinada por Helenio Herrera. O que não é tão explorada é a ofensividade daquele esquadrão e, nesse sentido, não há expoente melhor do que o escocês Tommy Gemmell.


Foto: PA Images

O autor do gol que devolveu a vida aos Hoops na disputa daquela final (Sandro Mazzola havia colocado os Nerazzurri em vantagem) era um lateral esquerdo incomum - tanto enquanto jogador quando do ponto de vista de sua personalidade.

Um lateral moldado para o ataque

Nos anos 60 ainda não era comum a presença de laterais ofensivos. Naquele tempo, o ataque pelos lados era tarefa quase exclusiva de meias, pontas e atacantes - dependendo do estilo de jogo adotado pela equipe. Cabia aos laterais a guarda de suas posições e a proteção dos atletas de frente. Porém, Gemmell e Stein não eram conformistas.

Os de Glasgow buscavam o ataque a qualquer custo. Em seu auge, jogavam em um esquema tático 4-2-4. O que hoje parece kamikaze, era tão bem treinado que subverteu a ordem do futebol europeu e foi capaz de feitos impressionantes, como vazar a Inter, consagrada pelo catenaccio, por duas vezes.

Pelos lados de seu ataque, Stein contava com o talento e a imprevisibilidade de Jimmy Johnstone, eleito o melhor jogador da história do Celtic, e Bobby Lennox. Mas, ainda que fossem jogadores extraordinários, pareciam insuficientes. Então, Gemmell se tornou peça fundamental.

Historicamente, o futebol praticado nas Ilhas Britânicas sempre deu espaço a jogadores com destacado perfil atlético e boa finalização. Tommy era certamente uma dessas figuras. Um furacão pela esquerda - embora fosse destro -, avançava sem pudor e chutava com potência e direção. Tinha muita confiança em suas aptidões e crescia em momentos difíceis.


Gemmell não só marcou na final de 1967, como também o fez três anos mais tarde (na oportunidade, o Celtic acabou derrotado pelos holandeses do Feyenoord). Cabia a ele, também, a cobrança das penalidades máximas de seu time. Para seu ex-companheiro e meio-campista, Bertie Auld, a importância do lateral nunca poderá ser subestimada:

“Foi o Tommy [Gemmell] quem revolucionou sua posição defensiva no time. Antes do Big Man, o jogador dessa posição raramente ultrapassava o meio-campo. Tommy veio e mudou tudo isso. Jock Stein nunca precisou o encorajar a ir à frente, Tommy simplesmente fazia por conta própria. Ele era um atleta completo, podia subir e descer pelo flanco o dia inteiro, quase sem precisar parar para respirar”, revelou ao Scottish Sun, em 2017.


A relação com Jock Stein

Gemmell era mesmo um jogador de capacidades especiais, diferentes. Jock Stein nunca deixou de reconhecer tal realidade, tendo transformado o jogador em um de seus pilares. Entretanto, houve momentos em que craque e mestre entraram em rota de colisão. Nem sempre houve acordo entre os dois.

Alguns episódios deixam claro que nem tudo foram flores na relação. Em 1969, o treinador deixou seu comandado de fora da final da Copa da Liga, contra o St. Johnstone. Segundo Gemmell, a opção jamais lhe foi explicada. Ele, uma das estrelas do time, foi colocado na reserva sem maiores explicações. 

Foto: Reprodução/Evening Times
Pouco depois, o jogador, que representava o Celtic desde 1961, manifestou seu desejo de mudar de ares. Embora se fizesse de desentendido, Gemmell sabia que havia clubes atrás de seu talento. Nomeadamente, citou, em sua autobiografia, Barcelona, Leicester e Tottenham como potenciais destinos.

Entretanto, sempre que o jogador perguntava a seu chefe a respeito de propostas, a resposta era a mesma: “nada, te mantenho informado”. O jogador sabia que a falta de interesses era mentirosa, a realidade lhe chegava por terceiros e também por parte da imprensa. 

Essa relação desgastante durou até 1971 e, ainda assim, Gemmell não tratou os acontecimentos com rancor, mesmo não tendo conseguido se despedir do Celtic da forma como gostaria: “eu adorava aquele homem [Jock Stein] - ainda que ele tenha me custado uma transferência para o Barcelona [...] ele era um grande psicólogo”. 

Stein e Gemmell foram fundamentais um para o outro, mesmo que a trajetória conjunta dos ícones tenha sido acidentada em alguns momentos. Depois de dois anos na lista de transferências dos Hoops, o lateral acabou negociado com o Nottingham Forest. Nos Forresters, permaneceu até 73.

Depois de uma breve aventura nos EUA, passando pelo Miami Toros, voltou à Escócia, atuando por mais quatro anos no Dundee F.C. Clube que treinou, por mais três anos, após sua aposentadoria, em 77. Antes disso, uma curiosidade: pelo Dee, venceu o Celtic, ainda treinado por Stein, na Copa da Liga de 1973. Vingança?

O pontapé em Hemult Haller

Outro capítulo conflituoso, e nada nobre, da relação entre jogador e técnico aconteceu três dias antes da citada final da Copa da Liga da Escócia. A seleção nacional lutava ferozmente com a Alemanha Ocidental pela classificação para a Copa do Mundo de 1970.

O lateral havia recebido um toque do germânico Helmut Haller, atacante da Juventus, quando ignorou tudo o que estava a seu redor e acertou um pontapé no adversário. Foi expulso, não recebeu uma palavra de Stein no retorno à Glasgow e foi sacado da dita final com o Celtic. A Escócia acabou derrota por 3 a 2, o que a sentenciou a assistir o Mundial no sofá de casa.


Um legado tratado com serenidade

Apesar da personalidade forte, por vezes exacerbadamente cheia de si, Gemmell nunca foi um personagem egocêntrico. Era visto como alguém que alegrava o vestiário. Essa foi mais uma das revelações feitas por Auld: “Tommy era único, um grande jogador, e, ainda assim, era um dos chaps mais modestos que você poderia conhecer”. 

Seu ex-companheiro não está sozinho nessa história. O repórter Alex Gordon, do Daily Record, também contou um relato que indica nesse sentido.

Certa vez, o jornalista telefonou para o jogador, já há tempos aposentado, para o entrevistar e perguntou: “Olá, Sr. Gemmell, meu nome é Alex Gordon e estou escrevendo um artigo [...] posso roubar cinco minutos do seu tempo?”. A resposta foi tão franca quanto simpática: “Meu nome é Tommy e você não me rouba cinco minutos do meu tempo. Tome o tempo que precisar. Em que posso ajudar, filho?”.

Foto: Reprodução/Evening Times

Na mesma reportagem, o repórter deu mais uma dica a respeito de como era o personagem retratado. Perguntado sobre a importância de seu legado, que está eternizado na história do futebol, o ex-lateral respondeu após um longo silêncio: “você pensa assim? Bem, esse é um bom pensamento”.

Gemmell foi um revolucionário e um vencedor. Fez parte de uma conquista inédita. Teve problemas na sua trajetória e certamente é menos lembrado do que poderia. Ainda assim, fez-se um ícone acessível e gentil, nada amargo e sem grandes arrependimentos. 

É verdade que quando surgiu já havia expoentes históricos importantes para a lateral esquerda, gente como Nilton Santos, por exemplo. Porém, ao menos no nível europeu, a posição nunca mais foi a mesma depois de Tommy, que faleceu em março de 2017 e deixou a memória de um passado glorioso.

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