sábado, 30 de junho de 2018

Decidindo aos dezenove

Indecisão, alguma insatisfação e incerteza. Uma considerável parte do que rondava o íntimo desse autor, um jovem adulto que iniciava o segundo ano de seu curso universitário, se baseava nisso. 19 anos. Enquanto isso, no mundo daquilo que importava, Neymar, que já carregara o Santos um ano antes ao título da Copa Libertadores da América, chegava mais uma vez às fases decisivas. Dessa vez, parando nas semifinais. Tinha ele 20. Quão fascinante era perceber a grandeza que o mundo do futebol permitia à gente tão jovem…


Foto: Getty Images


Anos depois, ainda é assombroso notar que o atacante brasileiro tem apenas 26 anos. Já são 10 de carreira. Mas em 2018 o mundo já se acostumou com o que o craque tem a oferecer. Suas capacidades e potencial não são colocados sob quaisquer dúvidas. É de se notar, porém, que embora o esporte permita a ascensão fulgurante de talentos de insuspeita juventude, não é sempre que despontam essas estrelas. No Mundial da Rússia, outra tem se provado.

Kylian Mbappé Llotin apareceu aos 16, tornando-se o jogador mais jovem a defender as cores do Monaco. Logo, bateu outro recorde: passou a ser o goleador mais moço da equipe do Principado. Assumiu a titularidade. Pouco depois, já deixava sua marca na Liga dos Campeões — o Borussia Dortmund que o diga. Contra muitos prognósticos, ainda foi fundamental para a conquista do título francês de seu clube, em 2016/17.

Frio, decidido, maduro, técnico… Rapidamente, as comparações com Thierry Henry, gênio francês, foram caindo por terra. O motivo? Mbappé já era maior do que qualquer rótulo. Por mais honra que possa advir de uma comparação dessa dimensão, ser apenas Kylian mais do que basta. Veio então a polêmica transferência para o Paris Saint-Germain. O Monaco claramente havia ficado pequeno para seu craque. Porém, o empréstimo com obrigação de compra parecia um negócio obscuro. Bem ou mal, rendeu €180 milhões de euros aos cofres de seu clube-mãe.

E valeu. Sob a direção de Neymar, que também embarcou em aventura parisiense, procurando um protagonismo que jamais teria enquanto permanecesse no Barcelona e o clube catalão contasse com Lionel Messi, o garoto fez 46 jogos, anotou 21 tentos e criou 16 assistências. Levantou os canecos do Campeonato Francês, da Copa da França e da Copa da Liga.

Ah, “jogar no PSG no contexto francês é fácil”, disseram. Que venha a Copa, então, céticos. Até ser selecionado por Didier Deschamps para integrar o seleto grupo de 23 representantes da França, Mbappé havia defendido Les Bleus em 15 jogos, nove amistosos e seis partidas eliminatórias para o Mundial. Marcara quatro vezes.

Foto: AFP
Seu desempenho durante a temporada, todavia, foi suficiente para que o treinador gaulês lhe entregasse a titularidade — além de uma pesada camisa 10, que foi de gente como Zinédine Zidane e Michel Platini. Como um todo, a França fez apenas o seu serviço nas partidas contra Austrália, Peru e Dinamarca. Foi econômica ao anotar míseros três gols (um deles de Kylian) e fazer um jogo especialmente medíocre contra os escandinavos. Mas, como esperado, avançou com a liderança de seu grupo.

Quis o destino que a Argentina vivesse um inferno astral na Rússia. Todos os problemas que antecederam a viagem foram escancarados e foi com drama que os Hermanos avançaram às oitavas de final. A segunda posição em seu grupo sentenciou a Albiceleste a enfrentar os franceses, que a despeito da classificação tranquila precisavam revelar seus propósitos no Mundial. Assim fizeram. Rápida e impiedosamente. Expondo tudo aquilo que se esperava de seu prodígio.

Não eram marcados sequer dez minutos quando Mbappé expôs a fragilidade defensiva da esquadra sul-americana ao sofrer falta perigosa que Antoine Griezmann com perícia arrematou no travessão. Dois minutos depois, voltou a forçar os argentinos a usarem de métodos pouco ortodoxos para conter os avanços do astro francês. Marcos Rojo só o parou com falta… dentro da área. Coube a Griezmann a missão de cobrar a penalidade e inaugurar o placar.

Tudo pareceu se complicar quando Ángel Di María e Gabriel Mercado viraram o placar para a Argentina. Mas a França foi à luta. Primeiro, com Benjamin Pavard, outro garoto, que protagonizou uma pintura de longa distância. Depois, com ele, Mbappé. Duas vezes. O atacante do PSG se tornou o primeiro jogador, desde um certo Pelé, a balançar as redes mais de uma vez em fase final de Copa do Mundo antes dos 20 anos.

Apesar disso, o sucesso não lhe subiu à cabeça. Perguntado sobre Pelé, revelou que o Rei: “é de outra categoria”. Sobre o dinheiro que receberia por representar seu país, disse o L’Equipe que o jogador recusou e vai doar toda a verba à caridade. Não é só dentro do campo que Mbappé chama a atenção. 

Seu limite? Impossível de se conhecer. Certo é que já desde os 19 ele vence. Com frequência. Participando diretamente. Decidindo. Como um adulto formado, a despeito da pouca idade. Colocando seu nome na história.

2 comentários :

  1. Belo texto. Em termos de perspectiva futuras, parece que não há ninguém à frente de Mbappé

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