segunda-feira, 21 de maio de 2018

Nainggolan fora da Copa do Mundo não é um absurdo

Nesta segunda-feira (21), o treinador Roberto Martínez divulgou uma lista preliminar dos jogadores que representarão a Bélgica na próxima Copa do Mundo. Inevitável e rapidamente, um assunto se tornou tendência no mundo todo: a ausência de Radja Nainggolan, meio-campista da Roma.


Foto: Getty Images


Não há dúvidas de que qualidades, enquanto futebolista, o belga, de origens indonésias, teria para integrar o grupo de selecionáveis dos Diabos Vermelhos. Aliás, para muitos, o atleta seria uma peça fundamental e indispensável às pretensões da equipe. Nunca para seu treinador, entretanto. 

A ausência de Nainggolan não é novidade, como demonstra seu recorde histórico. Embora tenha conquistado seu primeiro chamado em 2009, desde então só fez 30 partidas por sua nação. Ele não esteve no grupo que disputou a Copa do Mundo de 2014 e, recentemente, esteve ausente de toda a reta final das Eliminatórias. No amistoso mais recente, contra a Arábia Saudita, atuou por apenas 31 minutos.

A influência dos fatores extracampo

No momento em que Radja foi deixado de lado por Martínez, integrando, inclusive, os trending topics do Twitter em âmbito mundial, muitas teorias têm vindo a público como justificativa para sua não-inclusão. Não é mistério para ninguém que acompanha de perto a trajetória do meia sua personalidade forte, algumas posturas controversas e a existência de problemas com o treinador espanhol. Mas não é só isso.

Chamado de “petulante” pelo jornalista Peter Staunton, do Goal.com, Nainggolan é muito lembrado por uma questão polêmica: é fumante. São fartos os exemplos de atletas que conjugavam desse vício, mas, com o passar dos anos, esses foram se tornando cada vez menos — havendo reservas àqueles que não largaram os cigarros. Aqui não se trata apenas de uma questão social, mas de saúde.

Ainda que a decisão de fumar, ou não, pertença à esfera privada de cada atleta, é certo que o vício traz impactos negativos ao físico de qualquer um — imagine-se, então, o caso em que o fumante é alguém que, diariamente, leva seu corpo a extremos em sua atividade profissional. Porém, esse não é o único motivo que teria começado a arruinar o relacionamento entre comandante e comandado.

Foto: BPI
O referido periodista informou que, durante a Euro 2016, o único torneio em que Radja participou da fase final, o meia teria recebido um quarto com varanda, para que pudesse fumar e que o teria “destruído”. Além disso, revelou o jornal belga Het Nieuwsblad, que Nainggolan teria se atrasado para uma reunião da equipe, antes da partida contra a Estônia, válida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2018.

Mais uma polêmica foi criada após a passagem de ano de 2017 para 2018. Foram divulgados vídeos do jogador embriagado e fumando. Dias depois, o meia se desculpou.

Outro ponto que pode ser levantado em desfavor do jogador é uma certa volatilidade em seu comportamento. Em agosto de 2017, depois de não ter sido chamado para as partidas contra Gibraltar e Grécia, anunciou a aposentadoria da seleção. Pouco depois, desmentiu a informação. Na ocasião, teria questionado a escolha por Youri Tielemans: “Vou deixar o futebol de seleções agora. Não faz sentido. Ele [Roberto Martínez] chama Youri Tielemans, que está no banco e jogando poucos minutos no Monaco”.

Durante o evento Bilbao International Football Summit, Martínez foi enfático ao dizer que a melhor seleção possível não necessariamente é a que une os melhores jogadores — do ponto de vista técnico —, mas aquela que alcança maior coesão coletiva. Certamente, esse foi um dos pontos que devem ter pesado na hora da tomada de decisão do comandante.

A forma recente não é a melhor

É justo dizer, também, que a temporada de Nainggolan não foi sua melhor pela Roma. Embora tenha obtido seu recorde máximo de assistências, nove, seu desempenho como um todo caiu. 

Nesse sentido, relata o jornalista Felipe Portes, torcedor da Roma e dono do blog Coração de Roma:

"Abaixo de seu próprio nível, Nainggolan foi improvisado em funções bizarras ao longo da temporada. Fisicamente, não conseguiu igualar a agressividade do ano passado, quando foi vital no time de [Luciano] Spalletti. Com [Eusébio] Di Francesco teve mais liberdade, mas na reta final sua queda física foi visível. A atuação ruim contra o Liverpool, em Roma, foi o retrato disso. Quando entrou de fato no jogo, era tarde demais.
É claro que as polêmicas extra-campo ajudam a completar a equação de Radja fora da Copa, mas no fundo a opção de Roberto Martinez em tê-lo fora não era segredo para ninguém. E a julgar pelo seu desempenho, é difícil usar a palavra injustiça para falar sobre sua ausência no Mundial de 2018."

A concorrência é boa

Há ainda mais elementos para se considerar. Radja não foi preterido em favor de atletas ruins. Longe disso. Dentre os escolhidos por Martínez, seus competidores são Mousa Dembélé, Marouane Fellaini, Axel Witsel, Tielemans, Thorgan Hazard e Leander Dendoncker. É claro: tratam-se de jogadores com diferentes características. Todavia, todos eles já mostraram aptidão para atuar nas posições preferenciais de Nainggolan, como meia central ou camisa 10.

Foto: Getty Images
Pode-se dizer que Dendoncker não teria a experiência necessária para estar no maior palco do futebol Mundial, tendo sempre atuado no Anderlecht. Não se pode negar, entretanto, que há alguns janelas de transferências é reconhecido um talento importante, ligado a negociações com clubes da Premier League. 

A respeito de Witsel, o único contra que pesa contra si é o fato de atuar no futebol chinês. Fellaini é muito criticado no Manchester United, mas a verdade é que sempre cumpriu fielmente as funções táticas que lhe são requeridas — para além de ser uma constante ameaça aérea.

Dembélé é um dos pilares do Tottenham de Mauricio Pocchetino e um dos melhores meio-campistas da Premier League. Tielemans, de fato, viveu uma temporada de adaptação no Monaco, mas é um daqueles jogadores que estão sendo preparados para o futuro. Tem apenas 21 anos. Por fim, o Hazard menos famoso fez uma temporada soberba na Bundesliga. Foi o líder de gols e assistências do Borussia Mönchengladbach, com 10 e cinco, respectivamente.

É difícil deixar Radja de fora, mas também não é fácil o encaixar

E, como ser não bastasse, o próprio Roberto Martínez já foi a público dizer que tentou alocar Nainggolan em seu time, mas que não resultou bem. Paciência: a lista de bons jogadores que falharam mundiais não é pequena. À Sports Magazine, em 2017, o técnico falou:

“Compreendo que Radja [Nainggolan] é alguém muito popular. Mas tenho que tomar decisões baseadas no balanço da equipe [...] O Radja joga seu melhor pela Roma quando atua na função de número 10, com liberdade, por trás de [Edin] Dzeko [...] o tentamos como 10 contra Rússia, República Tcheca e Grécia e nunca fomos bem-sucedidos. Sei que Radja é um jogador com potencial enorme, mas ele não é um atleta que você coloca como 15ª, 16ª opção, ele precisa ter um papel importante”.

Ou seja: são muitos os fatores que podem ter levado Roberto Martínez a deixar Nainggolan de fora da disputa da Copa do Mundo. Não se trata apenas de questões extracampo, performances ou táticas. Ainda assim, a Bélgica conta com ótimas alternativas. Embora polêmica, a opção do treinador espanhol não é nenhum absurdo.

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