segunda-feira, 7 de maio de 2018

O incidente que impactou os rumos da Premier League 1994/95

Poucos jogadores foram tão importantes para a trajetória do mito Alex Ferguson no Manchester United quanto o francês Éric Cantona. Antes da chegada do astro temperamental, o treinador escocês ainda não havia conseguido nenhum título do campeonato inglês — embora já tivesse entregado ao torcedor mancuniano títulos de FA Cup, League Cup, Recopa Europeia e Supercopa da UEFA.


Foto: Télam


Um astro para ajudar a colocar fim a um jejum

Fergie chegara ao estádio Old Trafford em 1986, vindo de anos de muito sucesso na liderança do Aberdeen e tendo conduzido a Seleção Escocesa. Entretanto, os anos gloriosos dos Busby Babes e da United Trinity — como ficou conhecido o espetacular trio formado por Bobby Charlton, Denis Law e George Best — haviam ficado para trás. Quando o ano de 1992 se anunciou, o clube já convivia com um jejum de títulos do campeonato nacional desde 1967.

Nesse meio tempo, viveram-se as ascensões do Nottingham Forest treinado por Brian Clough e do Aston Villa, ambos campeões continentais, e, sobretudo, construiu-se uma disparidade entre os Red Devils e seu grande rival, o Liverpool, que ganhou tudo nas décadas de 70 e 80. A resposta do time de Manchester acabou por vir. E Cantona estava lá, diretamente envolvido.

Foto: Getty Images/Bob Thomas
Formando uma parceria de ataque memorável com o experiente Mark Hughes, o King (como ficou conhecido o francês) chegou do Leeds United para devolver o clube mancuniano ao lugar mais alto do futebol bretão.

A estreia de Cantona aconteceu no derby local, contra o Manchester City. Na ocasião, seu time ocupava a sexta colocação da Premier League, que vivia sua primeira temporada. A vitória por 2 a 1 foi só o primeiro passo rumo ao topo. Era vivida a 18ª rodada da competição.

Então, o time entrou nos eixos. Até a 42ª rodada (naquele ano a disputa envolveu 22 equipes), os Red Devils obtiveram 17 vitórias, seis empates e só perderam duas vezes. Uma reta final perfeita, com sete vitórias nos últimos sete jogos, garantiu o título, pela margem de 10 pontos de vantagem para o vice-campeão Aston Villa.

Os nove gols marcados por Cantona naquela campanha foram o prenúncio do que se viveria até 1997. Com Éric, que acabou se aposentando no referido ano, com apenas 30 anos, o United conquistou quatro títulos da Premier League. E poderiam muito bem ter sido cinco as glórias, com um pentacampeonato em sequência.

O incidente mais famoso da história de Cantona

Na temporada 1994/95 acabou acontecendo o incidente pelo qual o francês ficou marcado para sempre. O Manchester United viajara a Londres para enfrentar o Crystal Palace na sequência de uma vitória contra o Blackburn, que liderava o campeonato. Aos 49 minutos da partida, Cantona foi expulso e, na saída para os vestiários, protagonizou uma das cenas mais pitorescas da história do futebol inglês.

Ofendido por um torcedor do time da casa, que o teria mandado retornar à França, além de tê-lo chamado, sem cerimônias, de “filho da puta francês”, o atacante se voltou para a arquibancadas com um chute ao estilo kung fu. Aquele esteve longe de ser o primeiro incidente da carreira do atacante, que foi imediatamente repreendido internamente.


Além de impor uma multa, o Manchester United suspendeu o atacante, obrigando-o a ver das arquibancadas o desfecho da temporada. Mais tarde a FA (Federação Inglesa de Futebol) confirmaria um banimento de oito meses. Como poucas vezes se viu na Inglaterra, a disputa pelo título daquele ano foi feroz. 

Mas a distância marginal de um ponto foi suficiente para consagrar o Blackburn, que tinha uma dupla de ataque feroz naquele ano: Chris Sutton, autor de 15 gols na competição, e Alan Shearer, o artilheiro do certame, com assombrosos 34 tentos. 

Tardiamente, entretanto, Ferguson, em seu livro “Liderança”, escrito a quatro mãos, com Michael Moritz, acabou por fazer a análise da temporada sem deixar de transparecer certa decepção com Cantona:

“Quando suspendemos Éric (suspensão que depois a FA tornou mais severa), estávamos a apenas um ponto da liderança, e, se ele tivesse jogado até o fim da temporada, tenho certeza de que teríamos vencido por cerca de dez pontos pontos em vez de termos perdido por apenas um ponto para o Blackburn Rovers”.

Naquele ano, Cantona vinha sendo fundamental para os planos do treinador escocês. Havia jogado 21 jogos de Premier League e balançado as redes 12 vezes — o que inclui tentos decisivos nas duas vitórias mancunianas no confronto direto contra o Blackburn.

Marcas eternas de um personagem inesquecível

O acontecimento ocorrido em Selhurst Park também acabou impactando a vida de Éric na seleção francesa. Marcado pelo fracasso nas eliminatórias para a Copa de 1994, perdeu a braçadeira de capitão dos Bleus e nunca mais atuou por seu selecionado, embora fosse um talento indiscutível de apenas 28 anos.

Mas Cantona era um jogador diferente. Para muitos, um tipo excêntrico. Embora tenha admitido, em entrevista concedida aos britânicos da BBC em 2011, que errou ao atacar o torcedor do Palace, nunca transpareceu arrependimento.
Foto: Getty Images

“Quando eu dei o chute no hooligan foi porque esse tipo de gente não deve estar no jogo [...] Um jogador pulando e chutando um hooligan não é o tipo de coisa que você vê todos os dias [...] Foi um erro. Mas a vida é assim. Esse sou eu”.

A agressão marcou a história do futebol inglês e, para muita gente, é a primeira imagem que vem à mente quando se pensa em Éric Cantona. Para o Manchester United pode ter custado um título; para o astro alguns troféus e mais reconhecimento por seu brilhantismo dentro das quatro linhas. 

Mas são casos com esse que fazem do futebol o que ele é. São coisas como a gola levantada, e a força de um caráter inabalável que reagiu de forma extrema a um ato xenófobo, que tornam o futebol o esporte apaixonante que é. Por mais que às vezes possam ser determinantes para a perda de um título. Como diz o clichê: não é só um jogo.

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