terça-feira, 20 de março de 2018

Emocionante: a vitoriosa temporada 2001/02 do Dortmund

Entre o time campeão europeu e mundial (1997) e a era de renascimento do Borussia Dortmund - comandada por Jürgen Klopp -, os aurinegros viveram alguns dias de glória. Eram tempos em que a experiência de jogadores como Jürgen Kholer era completada pela juventude de figuras como Ewerthon e Tomáš Rosický. Contava-se, ainda, com atletas no auge, como era o caso de Amoroso, o artilheiro da Bundesliga. Vivia-se a temporada 2001/02.


Foto: Reprodução/DFB.de


De uma lenda para outra

Matthias Sammer, um dos ícones do time que conquistou a Copa dos Campeões da Europa mal havia se aposentado, em 1998, e logo assumiu o comando técnico no Vale do Ruhr. O capitão das glórias de 97, e Ballon d’Or de 96, sucedeu o mito Udo Lattek, ex-treinador de épocas gloriosas com Bayern de Munique e Borussia Mönchengladbach.

Sammer havia se aposentado precocemente, em decorrência de um problema no joelho, e era o auxiliar do experiente treinador em 1999/2000. Na oportunidade, Lattek abandonou a aposentadoria e a vida de comentarista de TV e colunista na revista Kicker e no jornal Die Welt para salvar os aurinegros do rebaixamento. Conseguiu e preparou o terreno para o sucesso de seu pupilo.

A volta de Udo foi algo extraordinário. O técnico não pretendia retomar sua trajetória e com a missão cumprida abandonou de vez o futebol. Matthias assumiu. Tinha, ali, 32 anos apenas.

Foto: picture-alliance/Pressefoto/ULMER/Andreas Schaad

 “Não defini objetivos. Quero fazer uma boa preparação e apresentar um time fechado, de caráter forte e que não fraqueje com resultados negativos”, revelou o comandante à Kicker, em maio de 2000. 
Começava um trabalho sólido, com o terceiro lugar no Campeonato Alemão, que renderia seus melhores frutos na temporada seguinte.

A soma de Alemanha, Brasil e República Tcheca

A base dos aurinegros ainda tinha alguns veteranos de 97. Kohler, o polivalente Stefan Reuter, o centroavante grandalhão Heiko Herrlich e o talismã Lars Ricken representavam essa categoria. Além deles, havia outros germânicos de peso no Westfalenstadion (hoje Signal Iduna Park).

Após uma passagem breve e apagada pelo Milan, o histórico goleiro Jens Lehmann era o responsável pela meta do Dortmund. Por outro lado, a zaga tinha a referência de Christian Wörns e de um jovem Christoph Metzelder. Quem também surgia ali era o volante Sebastian Kehl, que se tornaria uma instituição do clube e recém-chegava do Freiburg.

Foto: Jamie McDonald/Getty Images
Enquanto a espinha dorsal do time era toda nacional, o talento estrangeiro garantia os diferenciais à equipe. Pelos lados da defesa, sendo importantes válvulas de escape do time, os brasileiros Evanílson e, sobretudo, Dedê garantiam solidez defensiva e força ofensiva ao setor.

Era no meio-campo, entretanto, que se encontrava o jogador mais especial daquele esquadrão; um garoto de 21 anos. Rosický, contratação do inverno europeu de 2001 e criado no Sparta Praga, era quem orquestrava a equipe. Armador à moda antiga, o tcheco era o perfeito criador: capaz de ofertar passes extraordinários, assistências sob medida e, ainda, de dar dinâmica ao jogo aurinegro.

Por outro lado, os atacantes tinham diferentes e complementares estilos - sobretudo foram máquinas de marcar gols. Amoroso vivia seu auge. Habilidoso, frio à frente das balizas rivais e veloz, o brasileiro foi às redes 18 vezes na Bundesliga. No início do ano, o atacante chegou a ter problemas com seu treinador, mas os deixou para trás e viveu uma de suas temporadas mais especiais da carreira.

O setor tinha ainda a força do gigante tcheco Jan Koller, de 2,02m. Apesar do corpanzil, o centroavante era utilíssimo. Fazia um jogo de pivô soberbo e era ameaça fatal na bola aéreo. Fez 11 gols naquele ano e foi um grande parceiro de Amoroso. 

Porém, Sammer tinha também outra alternativa importantíssima para a linha de frente. A torcida do Corinthians não teve muito tempo para aproveitar a velocidade e os dribles de Ewerthon. Aos 20 anos, o atacante se mudou para Dortmund e foi uma espécie de 12º jogador do clube. E que opção o brasileiro se fez: em 27 jogos do Alemão, anotou 10 tentos.

Em entrevista à Trivela, Amoroso falou sobre aquele grupo:
“O Rosický, o Ewerthon, o Koller e eu éramos o pilar daquele ataque, fazíamos o bloco na frente, e nas duas laterais vinham o Evanílson e o Dedê. A gente tinha muita ligação. Até hoje nos falamos, nos comunicamos”

O disputado título da Bundesliga

Foto: Damien Meyer/AFP/Getty Images
O Bayern de Munique havia conquistado o campeonato nacional em 2000/01 e levara, também, a Copa dos Campeões. Aparentemente, seria o mais forte candidato ao título. Não obstante, foi o Bayer Leverkusen finalista do aludido torneio continental no ano (e que ganharia a alcunha nada elogiosa de Neverkusen) o grande rival do Dortmund.

Um ano que começou extremamente promissor, com vitórias consecutivas contra Nürnberg, Hertha Berlin, Wolfsburg e Hansa Rostock parecia que seria mais um tempo de fracasso, quando nas rodadas cinco, seis e sete, o time perdeu para dois rivais diretos, Bayern de Munique e Schalke 04, além de empatar contra o Leverkusen.

Porém, os aurinegros conseguiram juntar seus cacos e se reerguer. Nas nove rodadas seguintes, oito vitórias e apenas uma derrota recolocaram a equipe nos trilhos. Mas uma nova sequência negativa, com muitos empates (incluídas as partidas do returno contra Bayern e Schalke) e com uma goleada pesadíssima (4 a 0) para o Bayer colocaram o time novamente em xeque.

Era aquele um momento crucial para os sucessos da temporada. O time conseguiu reunir forças novamente e se relançar na disputa pelo título. Depois da derrota para o rival rubro-negro, veio um empate contra o St. Pauli. E nas nove rodadas finais, foram buscadas mais sete vitórias.

Três rodadas emocionantes e perfeitas

Aqueles não foram êxitos quaisquer. Na 31ª rodada, o Leverkusen tinha cinco pontos de vantagem para os aurinegros. Nas três últimas rodadas, Colônia, Hamburgo e Werder Bremen protagonizaram verdadeiras batalhas. 

O primeiro fez um jogo duríssimo. Até os 44 minutos do segundo tempo, segurou o Dortmund. Todavia, aquele time tinha Amoroso e o brasileiro converteu a penalidade máxima que decidiu a vitória para o time.

Contra o Hamburgo, houve mais emoção, em um jogo maluco. Amoroso e Rosický marcaram logo dois tentos para o BVB. Um atrás do outro, aos 36 e aos 38 minutos. Mas, em sua casa, o rival do norte deu o troco. Diminuiu com Raphaël Wicky. Amoroso voltou a aumentar a vantagem aurinegra. Não perca a conta: 3 a 1.

O holandês Nico-Jan Hoogma mais uma vez marcou para os anfitriões, que voltaram a ser vazados pouco depois, vítimas de Koller. Ainda houve tempo para um compatriota de Jan Hoogma marcar. Erik Meijer fez o terceiro do HSV e ficou assim. 4 a 3.

Foto: Reprodução/DFB.de


Quando chegou a rodada fatal, os comandados de Sammer dependiam apenas de si mesmos, na medida em que o Leverkusen vinha de dois tropeços - derrotas perante Nürnberg e Werder Bremen, este o último desafiante dos aurinegros.

O canadense Paul Stalteri ameaçou colocar água na cerveja alemã dos torcedores da Muralha Amarela. Logo aos sete minutos, abriu o marcador para o alviverde. Mas aquele ano era mesmo do Borussia. Aos 41, Amoroso assistiu Koller. E, aos 76, Ewerthon, que substituíra Jörg Heinrich, recebeu a bola de Dedê e fez o gol do título. Pela primeira vez desde 1996, o título alemão voltava ao Vale do Ruhr.


A aventura europeia

Aquele ano poderia ter sido ainda mais feliz para o torcedor do Dortmund. Com a terceira posição na Bundesliga de 2000/01, o clube se classificou à disputa da terceira eliminatória da Champions League e venceu o Shakhtar Donetsk duas vezes, para avançar à fase de grupos do certame.

O desempenho do time, entretanto, esteve muito aquém do esperado naquele Grupo B. Dividindo terreno com Dynamo Kyiv, Liverpool e Boavista, o surpreendente campeão português do ano anterior, o BVB venceu apenas duas vezes, perdendo e empatando outras duas partidas. 

Ficou em terceiro lugar e caiu para a disputa da Copa da UEFA. O que parecia apenas um prêmio de consolação se tornou uma verdadeira chance.

É bem verdade que a prioridade de Sammer era a conquista da Bundesliga, o que justificou algumas escalações com times mistos, mas o time foi avançando e chegou perto de conquistar o título.

Vitórias marginais, ambas por um a zero, contra o København colocaram o time nas oitavas de finais. Foram jogos duros. Na primeira partida, os dinamarqueses chegaram a desperdiçar uma penalidade máxima e, na segunda, o tento da vitória só veio a um minuto do final do tempo regulamentar.

Na sequência, os alemães se safaram no critério do gol marcado fora de casa contra o Lille. Na França, empataram por um a um; em casa, o placar ficou em branco. Já nas quartas de finais, o Slovan Liberec até segurou o ímpeto aurinegro em casa, em novo empate sem gols. Porém, diante da Muralha Amarela, os donos da casa foram impiedosos e castigaram seu rival: 4 a 0.

A estrela de Amoroso e o brilho de van Hooijdonk

Foi só na semifinal que ficou claro que o time queria o título. O adversário foi o poderoso Milan, que tinha, na altura, jogadores da classe de Paolo Maldini, Andrea Pirlo, Rui Costa e Andriy Shevchenko. No primeiro jogo, Amoroso esteve on fire: marcou um hat-trick, completado por Heinrich, em outro 4 a 0 inapelável.


A volta, na Itália, até deixou os aurinegros apreensivos, mas correu bem. Pippo Inzaghi, Cosmin Contra e Serginho vazaram Lehmann. Ricken diminuiu e a derrota por 3 a 1 foi suficiente para levar o clube à final.

Entretanto, o jogo decisivo já começou com uma componente desfavorável para os germânicos. Por obra do caso (ou de alguma ordem superior), o Feyenoord chegou à disputa que foi disputada justamente em sua casa, no estádio De Kuip. Quatro dias antes, os aurinegros haviam conquistado a Bundesliga. Veio, então, a ressaca da vitória.

Tudo começou a dar errado para os alemães quando, aos 31, Kohler foi expulso e o Feyenoord teve um pênalti a seu favor. Pierre van Hooijdonk, o grande nome daquela competição, converteu. Sete minutos mais tarde, o goleador voltou a mostrar sua classe, em cobrança perfeita de falta.

Amoroso ainda sofreu e bateu, com acerto, um pênalti, reduzindo a desvantagem para uma bola apenas. Porém, aquela não seria uma noite de sonhos amarelos e pretos. Shinji Ono recuperou uma bola na meia-cancha e lançou o dinamarquês Jon Dahl Tomasson, 3 a 1.


Koller ainda marcou o segundo (e belo) tento do Dortmund, que pressionou até o final. Mas, diferentemente do inesquecível 04 de maio, em que o time tirou um gol da cartola, com Ewerthon, no dia 08 o final não foi positivo para os aurinegros. 

Entretanto, a conquista da Copa da UEFA teria sido apenas um bônus. O principal objetivo da temporada, a Salva de Prata, esta já estava bem guardada em Dortmund - e só voltaria ao clube após s superação de uma forte crise financeira e com o trabalho do técnico Jürgen Klopp.

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